Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

Perfil
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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

16

Singularidades


Na mais profunda singularidade vazia e ténue, onde se esbatem os desejos mais enternecedores e acolhedores, brota uma paz duradoura e fulminante.
Na mais ínfima fracção de tempo, vigora o nada remanescente e eterno, complemento de tudo, elemento absorvente e aniquilador de todas as existências erráticas.
No fim do horizonte apaziguador e terno, ciente do seu minimalismo singular e arrebatador, está inerte o silêncio filantrópico milenar, onde toda a acção se esbate e definha no infinito, eterno e incomensurável, sem consciência da sua própria identidade.
Na mais ínfima fracção da noite, ousou um dia fazer-se luz, que logo se fez sombra e se tornou pesadelo irreversível, apenas solúvel na paz arrebatadora do vazio transcendental.
Alucinação intemporal e paranóica do vazio relativo, fez-nos um certo dia ganhar consciência num circo de marionetas onde a tristeza reina absolutamente.
Uma exaltação do Cosmos deu-nos a conhecer a nossa irrelevância mesquinha, como resposta à sua própria irreverência metafísica.
Um dia espalhados os nossos elementos pelo vazio do Universo, tal e qual poeira cósmica ao sabor dos ventos solares, vagueando sem destino, sem rumo, sem história, sem recordações, nem desejos, nem ambições, apenas sós, errantes, eternos, apaziguados, serenos e inatingíveis.
Voltarão a ser sábios inatos, preenchidos pela ausência de porquês, onde os dias serão sempre iguais, silenciosos e distantes num sono idílico, purificador e criogénico, onde o Ser intrínseco hiberna rumo ao Infinito e com Ele se extinguirá, para se tornar em nada por Fim.

Lx, 18-8-2003
669

Holocausto


Famintas ali colocadas,
Tão cansadas,
Famílias destroçadas,
Ao frio largadas,
Humilhadas,
Mães e filhos,
Separados,
Despidos,
Açoitados,
À força levados,
Para a morte certa,
Gemidos,
Lamentos,
Gritos lancinantes,
Corpos caídos,
Silêncio estendido,
Loucos soldados,
O bem escarnecido,
Fornos cheios,
Lume acendido,
Fumo perdido,
Almas queridas,
Esvaziadas,
Hoje lembradas,
Amanhã esquecidas.

Lx, 12-5-2005
684

Andorinhas



Andorinhasda Primavera,

Deambulama cantar,

Anunciamuma nova era,

Trazemnotícias além Mar.

Andorinhasdos beirais,

Ouviramos meus lamentos,

Voarampelos trigais,

Voamaos sete ventos.

Andorinhasnos ninhos,

Criamos pequeninos,

Todosmuito juntinhos,

Ouvemtocar os sinos.

Andorinhasao vento,

Saúda-vosum amigo,

Descansamao relento,

Umacova por abrigo.

Andorinhasda Cidade,

Senhorasda Liberdade,

Irradiama Luz da Verdade,

Tenhaispor nós piedade.

LX,11-6-2002

859

Rapaziadas

Porquete deram consciência um dia,

Nãoseria para teres noção de ti mesmo,

Porquete encharcas de perfume,

Omau cheiro que exalas não alivia,

Porqueolhas de soslaio tão pasmo,

Nãotens a escola toda dos energúmenos.

Continuasa ver novelas baratas,

Ea tua vida já vai no enésimo episódio,

Continuasa defecar nas matas,

Nãoo levas contigo por lhe teres ódio,

Continuasa cantar-lhes serenatas,

Nãovês que já todos chegaram ao pódio.

Conduzes-tede carro até ao café,

Masnão vês da tua casa,

Queainda não fizeram Drive in,

Levei-tecomigo ao pontapé,

Fiz-teuma cova abrigada,

Acreditasteidiota ser o Holiday in.

LX,19-3-2002

755

Lá longe em casa

Dosconfins do Universo,

Ouçoum ligeiro fervilhar,

Gerou-seum dia adverso,

Ousouo horizonte perfilhar.

Matériaincandescente por moldar,

Aeternidade dos elementos sós,

Energiaem rodos por soltar,

Perdeu-sealgures o feiticeiro de Oz.

OsPlanetas rodopiam sem cessar,

Emredor do Sol tão iluminados,

Sabemo caminho a tomar,

Atéque de Luz fiquem inundados.

Sistemasbi-Solares,

Luasprateadas,

Oude cor grená,

Ventossolares,

Montanhasparadas,

CalotesPolares,

PorMar cercadas,

Florestasancestrais,

Corosangelicais,

Nãoreparais.

LX, 19-3-2002

774

Antítese

Umcerto dia nasceu a luz,

Antecedeu-lhea sua identidade,

Geradadas trevas como pus,

Fezjus à sua luminosidade.

Umcerto dia nasceu a música,

Desafiouo silêncio instalado,

Ecooupor aí evasiva e mítica,

Quebrouo meu coração gelado.

Umcerto dia nasceu a consciência,

Ávidapor respostas a tudo,

Criouo entendimento da aparência,

Vingouo caos do existencialismo mudo.

