Lista de Poemas

PORTO SEGURO

Disseram-me ser este
O berço histórico do Brasil
Um pedaço encantado de país
O enlace com as Américas
Num laço entre continentes
Lavado por um oceano de raízes

Seria mesmo o ninho da linhagem
A mãe que pariu um povo
Sofrido porem de insights felizes
Pois as caravelas não pararam aqui
Zarparam adentrando as terras
Velejaram entre as matas escuras
Esculpiram uma pátria inteira
De aldeias que tornaram cidades
O que antes era sertão
E as metrópoles tomaram espaços
Circundadas por rincões

Foram construídas as noites sertanejas
Estas repletas de heróis vilões de uma linguagem
E ímpares cheiros de presente e passado
Ainda que desprezemos a epifania
O progresso e nossa própria historia

Essa bacia de bordas de areia
Completa de agua de sal
Ostenta o brilho da lua
Ecoa as vozes do sol
Guarda os segredos das velas
Por onde estava eu e chegou Cabral
Quando então recoberta
Atrevia-se a estar desperta
Virgem, intacta, deserta
A orla inteira que lhe recobria

Nativos e visitantes
Punham os pés nas praias
Demarcaram-nas territórios seus
Foram-se dividindo aos pedaços
- Tantos para ti quase nada para mim
Fingíamos donos do ilusório escambo
Que desde outrem praticaram
Mea-culpa, praticamos

Essa minha geração até hoje
Demoramos a reconhecer que pecaram
Que pecamos sendo verdadeiros
Por atos fomos deixando-nos explorar, fenecer

Eu não sei onde se esconde essa gente
Mas sei por onde estiveram e vão
Se continuo íntegra, permaneço bela
Sou dessa aquarela a origem da nação
Miscigenados nos tornamos brasileiros!


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Online

Carrego junto ao bolso
O celular conectado
A um mundo em pandemias
De virus infectado

São tantas as doenças
Que nem sei mesmo os nomes
Mas que nos tiram o sono
Nos matam e nos consomem
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JAMAIS AS ILUSÕES

Se eu pudesse voltava ser explorador
Faria novamente as minhas próprias trilhas
Por entre matas fechadas
Nominando rios dimensionando lagos
Recalculando estradas medindo caminhos
Viajando em sua companhia
E se você não fosse seguiria teimoso sozinho
Por longas viagens invernadas de moço
Em terras distantes e estranhas massas
Como quem aventura e inicia um romance

Mas já não saio daqui da rua e calçadas
E a cada dia vou diminuindo ainda mais
Todos os meus mínimos mesmos espaços
Procuro nos meios-fios os fáceis acessos
Não pulo mais degraus nem saltito tanto
Diminuindo sempre o quanto posso
A distância do entremeio de cada passo
Nem lembro mais certos endereços
E apetece-me permanecer em casa
 
Não que esteja envelhecendo não é isso
Apenas preservando o coração acomodado
Das emoções de alguns impróprios percalços
Longe dos riscos incertos de efervescentes paixões
O tempo matura a idade e até nos faz perder as forças
Jamais as ilusões por isso nos põem mais sábios


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HUMANO

No máximo te penso
Nem mesmo te ouço
Tampouco te chamo

Arrependo por esse letárgico processo
De abandono aos pedaços
É que apesar de poeta ainda estou insano
Insistindo mais do que minha idade é capaz

Preciso deixar de ser razão
Retornar-me humano sem utopia

Morrer não é mau
Se a vida não parasse
Eu nem partia


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PERDOO

Perdoa-me Senhor
Pela vergonha que passo ante aos recém-chegados
Àqueles que agora nascem em meio aos destroços
Que se deparam com um circo desigual perverso
Permeado de egoísmo poluído desarmado e em pedaços

Perdoo-te porque me ensinastes o perdão
De toda mácula de qualquer culpa da má ação
Pois hás de admitir que nos perdestes por eterno
Quando nos desvencilhamos afugentados ensimesmados
E nada fizestes nem importastes com nossa fuga
E nada fizestes nem preocupastes com nosso medo
E nada fizestes nem revogastes nossos assombros

Agora Senhor que nossos sonhos chegam frágeis tão meninos
Desprotegidos como um dia aqui também chegamos
Poderias antes ter banido das nossas casas
Os embustes que é viver sem entender
Do que é a lida para encontrar bela morada
Sem o dolo das provações que nos assolam
Longe e livres dos males que nos denigrem estrada afora

Embora conheças nossas mazelas
E nada fazes para que delas nos livremos
Perdoa-me por ser minha alma tão pequena
E ante as vossas leis não fazer nada


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MIGALHAS

Voei do alpendre
Ao curto braço da cadeira

Cobicei pingos de pão
Que rolaram do teu lanche
Involuntários farelos
Das amarras da gravidade

Fartei-me pelo chão
Com o que em tua blusa
Tornara-se sujeira
Enquanto te alimentavas
Das invejadas migalhas
Dada minha liberdade

O mundo pode ser perverso
Mas o acaso da comunhão
Torna a vida mais perfeita

Por isso compensa
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DESMANCHE

                  Paulo Sérgio Rosseto

Meu coração tem teto de glace martelado
Paredes de geléia acartonada
Porta e janela de gelatina caulim
Chão de papel machê encorpado
Escada em espiral e caracol de caramelo
Forro de anilina adocicada de anil

Quando choro tudo se desprende e derrete 
Menos o telhado que flutua lerdo
Num rio placebo amarelo que viaja em mim
E se precipita aos pedaços rumo ao cerebelo 
E se arrebenta no precipício da alma deserta
Zunindo um grito forte ferindo os tímpanos

Tua ausência me propõe alerta à espreita 
Mas quando convenço que você não vem
Alicerce nenhum me sustenta

@psrosseto

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ÀS VEZES

Às vezes aflora a impotência
Por não conseguir matar a barata
Ao perder o horário do trem
Ao deixar congelar a cerveja
Furar o pneu da bicicleta
Não conseguir estacionar na vaga
Deixar de fitar um olhar
Derramar café na roupa
Escorregar no piso da calçada

Situações tão ilógicas
Incompreensíveis à rotina da memória
Inaceitáveis e desnecessárias

Desacertos surpreendem
Todos os dias são repletos de sandices

Haverá um tempo em que aceitaremos as tolices
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CALOR

A pele aquece
A mão sua
A boca seca
A língua umedece
A garganta tosse mas não basta
Porque o calor brota
Aflora dos poros dos pelos
Das ideias nervosas que indecentes
Exploram explodem reviram e descem
Pela porta e janelas fechadas
Onde se tem a impressão e aparência
De que tudo se tornara
Um particular deserto em que nada nasce
Nem acontece senão entontece
Apenas disfarça um grito miúdo
Que se não se mata de imediato a sede
Simplesmente amaluquece

Estamos escravos incondicionais
De qualquer vento ameno que arrefece
E quando no quarto o ar
Não liga ou está mal configurado
E é isso o que acontece
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UM LADO DA RUA

          Paulo Sérgio Rosseto

A cidade essa noite ficou diferente
Apagaram-se as luzes 
Se acenderam as estrelas
E da varanda contando longínquos relâmpagos
Entre nuvens severas pudemos vê-las

E enquanto as contávamos falamos das belas
Fotografias que juntamos no decorrer do dia
Olhando o escuro da praça e a ousadia da lua

Depois sorrimos desse momento leve
Dissemos adeus e até breve
E cada um seguiu para um lado da rua

@psrosseto
@taperapua_editora

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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.