Nascido
Jamais me esquecerei,
Que me fizeram,
Nascer um Dia,
Simplesmente,
Infindável.
Lx, 18-7-2000
Andorinhas
da Primavera,
Deambulam
a cantar,
Anunciam
uma nova era,
Trazem
notícias além Mar.
Andorinhas
dos beirais,
Ouviram
os meus lamentos,
Voaram
pelos trigais,
Voam
aos sete ventos.
Andorinhas
nos ninhos,
Criam
os pequeninos,
Todos
muito juntinhos,
Ouvem
tocar os sinos.
Andorinhas
ao vento,
Saúda-vos
um amigo,
Descansam
ao relento,
Uma
cova por abrigo.
Andorinhas
da Cidade,
Senhoras
da Liberdade,
Irradiam
a Luz da Verdade,
Tenhais
por nós piedade.
LX,
11-6-2002
Porque
te deram consciência um dia,
Não
seria para teres noção de ti mesmo,
Porque
te encharcas de perfume,
O
mau cheiro que exalas não alivia,
Porque
olhas de soslaio tão pasmo,
Não
tens a escola toda dos energúmenos.
Continuas
a ver novelas baratas,
E
a tua vida já vai no enésimo episódio,
Continuas
a defecar nas matas,
Não
o levas contigo por lhe teres ódio,
Continuas
a cantar-lhes serenatas,
Não
vês que já todos chegaram ao pódio.
Conduzes-te
de carro até ao café,
Mas
não vês da tua casa,
Que
ainda não fizeram Drive in,
Levei-te
comigo ao pontapé,
Fiz-te
uma cova abrigada,
Acreditaste
idiota ser o Holiday in.
LX,
19-3-2002
Dos
confins do Universo,
Ouço
um ligeiro fervilhar,
Gerou-se
um dia adverso,
Ousou
o horizonte perfilhar.
Matéria
incandescente por moldar,
A
eternidade dos elementos sós,
Energia
em rodos por soltar,
Perdeu-se
algures o feiticeiro de Oz.
Os
Planetas rodopiam sem cessar,
Em
redor do Sol tão iluminados,
Sabem
o caminho a tomar,
Até
que de Luz fiquem inundados.
Sistemas
bi-Solares,
Luas
prateadas,
Ou
de cor grená,
Ventos
solares,
Montanhas
paradas,
Calotes
Polares,
Por
Mar cercadas,
Florestas
ancestrais,
Coros
angelicais,
Não
reparais.
LX, 19-3-2002
Um
certo dia nasceu a luz,
Antecedeu-lhe
a sua identidade,
Gerada
das trevas como pus,
Fez
jus à sua luminosidade.
Um
certo dia nasceu a música,
Desafiou
o silêncio instalado,
Ecoou
por aí evasiva e mítica,
Quebrou
o meu coração gelado.
Um
certo dia nasceu a consciência,
Ávida
por respostas a tudo,
Criou
o entendimento da aparência,
Vingou
o caos do existencialismo mudo.
A
vida não passa duma ilusão Universal,
Um
certo dia extinguir-se-á sozinha,
A
noite eterna virá silenciosa como tal,
O
sonho da criação desvanece e definha.
As
trevas instalar-se-ão devagar,
A
música deixará de se ouvir,
Os
músicos há muito deixaram de tocar,
E
a vela do candelabro deixou de luzir.
Fechem
as fábricas,
E
as escolas também,
Fechem
as bocas,
Tudo
muito bem.
Fechem
os corações,
Aos
sentimentos,
Fechem
as prisões,
Aos
comportamentos.
Fechem
as igrejas,
À
moralidade,
Fechem
as invejas,
Na
obscuridade.
Fechem
o caixão,
Duma
vez por todas,
Não
deixem tostão,
Esqueçam
as bodas.
LX,
19-10-2001
Inquietude
que me tormentas,
Dia
e noite, de manhã, à noitinha,
Sob
o peso da consciência lamentas,
Invocaram-me
numa ladainha.
Alma
enclausurada e escondida,
Com
medo da luz das trevas,
Insultada,
ultrajada e perdida,
Diluiu-se
numa aurora em névoa.
