Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Não chorem pelo que não somos na terra desconhecida, Nem pelo que almejamos ser em alma posta na carne, em egos translúcidos que se deleitam com imagens magníficas, contidas nas seduções e nos delírios do grande cenário abismal.
Foi assim me perdi ao ousar caminhar sem pisar o chão ressequido, pavimentado com espinhos invisíveis, caídos de frágeis sonhos suspensos no ar, incapazes de alimentar seres estranhos com espíritos mumificados que nele habitam, Sob a falsa luz que esconde infalivelmente a noite interior, a consumir canibalisticamente das próprias entranhas, quando se movem durante o dia, entre os aromas das flores e os suaves toques do vento, sem que se percebam que as flores são gélidas e que o vento é traiçoeiro.
Não me lembro quando percebi que o mundo se esconde atrás dos rostos de tantos protagonistas, Atuando incessantemente na imensidade à qual se centram e fazendo-me quedar diante da vulnerabilidade do olhar, posto nos corpos nus e nas mentes contrastantes das multidões que se desvencilham dos espinhos mortificados pela planície, em busca do ponto de equilíbrio inexistente no mar de sentimentos invasores.
Ânsias e vômitos desvendados, máscaras e faces expostas sem que se possam distinguir entre uma e outra, deuses criados para salvação do que já predestinadamente está salvo, e demônios criados para a condenação do que já predestinadamente está condenado.
Não sei onde me encontro com o andar suspenso, talvez entre a loucura e a razão. Se tento fugir de retalhos de tempos e vidas irrecuperáveis ou se fico em dor e lamento. Se tento me soerguer para a queda certa, ou se me abandono prostrado à angústia. Se busco a liberdade nascituramente condenada, ou se me deixo escravo da tragédia.
Sei apenas que ousei romper num momento perdido, incapaz e sem sentidos, extremos de meu ser contido, nos mesmos caminhos irreconhecíveis agora atacados por minha loucura assentada, onde também sou prisioneiro nos limites em que se encontra o olhar de minha face.
170
DESNUDEZ
Choveu o céu cristais de gelo nunca antes vistos quando a grande angústia alcançou nuvens horizontais que pairavam escondendo, em sua moldura azul, todo o infinito condenado em suas estranhas frialdades.
Desnudou-se-me a imensidade em vultos frios e mortais. E da terra umedecida pela chuva abismal percebi que minhas frágeis asas, oníricas e desvairadas, convergiam-se em um manto estranho e mortal para, depois, desaparecerem-se com a minha nudez tantas vezes escondida.
Vi-me então como jamais antes me fora visto de meus esconderijos. E grande temor se me apossou com as muralhas destruídas que tantas vezes abrigaram mundos em atuações incompreendidas.
Foi então que percebi que o céu, e o além- dele, e o tudo que há nada mais fora ou venha a ser que o nada que me habita em imagens falsificadas.
Desnudei-me enfim e, no cansaço e dor extrema da queda fatídica, vieram beber de minhas entranhas expostas todos os anjos mascarados de alvo branco, e todos os demônios assumidos em seus delírios, e todos os demais seres bizarros na multidão ainda de mim desconhecida, deixando-me espalhado macabramente, sem essência alguma, numa fina névoa de poeira, sombriamente oculta em teus semblantes.
142
CALVO MAR
... não tens nada com o que te preocupares, realmente;
como cão niilista, a única coisa que eu poderia fazer
é te desprover dessa sua fausta realiza e te comer como uma puta dourada!
259
OI, ESPELHO!
... minha vara não é diferente de tua barca;
assim como ela navegou com tantas velas e mastros,
a minha caiu em tantos buracos,
que, como tu, não sei mais diferenciar, um céu, um sonho, um mar ou uma privada!
138
XANAS SÃO SÓ A METADE DO NEGÓCIO. É PRECISO TAMBÉM UMA MENTE CAPAZ!
... o desejo ocupa a planície do corpo, o gemido da boca, os fogos em descontrolados gozos,
isso é bom, isso é delicioso, isso é mais que demais;
mas, infelizmente, não contempla o todo, nem as ciências e as delícias do mal e dos abismos insossos,
que nos provoquem as verdadeiras dores do amor e da parturiente em literários fogos
142
A CÉZAR O QUE É DE CÉZAR
... teus olhos, teus peitos e tua vulva
muitos já viram; e eu já vi muitos olhos, peitos e vulvas como e até melhores que as tuas;
a questão, baby, é que acho que ninguém, além de mim, viu o mais fundo de teus fundos,
onde carregas, ocultamente, as zonas mais absortas e loucas de tuas sombras!
223
LILITH PERDIDA
... parece que já não é mais dos picos que olhas as coisas do mundo;
parece que realmente perdeste o sentido da ilha
e da reflexão, ao dançares tanto nas picas do chão!
173
POR UMA NOITE
Não fales alto: depois de tanto tempo em chuvas, acabamos de fazer amor
- se olhares pela janela, verás que as estrelas ainda estão gozando,
tremeluzidamente -
e necessitamos paz, pelo menos nesta noite;
deixa, pois, todo o resto, e sussurremos somente coisas que nos alivie a dor.
140
MORREREI, MAS NÃO MATARÃO MINHA SOMBRA!
Anjos, anjinhos sapiens anjinhos como eu,
paralisaram meus sonhos mais sublimes, detonaram minhas esperanças mais firmes,
beberam de meu suor, de meu sangue e de meu sêmem derramado em estranhos êxtases nos gloriosos campos e nos brancos leitos da terra;
e tais como eu foram-se morrendo entre erros, tropeços e autovenenos injetados com imagens de toda orden, como eu!
186
ATÉ O MAIOR DOS AMORES E A MAIOR DAS DORES SÃO VAIDADE
Até na dor mentimos para nos amparar, de alguma forma, a nós mesmos;
por exemplo, se digo que me dói (dela) a saudade e a solidão que ela deixou,
não estaria eu a cometer a mais soberba das vaidades por amá-la ainda desse modo,
sem que ela, por passagem de morte e por não ter mais escolha, exercer o mesmo direito?
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*