A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
No vento procuro consolo amigo,
Que ninguém mais me poderá dar,
Murmura-me onde encontrar abrigo,
Onde eu me possa lamentar.
Nas planícies embrumadas eu caminho,
Em busca dum destino meu e só,
Transtornado e em pleno desalinho,
Acabo apenas por lhes fazer sentir dó.
Deixem-me para lá das montanhas,
Sucumbir escoando-me pelo rio,
Construir pequeninas casinhas,
Rodeadas de tumbas em pousio.
Lx, 11-11-1993
739
O Fogo e as Cinzas
Que agradável o cheiro a queimado,
Do fogo não conseguirei sair,
O vento quente a ele associado,
Não me deixará jamais fugir.
As labaredas deixaram-me cercado,
Condenado eu fiquei ao nascer,
Em ter de viver desamparado,
Sem lucidez que me fizesse florescer
Sentir-me sempre a viver ao lado,
E pensar ter já tudo dado,
Não é que me tivesse importado,
Por estes mares já eu tinha navegado.
Já me tinham perguntado,
Se me sentia aprisionado,
Eu respondi infortunado,
Ao mar as cinzas tinha lançado.
. Lx, 8-11-1993
687
Incógnitas Viagens
Pela estrada fora meus olhos cintilam,
Em busca de paragens onde deambular,
À porta do céu azul em espanto ficam,
Esperando contemplar a minha alma voar.
Pelos montes irei sobrevoar emplumado,
Pelas pontes altas saltar até cair,
Jamais um dia me verão embarcado,
Em qualquer onda ao submergir.
Por velhas sombras eu me seguirei,
Estampadas em rostos de pedras graníticas,
Minhas preces pela serra proclamarei,
Aos ouvidos mudos d'almas paralíticas.
Lx, 8-11-1993
686
Impaciência
Um barco ao longe vi navegar,
E meu amor nele ouvi cantar,
Não consegui definir o seu destino,
Ficando o meu coração em desalinho,
Para sempre à espera irá ficar,
Até a sua grande paixão retornar,
Até amanhecer um dia vespertino,
E voar no horizonte um passarinho,
Que as boas novas me venha dar,
Regressou o teu carinho além-mar.
Lx, 7-10-1993
845
Introspectivamente
Continuarei sempre a lamentar-me,
Culpando-me sempre do sucedido,
Jamais quererei lembrar-me,
Do tempo que passei entristecido.
As lembranças não me têm movido,
São vazias de poder sentimental,
Já me lembrei de ter morrido,
Mas era sonho de mente serviçal.
Lx, 7-10-1993
743
Vagabundos
Tão profunda a dor eles sentem,
Morrer é apenas mais um idem,
Desalinhados e pobres pelos becos,
Jamais ouvirão os puros ecos,
Porque as lágrimas não mentem,
Quando pelas faces vertem,
Com a alma presa em paredes,
Corações quebrados dormentes,
Infelizes apenas geram ascos,
Neste mundo pleno em vácuos,
Que pena serem como eu,
Um ingénuo e mero plebeu.
Lx, 23-6-1993
629
Versos de Lamentação
Contigo nasci para amar,
Sob o leito da dor,
Vou para sempre encarnar,
A dúvida num mito incolor.
A terra a lamentar me chama,
Glorioso de sonhos proclamo,
Não somos mais do que lama,
Lançada pelo vento ao nosso Amo.
Todos nascemos para morrer,
Gozar a vida a sonhar,
Vamos com certeza renascer,
Para divinalmente a utopia adorar.
Ao alvorecer acordamos em busca de alguém,
Objectivamente tentamos esculturar belezas,
Em faces e corpos que julgamos ser do além,
Mas as suas almas há muito caíram nas profundezas.
A chuva cai fria pela madrugada,
Anseio por braços quentes ao meu regresso,
A chuva impiedosa cai desalmada,
Continuo à tua espera sem sucesso.
Uma história inesquecível eu tinha para contar,
Com ela muitos iriam sorrir,
Acabaram por me interpelar,
E perguntar se era verdade o que iriam ouvir.
A noite cai uma vez mais escura,
Com ela a vida parece hibernar,
Para quê torná-la ainda mais obscura,
Se dela não nos podemos alienar.
Lx, 17-12-1990
979
Dunas
Dunas douradas esquecidas,
De areias mil,
A brilhar ao Sol perdidas,
Com o Mar de perfil.
Recebes a teus pés as ondas,
Coroadas de puro branco,
Trazem com elas as conchas,
Que te dão tanto encanto.
Deixas-te pelo vento acariciar,
Quando te sussurra paixão,
Vergas-te à nortada polar,
Quando cometes traição.
E de noite ao luar,
Com o céu iluminado,
De mil estrelas a brilhar,
Recebeste meu corpo inanimado.
Cansado de tanto esperar,
Tão frio e desencantado,
Que até a dor fez chorar,
No meu coração desvanecido.
Lx, 28-6-2005
670
Acção, Reacção
As mil e uma verdades,
Para mim absolutas,
São mil e uma inverdades,
Para outro resolutas,
As certezas de hoje,
São incertezas amanhã,
A consciência de hoje,
É padecer no amanhã.
A razão de uma vida,
É a morte irracional,
Tudo nela contida,
É sorte transcendental,
Às vezes pura e genial,
Outras indigna e fútil,
Existência bela e emocional,
Ou sombria e inútil.
O ideal desvanecido em sonho,
Numa vida inteira diluído,
Acaba por não vir a ser estranho,
Estar pela sua própria essência possuído,
E que preencherá o meu vazio,
O meu silêncio doloroso,
O meu inconformismo ímpio,
Ao longo de todo o meu caminho tenebroso.
Lx, 12-10-2004
729
Opacidade Emocional
A monotonia de existir,
Logo ao acordar se instala,
O tédio não me deixa dormir,
E já é de madrugada.
A dor abrigou-se na minha alma,
E o silêncio preencheu a minha vida,
Devagarinho e com muita calma,
Sussurrou-me a morte ao ouvido.
Tão cansado de olhar,
Sentir e pensar,
Sonhar acordado,
Em tudo dar,
Como acabado.
Tão abalado fiquei,
Ao persistir e tentar,
Em vão testemunhei,
Sem nunca ter achado,
O segredo maior,
Tão bem guardado,
O céu à noite,
Estrelado.
Lx, 16-7-2004