Fui
à sua procura um dia,
Demorei
tempos afim, uma vida,
Procurei
em vales onde me perdia,
Só,
chorei a perda sofrida.
Deixaste-me
para sempre só,
Não
levaste contigo o pensar,
Ele
vai-me consumir até ser pó,
Pensamentos
o Fim hão-de lembrar.
A
cambalear o caminho prossigo,
Não
sei o destino, ao que vou,
Implorei
ao vento um abrigo,
Sussurrou
e as folhas com ele levou.
Continuo
a minha busca incessante,
Subo
montes, procuro-te no céu,
Os
passos conduzem-me avante,
O
vento cessou, só a chuva permaneceu.
O
corpo envelheceu devagar,
Coberto
de sofrimento atroz,
Cansado
de tanto procurar,
Ousou
um dia ser um albatroz.
Para
poder voar sobre o Mar,
Vaguear
por entre as nuvens,
Eternamente
sustentado pelo ar,
Apelei
à Lua por ti, mas não vens.
Por
fim o pavio esfumou-se,
Por
fim o trilho esgotou-se,
Por
fim a alma esgueirou-se,
Por
fim a resposta materializou-se.
Afinal
a Alma era Eu próprio,
Final
era Eu a sombra existencial,
Afinal
era Eu poeira sideral,
Afinal
Deus era Eu próprio.
LX, 7-9-2001
Só
Eu verdadeiramente te conheço,
Como
um Anjo da Guarda te protejo,
Vou
e venho com a brisa do Tejo,
Vou
contigo e em Ti permaneço.
As
lágrimas e os soluços sufocantes,
Decifraram
o enigma da Vida,
Nas
ondas do mar consolantes,
Vim
com a maré e o luar convida.
Partilhaste
a tua dor comigo,
Numa
noite fria e soturna,
Cheguei
com a luz da aurora amigo,
E
iluminei-te a face taciturna.
Desfizeram-se
os teus sonhos de mulher,
Simplesmente
porque já cresceste,
Sorveste
o último laivo à colher,
Vim
com a chuva e a rua desceste.
Se
a tristeza não te abandonar,
Vai
de manhã logo de madrugada,
Deixar
a tua alma liberta voar,
Eu
logo virei com a Morte abrigada.
Se
andas sozinha no Mundo,
Vem
com o vento levemente,
Vem
comigo lá bem ao fundo,
Onde
as sombras inebriante a mente.
Fecha
a porta à imaginação,
Deixa
irem embora os sentimentos,
Larga
os teus sentidos à extinção,
Ao
vazio deixa os desalentos.
Porque
a Noite é reconfortante,
Meiga
e companheira fiel,
Deixa-a
embalar-te bastante,
Adoçar-te
a alma neste Mundo fel.
Porque
ela é incolor também,
É
a paz infinita com certeza,
Eterna
para além de todo o bem,
O
silêncio impera sem música nem tristeza.
Eu
te reconfortarei à noitinha,
Porque
eu não existo como tal,
Eu
nada sou e não és minha,
Deixa
de ser comigo e dá a vida como aval.
LX, 17-7-2001
Memórias
pintadas de fresco,
Visões
apocalípticas,
Lufadas
de ar fresco,
Prisões
paleolíticas.
Ventos
sopram augurantes,
Sussurram-me
aos ouvidos,
Trazem
novas extravagantes,
Usurpam-me
os sentidos.
Contemplo
o horizonte embevecido,
Esquadrinho
todos os cantos,
O
Mar espraia-se enraivecido,
Pela
Lua namorar os campos.
Céu
e Terra tocam-se nos cumes,
Névoa
gerada ladeia as encostas,
Nas
casas ardem os lumes,
E
as mesas já estão postas,
O
pão abençoado,
Pelo
meio mais um trago,
O
mal exorcizado,
Ainda
longe de estar pago.
O
cão ladra para as pedras da calçada,
As
ladainhas já fecharam a Igreja,
Guarda-se
uma ovelha tresmalhada,
O
sino dobra e o mocho pestaneja,
A
aldeia dorme sossegada,
Que
Deus a proteja.
LX, 13-4-2000
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