A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
O frenesim dos pardais,
Perfeito.
O desabrochar das flores,
Perfeito.
As andorinhas ao alto,
Perfeito.
O bafo quente do Sol,
Perfeito.
Os odores exalados do campo,
Perfeito.
O vestir das árvores tão verde,
Perfeito.
A brisa fresca ao fim do dia,
Perfeito.
A Primavera chegou uma vez mais,
Perfeita, desejada e bela.
Tocou indelével no meu coração,
E ele chorou de alegria,
Ao abrir a janela à vida,
Inundando de aura luz,
A alma perdida,
De comoção.
Lx, 23-3-2009
692
Aflição Outonal
O frio chegou,
E a chama apagou.
A luz esbatida,
E a alma dorida.
O vento exaltou,
E o lobo uivou.
A lareira apagada,
E a voz magoada.
A chuva caiu,
E a mulher pariu.
Um olhar sofrido,
E o desejo cumprido.
Mais um infeliz,
Um pobre petiz.
Enxugado de luz,
Já cheio de pus.
Sempre tão ébrio,
Imolado pelo tédio.
Tão escuro ficou,
Nada contemplou.
Tudo desabou,
E pouco restou.
Lx, 12-11-2008
617
Áurea Solar
O Sol brilha quente,
Lisonjeador e afortunado,
Aquece as almas doridas,
Afaga-nos o corpo desnudado.
Ente querido criador,
Dás esperanças esperançado,
Às vidas que permitiste gerar,
Deambulando sob alçado.
Pela Terra a quem poupaste,
Ser teu regaço de chamas,
Agora esventrada à dor atroz,
Lancinante em voraz agonia.
Decalcada de almas sós,
Embriagadas com mil quimeras,
Voláteis sentimentalistas,
Vagueiam proscritas e infames.
Rogamos-te ó Sol,
Carrasco de primogénitos,
Tal como outrora precioso,
Ergamos as mãos ao alto.
Em uníssono suplicamos,
A luz da tua indulgência,
Apaziguadora e terna,
Sobre os nossos corações.
Frios e cansados,
Há muito quebrados,
Ansiosos pela fulgura,
De estrela mãe tão pura.
Lx, 3-10-2008
674
Inutilidades
Inútil andar amparado,
E viver aprisionado.
Inútil correr a viver,
E angustiado morrer.
Inútil questionar,
Sem nunca perguntar.
Inútil vir a amar,
Sem nunca ter odiado.
Inútil ter acordado,
E jamais ter sonhado.
Inútil ter nascido,
Para não ser preciso.
Inútil trabalhar,
Para o tempo passar.
Inútil ser indulgente,
E cair no esquecimento.
Inútil o quotidiano,
Fugaz e boçal.
Inútil ter ganho a batalha,
Sem altruísmo na partilha.
Inútil a conversa fiada,
Sem uma face encarada.
Inútil um réquiem,
A uma alma finada.
Lx, 24-4-2008
619
Que Pena
Que pena não poder correr,
Desalmado pela areia da praia,
Que pena não poder nadar,
Abençoado pelo sal do mar.
Que pena não poder amar,
O amor duma vida a brincar,
Que pena a luz se apagar,
Aos poucos irreversivelmente.
Que pena o destino vingar,
Não dar tréguas a ninguém,
Que pena este pesadelo arcar,
Sem direito a segunda via.
Os lamentos da minha alma,
Exasperam lancinantes a soluçar,
Os sonhos desmoronaram-se,
Desvanecendo-se com a noite.
Noite longa de desespero,
Onde vagueio acordado,
Ciente de tudo deambulo,
Pelo fio da navalha da vida.
O rei vai nu,
A rua apinhada,
O orgulho morreu,
A forca sorriu,
À minha passagem.
Lx, 7-1-2008
669
Loucura
Desespero ansioso,
Desânimo sepulcral,
Espectro num abismo,
De olhar fixo e vazio,
De coração selado,
Quebrado.