Avida não passa duma ilusão Universal,

Umcerto dia extinguir-se-á sozinha,

Anoite eterna virá silenciosa como tal,

Osonho da criação desvanece e definha.

Astrevas instalar-se-ão devagar,

Amúsica deixará de se ouvir,

Osmúsicos há muito deixaram de tocar,

Ea vela do candelabro deixou de luzir.

LX, 17-11-2001
801

Encerrado



Fechemas fábricas,

Eas escolas também,

Fechemas bocas,

Tudomuito bem.

Fechemos corações,

Aossentimentos,

Fechemas prisões,

Aoscomportamentos.

Fechemas igrejas,

Àmoralidade,

Fechemas invejas,

Naobscuridade.

Fechemo caixão,

Dumavez por todas,

Nãodeixem tostão,

Esqueçamas bodas.

LX,19-10-2001

829

Ser ou não Ser

Inquietudeque me tormentas,

Diae noite, de manhã, à noitinha,

Sobo peso da consciência lamentas,

Invocaram-menuma ladainha.

Almaenclausurada e escondida,

Commedo da luz das trevas,

Insultada,ultrajada e perdida,

Diluiu-senuma aurora em névoa.

Fuià sua procura um dia,

Demoreitempos afim, uma vida,

Procureiem vales onde me perdia,

Só,chorei a perda sofrida.

Deixaste-mepara sempre só,

Nãolevaste contigo o pensar,

Elevai-me consumir até ser pó,

Pensamentoso Fim hão-de lembrar.

Acambalear o caminho prossigo,

Nãosei o destino, ao que vou,

Imploreiao vento um abrigo,

Sussurroue as folhas com ele levou.

Continuoa minha busca incessante,

Subomontes, procuro-te no céu,

Ospassos conduzem-me avante,

Ovento cessou, só a chuva permaneceu.

Ocorpo envelheceu devagar,

Cobertode sofrimento atroz,

Cansadode tanto procurar,

Ousouum dia ser um albatroz.

Parapoder voar sobre o Mar,

Vaguearpor entre as nuvens,

Eternamentesustentado pelo ar,

Apeleià Lua por ti, mas não vens.

Porfim o pavio esfumou-se,

Porfim o trilho esgotou-se,

Porfim a alma esgueirou-se,

Porfim a resposta materializou-se.

Afinala Alma era Eu próprio,

Finalera Eu a sombra existencial,

Afinalera Eu poeira sideral,

AfinalDeus era Eu próprio.

LX, 7-9-2001

771

Empatia







SóEu verdadeiramente te conheço,

Comoum Anjo da Guarda te protejo,

Voue venho com a brisa do Tejo,

Voucontigo e em Ti permaneço.

Aslágrimas e os soluços sufocantes,

Decifraramo enigma da Vida,

Nasondas do mar consolantes,

Vimcom a maré e o luar convida.

Partilhastea tua dor comigo,

Numanoite fria e soturna,

Chegueicom a luz da aurora amigo,

Eiluminei-te a face taciturna.

Desfizeram-seos teus sonhos de mulher,

Simplesmenteporque já cresceste,

Sorvesteo último laivo à colher,

Vimcom a chuva e a rua desceste.

Sea tristeza não te abandonar,

Vaide manhã logo de madrugada,

Deixara tua alma liberta voar,

Eulogo virei com a Morte abrigada.

Seandas sozinha no Mundo,

Vemcom o vento levemente,

Vemcomigo lá bem ao fundo,

Ondeas sombras inebriante a mente.

Fechaa porta à imaginação,

Deixairem embora os sentimentos,

Largaos teus sentidos à extinção,

Aovazio deixa os desalentos.

Porquea Noite é reconfortante,

Meigae companheira fiel,

Deixa-aembalar-te bastante,

Adoçar-tea alma neste Mundo fel.

Porqueela é incolor também,

Éa paz infinita com certeza,

Eternapara além de todo o bem,

Osilêncio impera sem música nem tristeza.

Eute reconfortarei à noitinha,

Porqueeu não existo como tal,

Eunada sou e não és minha,

Deixade ser comigo e dá a vida como aval.

LX, 17-7-2001

829

A minha aldeia

Memóriaspintadas de fresco,

Visõesapocalípticas,

Lufadasde ar fresco,

Prisõespaleolíticas.

Ventossopram augurantes,

Sussurram-meaos ouvidos,

Trazemnovas extravagantes,

Usurpam-meos sentidos.

Contemploo horizonte embevecido,

Esquadrinhotodos os cantos,

OMar espraia-se enraivecido,

PelaLua namorar os campos.

Céue Terra tocam-se nos cumes,

Névoagerada ladeia as encostas,

Nascasas ardem os lumes,

Eas mesas já estão postas,

Opão abençoado,

Pelomeio mais um trago,

Omal exorcizado,

Aindalonge de estar pago.

Ocão ladra para as pedras da calçada,

Asladainhas já fecharam a Igreja,

Guarda-seuma ovelha tresmalhada,

Osino dobra e o mocho pestaneja,

Aaldeia dorme sossegada,

QueDeus a proteja.

LX, 13-4-2000

882

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