A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Acordo prostrado como um mal nascido,
Escondo-me nos livros da minha estante,
Acalmo os meus soluços com música perdido,
Estático vegeto consumido e irrelevante,
Só com a noite instalada consigo enfrentar,
A sociedade comigo impiedosa e contrastante,
Do chão mal consigo os olhos levantar,
Sob o luar pálido curo minha dor lancinante.
Lx, 23-3-1995
683
Para Vós
Quem vos dera a liberdade dos pardais,
A coroa real sumptuosa dum rei felino,
Quando é que pela mãe natureza exaltais,
Cantando em uníssono a vida num hino.
Lx, 23-3-1995
679
Sono Eterno
Deixai-me a dormir sozinho,
Um sono eterno e profundo,
Não me deixem sonhar mesquinho,
Na solidão imensa deste mundo.
Lx, 23-3-1995
683
Indignas
Não sois dignas dos meus poemas finados sentidos,
Antes deixá-los amarelecer podres aos bichos-de-conta,
Afastai dos meus versos vossos corpos pervertidos,
Não quero vê-los cobiçados como roupa de montra,
São sublimes e luxuriantes como peles de lontra,
Eles são os tormentos pela minha alma auferidos,
Afogados em dor e solidão submergiram numa onda,
Senti-me só e os meus olhos choraram entristecidos,
Quem me dera ser eterno pastor de mitos antigos,
Abandonado ter só a chuva e o vento como abrigos.
Lx, 29-12-1994
691
Adoração
Idolatrai-me com os vossos olhares,
Castrai-me com os vossos desejos,
Oferecei-me perfumados campos de flores,
Esperai obcecadamente pelos meus ensejos.
Lx, 29-12-1994
683
Sociedade Cruel
Mergulhado num ninho de vespas estou,
Aterrorizado com todas as gentes fico,
Sob o peso do mundo minha alma vergou,
O semblante do meu ser desiste pacífico.
As ruas exalam carências sencientes,
Amor gratuito demora a encontrar-se,
Os corações resistem deprimentes,
E a sua jovialidade volátil esvai-se.
Como fantoches pavoneiam-se enfim,
Como bonecos com a corda partida,
Como escravos vagueiam até ao fim,
Até quando rastejar sob gente pervertida.
Lx, 5-11-1994
667
Prostração Ténue
Nem sempre quis ver o sol raiar,
Minha alma aflita desentronizada,
Decidiu com a pesada existência arcar,
Manter-se para sempre alheada.
Quando eu apenas queria amar,
Encontrei cumes de neves eternas,
Altas e distantes com quem sonhar,
Situam-se tão distantes e serenas.
Ansioso pelo prazer máximo desfrutar,
Neste pouquinho tempo que me resta,
Que tristeza vê-lo pelos dedos escapar,
Afinal o pouco que sobrou não presta.
Não sei como tudo isto aconteceu,
Estendi meus braços e bradei aos céus,
Nas minhas barbas o destino se teceu,
Quando de repente rasguei meus véus.
Porque não florir numa Primavera,
Como todas as flores sumptuosas,
Porque foste para mim tão severa,
Afogar-me em ideias perniciosas.
Minha alma não sabe por quem chamar,
Quando me apetece apenas gritar alto,
Já não consigo ouvir o vento a sussurrar,
Guiando meus passos neste último salto.
Lx, 8-10-1994
679
Como Um Raio De Sol
Não sei se haverá poema capaz algum,
De mostrar o que na minha alma vêem,
Não sei se valerá apenas escrever um
Quando só nostalgia e solidão saem.
Brilham ao sol teus cabelos doirados,
Guiando-me por caminhos agrestes,
Consolam-me os lamentos irados,
O calor de mil estrelas ardentes.
Passeias-te como uma fresca brisa,
Deixas no ar cheiros de fantasia,
Refrescas-me a mente submissa,
Sonhos ao luar com maresia.
Bela e formosa de olhar apelativo,
Serei para sempre teu até ao fim,
Assim meu coração ficou cativo,
Perdurando a tua imagem em mim.
Encanta-me a tua jovialidade carnal,
Esteticamente pura e ilusória,
Deixa-me contemplar-te trivial,
Platonicamente desejar-te peremptória.
Como andorinha-do-mar te vi chegar,
Perdido no Oceano vieste-me encontrar,
Levaste-me para tua casa a pernoitar,
Como sereia aos meus braços vieste pousar.
Lx, 7-9-1994
708
Monotonamente Escrevendo
Farto-me de Ser simplesmente,
De viver o que não quero ser,
De nascer tão fluentemente,
Para no fim morrer sem querer.
Ansioso por vida complexa e completa,
E vergando-me perante o seu peso,
Acabo por ser uma alma discreta,
Liberto-me gritando .
Nada me faz andar,
Nada me faz correr,
Continuarei até quando a pensar,
Se continua eternamente a chover.
Lx, 12-6-1994
637
Sonho Benigno
Pelo campo andavas a deambular,
Esquiva pelos beirais em devaneio,
Dei por ti um dia assim ao sonhar,
E logo me ficou o coração cheio.
Cheio com a presença do teu olhar,
Perdido no perfume do teu cabelo,
Louco e apaixonado pelo teu pensar,
Fazes-me viver em tons d'amarelo.
Estou bem quando encantado por ti,
Amanso quando a tua boca sorri,
Só para mim, enfim só por mim.
Deleito-me com a tua contemplação,
Tão servil e pura na minha imaginação,
Tão-somente e sempre, até ao fim.