Alma arreada fugida,
Os gritos de terror,
Contínuos e lancinantes,
Ecoam em arrepios,
Alma presa na masmorra,
Da vã intolerância.
Os pesadelos reais,
Fantasmas de preto,
A deambularem,
Na escuridão estéril,
Onde a luz se esvaiu,
Há muito tempo.
O labirinto onde jaz,
Perdida a consciência,
Numa viagem de ida sem volta,
Ao avesso da humanidade,
Agora desvendado,
Desencarnado.
Os segredos escondidos,
Agora violados, esventrados,
Aviltados pela demência,
Engolidos de vez pelo todo,
Diluídos no esquecimento dos elementos,
No caos telúrico existencial,
Mergulhados na matéria negra,
Da metafísica sensorial.
Lx, 10-11-2007
632
Inadaptados
Soltaram os anjos do mal,
Andam à solta em bando,
Aniquilaram os sonhos,
Choram as mães em pranto,
Quando a luz se apagou,
O menino nasceu santo,
A Gomorra foi pousar,
Perdeu-se do rebanho,
Assim que ousou pensar,
Afogado num abismo,
De frivolidades,
Indescritíveis.
À medida que o tempo se esbate,
E se tira o corpo do escaparate,
A alma amarelecida e gasta,
Cansada de voar,
Ousou cantar um dia,
Era noite de luar,
Um hino à sua vida,
Rumo além-mar.
A esperança perdida,
Num jogo de azar,
Deu-lhe guarida,
Até a tristeza chegar,
O destino sentenciado,
Tinha proclamado,
Um herói inventado,
A viver desarmado.
Que desilusão,
O menino abençoado,
Predestinado,
Afinal não era soldado,
Tinha o ouro na mão,
No pescoço um laço apertado,
Vivia numa sala de pânico,
A guardar a porta um cão.
Os dias passam,
Sem vontade,
Os sorrisos acabaram,
Esquecidos,
Só restam os lamentos,
Molhados,
Só resta a melancolia,
Do olhar,
Só resta o vazio,
Do meu pensar,
E a alegria dos outros,
Para invejar.
Lx, 7-7-2007
735
Tudo Deixei
Deixei de sorrir,
Deixei de chorar,
Deixei de ouvir,
Também de falar.
Deixei de contar,
Deixei de valer,
Deixei de perder,
Também de ganhar.
Deixei de amar,
Deixei de fugir,
Deixei de rir,
Também de sonhar.
Deixei a beira-mar,
Deixei o céu azul,
Deixei o sul,
Também o altar.
Deixei as aves voar,
Deixei os montados ao Sol,
Deixei as flores secar,
Deitei lume ao paiol.
Lx, 23-6-2007
688
Até Quando
Quando o corpo arrefecer,
Quando não conseguir correr,
Quando só houver dor,
E já nenhum louvor.
Quando os sentidos desvanecerem,
Quando os sonhos se perderem,
Quando só houver mar,
E mais beijo nenhum a dar.
Quando a memória falhar,
Quando já não pensar,
Quando no fim me calar,
E só houver a brisa no ar.
Que pena vou ter,
Não ter ido, por não poder,
Que pena vou ter,
Não ter conseguido ser,
Que pena vou ter,
De tudo um dia esquecer,
Que pena vou ter,
Ter recusado viver,
Que pena vou ter,
Quando morrer,
Sem valer.
Lx, 20-6-2007
721
Vida Corrente
O correr dos dias,
Infinitos na juventude,
Precisos na plenitude,
Saudosos no ocaso.
Dias iguais vazios,
Novelas sem fim,
Com desfecho,
Há muito conhecido.
Dias nublados,
Dementes,
Tortuosos e fúteis,
Nunca esquecidos.
Dias de espanto,
A iludirem-se,
Com noites estreladas,
Puro engano.
Dias de sonho,
No princípio,
De enganos,
Pelo meio,
De tédio e dor,
Entretanto,
De alívio,
O último,
Por fim.