Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

Perfil
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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

98

Morte Amiga


Morte fiel e amiga de ar fraterno,
Geraste-me no teu ventre materno,
Assim já tão provecto cansado de sofrer,
Deste-me uma morte lenta a viver,
Anseias por me ver na cova a jazer,
Sigo os teus chamamentos de dor e tormentos,
Embalo nos teus braços a soluçar lamentos,
Dás-me de beber o sangue de doentes,
Preteres-me à custa de crianças inocentes,
Porque sustentas minhas aflições lancinantes,
Pela noites incestuosas da minha dor,
Leva-me de vez contigo como prova de amor.

Lx, 27-10-1996
605


Novamente só me encontro,
Numa solidão triste e duradoura,
à que persistir para por fim,
Talvez não desistir em pranto,
Vencido por uma sociedade enganadora,
Simplesmente à espera dum sim pronto,
Todos os dias continua a chover só para mim,
Todas as noites recolho ao meu antro,
Onde afogo as mágoas já gastas,
Chega de carências inclementes, basta.

Lx, 23-2-1996
639

Identidades


Por fim deixarei de existir,
Num destes dias iguais,
Deixarei de pensar e sentir,
Incluirei apenas manadas de animais.

Tão só me sinto,
E tão acompanhado,
Sucumbirei pressinto,
Mas tão desamparado.

Dias inteiros de desespero,
Tardes de sufocar o coração,
Noites a soluçar traição,
Manhãs de acordar tão áspero.

A mesquinhez das pessoas,
Associada à sua ignorância,
Distorce a melodia que entoas,
Já só te identifico pela tua fragrância.

Vem e salva-me,
Se ainda tiver cura,
Enluta-me,
Se não estiveres à altura.

Sou eu apenas,
De que estão à espera,
Não tenho escamas, não tenho penas,
Sou de carne e osso e alma austera.

Queriam-me fútil,
Queriam-me boneco,
Mas eu quero ser inútil,
E passar por sem tecto.

Lx, 17-11-1995
597

Mundos

Terra, és o nosso Lar imenso,
Quem me dera guardar teus segredos,
Na minha biblioteca de bom senso,
E desfolhá-los ao sabor dos meus dedos.

Gostava de a trazer arrumada,
Na sua anarquia devastadora,
Não deixá-la para sempre abandonada,
A uma praga humana assustadora.

Terra, sufocas na tua atmosfera envolvente,
Só falta proibirem-te a translação celestial,
És trespassada por ultravioletas em torrente,
Eu sei, sentes-te perdida neste Universo sideral.

Terra, és um paraíso perdido,
Viste partir os Deuses do Olimpo,
Por biliões de parasitas és agora varrido,
Só te resta a Lua fiel como um pirilampo.

Terra bendita,
Tão ultrajada,
Acredita,
Serás ajudada.
Lx, 25-7-1995
678

Só Em corpo e Alma (2ª Parte)


II

Agradam-me os teus sorrisos em código,
Unicamente e só para mim decifráveis,
Quero despertar eternamente contigo,
Envelhecendo juntos por anos inviáveis,
Quero acompanhado por ti sonhar acordado,
Desejar-te platonicamente endiabrado,
Acaba com a minha ansiedade febril,
Preenche-me a vida estéril e senil,
Com os teus gestos meigos,
E lábios de mulher leigos,
Cativas meu coração comprometido,
Com a luz aureolar do teu corpo prometido,
Confessar-te-ei a essência do meu "Eu",
E tu acolher-me-ás, meu espírito renasceu,
E jurou amor eterno com fervor,
És a minha diva e meu mentor,
Seremos almas gémeas afortunadas,
Na paixão mútua enclausuradas,
Seremos somente nós dois apenas,
Guiados pelo vento como duas leves penas,
Partilharemos as dores e tormentos,
Pareceremos em prantos e lamentos.

