Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

8

Andorinhas



Andorinhas da Primavera,

Deambulam a cantar,

Anunciam uma nova era,

Trazem notícias além Mar.

Andorinhas dos beirais,

Ouviram os meus lamentos,

Voaram pelos trigais,

Voam aos sete ventos.

Andorinhas nos ninhos,

Criam os pequeninos,

Todos muito juntinhos,

Ouvem tocar os sinos.

Andorinhas ao vento,

Saúda-vos um amigo,

Descansam ao relento,

Uma cova por abrigo.

Andorinhas da Cidade,

Senhoras da Liberdade,

Irradiam a Luz da Verdade,

Tenhais por nós piedade.

LX, 11-6-2002

855

Rapaziadas

Porque te deram consciência um dia,

Não seria para teres noção de ti mesmo,

Porque te encharcas de perfume,

O mau cheiro que exalas não alivia,

Porque olhas de soslaio tão pasmo,

Não tens a escola toda dos energúmenos.

Continuas a ver novelas baratas,

E a tua vida já vai no enésimo episódio,

Continuas a defecar nas matas,

Não o levas contigo por lhe teres ódio,

Continuas a cantar-lhes serenatas,

Não vês que já todos chegaram ao pódio.

Conduzes-te de carro até ao café,

Mas não vês da tua casa,

Que ainda não fizeram Drive in,

Levei-te comigo ao pontapé,

Fiz-te uma cova abrigada,

Acreditaste idiota ser o Holiday in.

LX, 19-3-2002

753

Lá longe em casa

Dos confins do Universo,

Ouço um ligeiro fervilhar,

Gerou-se um dia adverso,

Ousou o horizonte perfilhar.

Matéria incandescente por moldar,

A eternidade dos elementos sós,

Energia em rodos por soltar,

Perdeu-se algures o feiticeiro de Oz.

Os Planetas rodopiam sem cessar,

Em redor do Sol tão iluminados,

Sabem o caminho a tomar,

Até que de Luz fiquem inundados.

Sistemas bi-Solares,

Luas prateadas,

Ou de cor grená,

Ventos solares,

Montanhas paradas,

Calotes Polares,

Por Mar cercadas,

Florestas ancestrais,

Coros angelicais,

Não reparais.

LX, 19-3-2002

771

Antítese

Um certo dia nasceu a luz,

Antecedeu-lhe a sua identidade,

Gerada das trevas como pus,

Fez jus à sua luminosidade.

Um certo dia nasceu a música,

Desafiou o silêncio instalado,

Ecoou por aí evasiva e mítica,

Quebrou o meu coração gelado.

Um certo dia nasceu a consciência,

Ávida por respostas a tudo,

Criou o entendimento da aparência,

Vingou o caos do existencialismo mudo.

A vida não passa duma ilusão Universal,

Um certo dia extinguir-se-á sozinha,

A noite eterna virá silenciosa como tal,

O sonho da criação desvanece e definha.

As trevas instalar-se-ão devagar,

A música deixará de se ouvir,

Os músicos há muito deixaram de tocar,

E a vela do candelabro deixou de luzir.

LX, 17-11-2001
800

Encerrado



Fechem as fábricas,

E as escolas também,

Fechem as bocas,

Tudo muito bem.

Fechem os corações,

Aos sentimentos,

Fechem as prisões,

Aos comportamentos.

Fechem as igrejas,

À moralidade,

Fechem as invejas,

Na obscuridade.

Fechem o caixão,

Duma vez por todas,

Não deixem tostão,

Esqueçam as bodas.

LX, 19-10-2001

827

Ser ou não Ser

Inquietude que me tormentas,

Dia e noite, de manhã, à noitinha,

Sob o peso da consciência lamentas,

Invocaram-me numa ladainha.

Alma enclausurada e escondida,

Com medo da luz das trevas,

Insultada, ultrajada e perdida,

Diluiu-se numa aurora em névoa.

