Lista de Poemas

PROCURA

Passo por tantas portas durante o dia
Entro e saio vou e venho nada me segura
De um cômodo a outro buscando o futuro

Penso que nada me surpreende
Porem insatisfeito com a estrutura
Desse indescritível labirinto
Reclamo tua ausência
A essa troça que arde o peito e angustia

Necessito-te ávido
Acima de todo escrúpulo
Desprendido de alicerces
Longe dos parâmetros
Apesar do acúmulo dissimulado
Dessa tosca aventura

Andarei a eternidade
Indecifrável à tua procura
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SEM NINGUÉM SABER

Não gosto de fazer poemas que remetam à morte
Porque detesto que os meus amigos lembrem-se
Que um dia também poderão morrer

Prefiro que cantem as melodias alegres
E leiam sobre amores e saboreiem as dádivas da vida

Instigo para que brindem as alegorias
Mergulhem na fantasia de que são todos eternos
Infinitamente abençoados pela eternidade
Em resposta ao zelo existente que para comigo têm

Os meus amigos e a fraterna amizade que nos convêm
Não tem tamanho nem cabem dentro de covas
Por isso jamais extirpa nem deteriora
 
E na minha hora em que sozinho eu partir
Sairei à francesa em silêncio enquanto festejam
Para que ninguém note a minha dor por ir sem querer

Partirei calado sem ninguém saber
205

TEMPORAIS

Toda vez que perco o horizonte
Creio haver um mar a minha frente
Tão longe de mim equidistante
Como as rosas de um jardim
Ou uma nuvem passante
Que se desmancha insana
Por entre respingos de lama
Ou alvas fronhas de algodão

São aguas verdes revoltas
Remexidas pelos mesmos ventos
Que soltos conduzem minhas barcas
Serenas cada uma a seu porto
E as nuvens aos seus tantos
Destinos e encantos
Revestindo travesseiros
Sobre as camas da paixão

Todos esses travessos romances
Atravessam-me intensos
Ainda que de mim jamais saibam
Porque nunca mais retornam
Porque se tornarão propensos
A viajar outros céus e mares
Esculpindo suas torres imensas
Apesar dos temporais
153

TATEAR

Não se sabe se são os pensamentos
Que conduzem os dedos
Ou as mãos acostumadas sozinhas
Aos intensos dos carinhos caminheiras

Certo é que os tatos se desprendem
Despindo dos segredos
Por singelas ruas do corpo
Explorando seus caminhos

Olha as calejadas palmas desse peão
Tem a mesma ranhura do casco da boiada
A pele dura rude enrugada
Queimada no laço de sal
Do suor da tarde ensolarada

Essa mesma textura tem o coração
Cheio de saudade apertada
Compacta no peito
Enfurnada na alma
Feito bicho na toca dentro da agua
Rodeado de destino sem morada
 
Mas quando ama e trata o amor
Imaginando-me na penumbra enluarada
A minha mão meu bem cheia de viço
Tão nua e certa é a tua namorada
198

DESLUMBRE

             Paulo Sérgio Rosseto

Quando duas línguas se tocam
O mundo de quem deseja o beijo
Torna-se oração perfeita

Sabores ardem sedentos
Nesse encontro de saliva e espasmos
Extraindo dos molhados lábios
Aceites inaudíveis das vozes dos hálitos

Da ternura única e efervescente
Todo perfume tateia o momento
Assistindo espargir pela sala do anseio
A dissimulada fome engolindo as palavras

Dado ser afoito intenso e místico
O espírito aguarda que o corpo entreveja
Pelos olhos fechados em êxtase
O deslumbre da língua quando beija

@psrosseto

188

FURTIVO

Olhos vivos amendoados
Delicadamente redondos assombreados
Prontos para o brilho e para o choro

De repente para a lástima do instante
Encharcados de fina lágrima
Lacrimejados de enciumada doçura

De repente para o riso delirante
Quando os lábios escancaram
Recolhem-se de extrema candura

Olhos soltos pelo rosto desenhados
Pousados sobre o fuso horizonte
Intensos abertos despertos calmos

Olhos teus por onde meu olhar resvala
Furtivamente rio despretensioso
Ousadamente tímido e de soslaio

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019
515

INCAUTO

Minha santa ordem quase sem mãe
Que jamais permita com teus poderes
Carcomer as pétalas das tuas flores
Depois fingir infinitamente apiedado
Chorar copioso as tuas dores
Deixar borrar os aventais de giz
Mofar os rituais dentro do peito
Decompor as ferramentas de aprendiz
Tornar impuras as brandas mãos
Obsoletas inférteis comprometidas
As ideias discorridas dos ideais
Por negar-me a mim diante do espelho
Trincado de ingratidão
438

A DOÇURA DA TUA VOZ

A doçura da tua voz
É feitiço colado em mim
Canção que tanto desejo
Tempestade em minha veia
Suor denso da libido
Vendaval de vermelha areia
Remoinho no deserto
Do coração em devaneio

Eu sou destemido andarilho
Incerto andejo sem eira
Sertanejo inseparável
Da seara do teu encanto
Matuto das velhas minas
Lavrador desse rochedo
Tangido na insistência
De colher esse teu beijo

A ternura fez de mim
Poliglota destas letras
Intérprete dos teus sonhos
Cancioneiro dos teus versos
Aprendi teu idioma
Falando em teus ouvidos
Decifrando teus anseios
E beijando a tua língua
Assim me tornei poeta

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019
270

CANTA

A poesia perde o encanto
Quando não há fantasia
Vira roupa suja num canto
Brinquedo arrebentado de parque
Plataforma de embarque
Sabendo que ninguém vem
Linhas sobre dormentes sem trem
Vento que não mais areja
Fruto que não se deseja

O encanto sem poesia
Não subsiste nem tem memória
Seria um falso desejo
Que o próprio fato ignora
Triste de inveja esquecido
Ferida adormecida sem lógica

Ah mas o meu poema é esse canto
Encantado de azul esperando
A melodia nascida na doçura da tua voz
Por isso canta canta incansável
Canta com infinita ternura
Todo encanto que verseja em nós

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***
216

EVIDENCIA

Compartilha comigo
Tua experiência de Deus
Preciso conceber a humildade
Tanto quanto a enxergo em tuas mãos
A forma de entender a benevolência
Idêntica à magnanimidade
Que se derrama das tuas ações
A expressão da caridade
Tal qual a que se transpõe
No sumo das tuas transigências
E a sobriedade em discernir
Naquilo que tua complacência evidencia

Que se empreenda a providência divina
Em cada raio que teu sol me irradia

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.