Lx, 13-7-1995

651

Só Em Corpo e Alma


I

Onde estás tu sinto-me tão só,
Tanta dor chego a meter dó,
Vem afagar-me com carinhos,
Vestida de fada com brancos linhos,
És a minha Estrela Polar,
A mais brilhante ao luar,
Ofuscas tudo ao teu redor,
Uma rainha no seu esplendor,
Cabelos dourados soltos ao vento,
Como trigais maduros ao relento,
Olhos azuis de águas cristalinas,
Saltitam como duas bailarinas,
Peitos altivos anseiam criar vida,
Pululam no teu corpo dão guarida,á
A tua boca de lábios tumescentes,
Procuram os meus saudosos e carentes,
A tua pele macia de um branco divinal,
Espera por mim para a acariciar como tal,
Cintura fina de linhas esbeltas,
Precede ancas largas de paixões maternas,
E pernas torneadas sempre alertas,
Encontra-me e satisfaz meus anseios perenes.

Lx, 4-7-1995
653

Vales Encantados


Vales verdes tão férteis e húmidos,
Recebeis todas as lágrimas vertidas,
De todos os cumes dos Mundos,
Tão enriquecidos de terras ávidas.

São o Paraíso verde Terrestre,
De tempo ameno e odores frescos,
À custa do cume estéril campestre,
Tão agreste e pobre de ventos secos.

Piscinas de água cristalina azul clara,
Com relvados bem conservados e verdes,
Com gente de bem regateando e cara,
Tão egocêntrica de tantas ignobilidades.

Sugam o próximo lentamente até ao tutano,
Escravizam o semelhante até à exaustão,
Mas é nos cumes altos que durante o ano,
Ao Sol as neves eternas resistem à combustão.

Que asco as pessoas tão quotidianas e fúteis,
Tão despovoadas na sua desprezibilidade,
Que dor as pessoas tão puritanas e inúteis,
Tão hostis e carentes na sua sociabilidade.

Lx, 28-6-1995
631

Amante Esquecida


Meu amor, minha amiga,
Silencioso na tua dor,
Espero que a tua alma diga,
Meu confessor, meu senhor.

Não me obrigues mais a falar,
O silêncio diz-me mais que tudo,
Deixa-me observar-te só a arfar,
E transcrever-te num poema-mudo.

Abandonaste-me à sorte sem te perceber,
Não ouviste sequer os meus versos,
Desapareceste na neblina ao amanhecer,
Deixaste-me aos meus sentimentos perversos.

Elas passam por mim tão perto,
Inatingíveis na sua promiscuidade,
Esticam-me a mão para um aperto,
Mas estou tão longe, já fora da cidade.

Tão ignóbeis,
Tão imbecis,
Tão hábeis,
Tão pueris.


Lx, 23-6-1995
863

Cidades


Florestas de cimento, encheis meu horizonte,
De um vazio estonteante, assimétrico,
Quero apenas cardos e giestas pela frente,
Banhar-me em água cristalina, frenético.

Porque tenho de viver acompanhado,
De mil figuras ridículas e mesquinhas,
Quem me dera andar por aí largado,
Correr por montados, campas minhas.

Coberto de sombras sem luz natural,
Definho encarcerado em quatro paredes,
Anseio por céus estrelados e odor natural,
Longe destes fétidos e repugnantes enredos.

Inalo o cheiro a terra molhada,
Como se fosse a última vez,
Aguardo a derradeira alvorada,
Em que me entregarei de vez.

Lx. 1-6-1995
683

Musa Divina


Musa divina envolvente e pura,
Inclui-me nos teus sonhos de mulher,
Luxúria de perfumes e carne prematura,
Do teu regaço brotem rosas para só eu colher.

Desejo saborear teus lábios maduros,
Pelo Sol radioso de mil Primaveras,
O vento trespassa teus cabelos dourados,
Desnudando teu rosto de mil quimeras.

Teus olhos de verde-esmeralda,
Enfeitiçaram-me eternamente,
Meu coração está cativo minha fada,
Liberta-me e recebe meu fogo envolvente.

Deleito-me com a tua figura esbelta,
Recortada onde quer que passes serena,
Curvilínea com formas de mulher feita,
Desejar-te-ei continuamente minha pequena.

Deixa-me desflorar-te todos os dias meu amor,
Embalar-te em meus braços até dormires,
Partilhar contigo todo o teu fervor,
Idolatrar-te para sempre até partires.

Lx, 16-5-1995
690

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