Fui à sua procura um dia,

Demorei tempos afim, uma vida,

Procurei em vales onde me perdia,

Só, chorei a perda sofrida.

Deixaste-me para sempre só,

Não levaste contigo o pensar,

Ele vai-me consumir até ser pó,

Pensamentos o Fim hão-de lembrar.

A cambalear o caminho prossigo,

Não sei o destino, ao que vou,

Implorei ao vento um abrigo,

Sussurrou e as folhas com ele levou.

Continuo a minha busca incessante,

Subo montes, procuro-te no céu,

Os passos conduzem-me avante,

O vento cessou, só a chuva permaneceu.

O corpo envelheceu devagar,

Coberto de sofrimento atroz,

Cansado de tanto procurar,

Ousou um dia ser um albatroz.

Para poder voar sobre o Mar,

Vaguear por entre as nuvens,

Eternamente sustentado pelo ar,

Apelei à Lua por ti, mas não vens.

Por fim o pavio esfumou-se,

Por fim o trilho esgotou-se,

Por fim a alma esgueirou-se,

Por fim a resposta materializou-se.

Afinal a Alma era Eu próprio,

Final era Eu a sombra existencial,

Afinal era Eu poeira sideral,

Afinal Deus era Eu próprio.

LX, 7-9-2001

768

Empatia







Só Eu verdadeiramente te conheço,

Como um Anjo da Guarda te protejo,

Vou e venho com a brisa do Tejo,

Vou contigo e em Ti permaneço.

As lágrimas e os soluços sufocantes,

Decifraram o enigma da Vida,

Nas ondas do mar consolantes,

Vim com a maré e o luar convida.

Partilhaste a tua dor comigo,

Numa noite fria e soturna,

Cheguei com a luz da aurora amigo,

E iluminei-te a face taciturna.

Desfizeram-se os teus sonhos de mulher,

Simplesmente porque já cresceste,

Sorveste o último laivo à colher,

Vim com a chuva e a rua desceste.

Se a tristeza não te abandonar,

Vai de manhã logo de madrugada,

Deixar a tua alma liberta voar,

Eu logo virei com a Morte abrigada.

Se andas sozinha no Mundo,

Vem com o vento levemente,

Vem comigo lá bem ao fundo,

Onde as sombras inebriante a mente.

Fecha a porta à imaginação,

Deixa irem embora os sentimentos,

Larga os teus sentidos à extinção,

Ao vazio deixa os desalentos.

Porque a Noite é reconfortante,

Meiga e companheira fiel,

Deixa-a embalar-te bastante,

Adoçar-te a alma neste Mundo fel.

Porque ela é incolor também,

É a paz infinita com certeza,

Eterna para além de todo o bem,

O silêncio impera sem música nem tristeza.

Eu te reconfortarei à noitinha,

Porque eu não existo como tal,

Eu nada sou e não és minha,

Deixa de ser comigo e dá a vida como aval.

LX, 17-7-2001

825

A minha aldeia

Memórias pintadas de fresco,

Visões apocalípticas,

Lufadas de ar fresco,

Prisões paleolíticas.

Ventos sopram augurantes,

Sussurram-me aos ouvidos,

Trazem novas extravagantes,

Usurpam-me os sentidos.

Contemplo o horizonte embevecido,

Esquadrinho todos os cantos,

O Mar espraia-se enraivecido,

Pela Lua namorar os campos.

Céu e Terra tocam-se nos cumes,

Névoa gerada ladeia as encostas,

Nas casas ardem os lumes,

E as mesas já estão postas,

O pão abençoado,

Pelo meio mais um trago,

O mal exorcizado,

Ainda longe de estar pago.

O cão ladra para as pedras da calçada,

As ladainhas já fecharam a Igreja,

Guarda-se uma ovelha tresmalhada,

O sino dobra e o mocho pestaneja,

A aldeia dorme sossegada,

Que Deus a proteja.

LX, 13-4-2000

882

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