A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Não sei se haverá poema capaz algum,
De mostrar o que na minha alma vêem,
Não sei se valerá apenas escrever um
Quando só nostalgia e solidão saem.
Brilham ao sol teus cabelos doirados,
Guiando-me por caminhos agrestes,
Consolam-me os lamentos irados,
O calor de mil estrelas ardentes.
Passeias-te como uma fresca brisa,
Deixas no ar cheiros de fantasia,
Refrescas-me a mente submissa,
Sonhos ao luar com maresia.
Bela e formosa de olhar apelativo,
Serei para sempre teu até ao fim,
Assim meu coração ficou cativo,
Perdurando a tua imagem em mim.
Encanta-me a tua jovialidade carnal,
Esteticamente pura e ilusória,
Deixa-me contemplar-te trivial,
Platonicamente desejar-te peremptória.
Como andorinha-do-mar te vi chegar,
Perdido no Oceano vieste-me encontrar,
Levaste-me para tua casa a pernoitar,
Como sereia aos meus braços vieste pousar.
Lx, 7-9-1994
708
Monotonamente Escrevendo
Farto-me de Ser simplesmente,
De viver o que não quero ser,
De nascer tão fluentemente,
Para no fim morrer sem querer.
Ansioso por vida complexa e completa,
E vergando-me perante o seu peso,
Acabo por ser uma alma discreta,
Liberto-me gritando .
Nada me faz andar,
Nada me faz correr,
Continuarei até quando a pensar,
Se continua eternamente a chover.
Lx, 12-6-1994
637
Sonho Benigno
Pelo campo andavas a deambular,
Esquiva pelos beirais em devaneio,
Dei por ti um dia assim ao sonhar,
E logo me ficou o coração cheio.
Cheio com a presença do teu olhar,
Perdido no perfume do teu cabelo,
Louco e apaixonado pelo teu pensar,
Fazes-me viver em tons d'amarelo.
Estou bem quando encantado por ti,
Amanso quando a tua boca sorri,
Só para mim, enfim só por mim.
Deleito-me com a tua contemplação,
Tão servil e pura na minha imaginação,
Tão-somente e sempre, até ao fim.
Lx, 25-1-1994
706
Vento Amigo
No vento procuro consolo amigo,
Que ninguém mais me poderá dar,
Murmura-me onde encontrar abrigo,
Onde eu me possa lamentar.
Nas planícies embrumadas eu caminho,
Em busca dum destino meu e só,
Transtornado e em pleno desalinho,
Acabo apenas por lhes fazer sentir dó.
Deixem-me para lá das montanhas,
Sucumbir escoando-me pelo rio,
Construir pequeninas casinhas,
Rodeadas de tumbas em pousio.
Lx, 11-11-1993
739
O Fogo e as Cinzas
Que agradável o cheiro a queimado,
Do fogo não conseguirei sair,
O vento quente a ele associado,
Não me deixará jamais fugir.
As labaredas deixaram-me cercado,
Condenado eu fiquei ao nascer,
Em ter de viver desamparado,
Sem lucidez que me fizesse florescer
Sentir-me sempre a viver ao lado,
E pensar ter já tudo dado,
Não é que me tivesse importado,
Por estes mares já eu tinha navegado.
Já me tinham perguntado,
Se me sentia aprisionado,
Eu respondi infortunado,
Ao mar as cinzas tinha lançado.
. Lx, 8-11-1993
687
Incógnitas Viagens
Pela estrada fora meus olhos cintilam,
Em busca de paragens onde deambular,
À porta do céu azul em espanto ficam,
Esperando contemplar a minha alma voar.
Pelos montes irei sobrevoar emplumado,
Pelas pontes altas saltar até cair,
Jamais um dia me verão embarcado,
Em qualquer onda ao submergir.
Por velhas sombras eu me seguirei,
Estampadas em rostos de pedras graníticas,
Minhas preces pela serra proclamarei,
Aos ouvidos mudos d'almas paralíticas.
Lx, 8-11-1993
686
Impaciência
Um barco ao longe vi navegar,
E meu amor nele ouvi cantar,
Não consegui definir o seu destino,
Ficando o meu coração em desalinho,
Para sempre à espera irá ficar,
Até a sua grande paixão retornar,
Até amanhecer um dia vespertino,
E voar no horizonte um passarinho,
Que as boas novas me venha dar,
Regressou o teu carinho além-mar.
Lx, 7-10-1993
845
Introspectivamente
Continuarei sempre a lamentar-me,
Culpando-me sempre do sucedido,
Jamais quererei lembrar-me,
Do tempo que passei entristecido.
As lembranças não me têm movido,
São vazias de poder sentimental,
Já me lembrei de ter morrido,
Mas era sonho de mente serviçal.
Lx, 7-10-1993
743
Vagabundos
Tão profunda a dor eles sentem,
Morrer é apenas mais um idem,
Desalinhados e pobres pelos becos,
Jamais ouvirão os puros ecos,
Porque as lágrimas não mentem,
Quando pelas faces vertem,
Com a alma presa em paredes,
Corações quebrados dormentes,
Infelizes apenas geram ascos,
Neste mundo pleno em vácuos,
Que pena serem como eu,
Um ingénuo e mero plebeu.
Lx, 23-6-1993
629
Versos de Lamentação
Contigo nasci para amar,
Sob o leito da dor,
Vou para sempre encarnar,
A dúvida num mito incolor.
A terra a lamentar me chama,
Glorioso de sonhos proclamo,
Não somos mais do que lama,
Lançada pelo vento ao nosso Amo.
Todos nascemos para morrer,
Gozar a vida a sonhar,
Vamos com certeza renascer,
Para divinalmente a utopia adorar.
Ao alvorecer acordamos em busca de alguém,
Objectivamente tentamos esculturar belezas,
Em faces e corpos que julgamos ser do além,
Mas as suas almas há muito caíram nas profundezas.
A chuva cai fria pela madrugada,
Anseio por braços quentes ao meu regresso,
A chuva impiedosa cai desalmada,
Continuo à tua espera sem sucesso.
Uma história inesquecível eu tinha para contar,
Com ela muitos iriam sorrir,
Acabaram por me interpelar,
E perguntar se era verdade o que iriam ouvir.
A noite cai uma vez mais escura,
Com ela a vida parece hibernar,
Para quê torná-la ainda mais obscura,
Se dela não nos podemos alienar.