Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Já nem me lembro do que seja um fluxo de sublime amor à nuvem:
exatamente, é preciso reconhecer, agora que estamos realmente a caminho do fim,
que tentamos cultivar asas, sem jamais conseguirmos deixar de sobrevoar abismos e precipícios,
e que, realmente, não creio que nossas ausências nos sejam mais dolorosas que nossas ácidas chuvas;
mesmo assim, amo-te de um estranho e louco amor, sem que, incautamente, jamais te tenhas percebido do essencial:
era-nos necessário não só o amor, mas também o respeito, a dignidade e uma duradoura paz ao onírico leito
para nos anestesiarmos, de mãos dadas, das angústias e das dores do mundo.
93
NUM LONGÍNQUO CREPÚSCULO!
Num longínquo crepúsculo, ele se sentou nunca cadeira de mogno e começou a enrolar, lentamente, seu cigarro de palha:
as mãos calejadas pareciam ter se transformado em rijos e estranhos cascos, com seus tentáculos cansados;
à pele envelhecida, corriam tantas falésias que lhe encobriam estórias e nativas sardas.
Ele gostava ver o pôr-do-sol dando baforadas como que a assistir às últimas luzes do espetáculo,
como que a me ensinar como são frágeis as cortinas de fumaça.
186
EU SEMPRE TE REPARAVA
Ainda me lembro de quando estavas ali, despercebida
- entre flores e cravos -;
ao longe, teus lábios faziam graciosas curvas sem que dissesses uma palavra,
tuas pétalas bailavam ao vento, fazendo-me sonhar a nuvem protegida.
Estranhamente já se me tornavas vital, mesmo antes que te percorresse as sensuais margens,
e me naufragasse na puerícia de tua alma.
143
ETERNAS AUSÊNCIAS!
E agora, com ambos ausentes, tu e eu:
que horizontes merecerão teu olhar angelical;
e que falésias abrigarão, do cão, as sombras e o pau?
104
CONTRASTE!
É visível que não gostam - esses mascarados puristas de plantão -
de quando me aproximo demasiadamente de suas apresentações maestrinas:
tremeluzem, alguns menestréis franzem as sobrancelhas em ira;
algumas mariposas jogam os cabelos para trás, fingindo desdém.
Às vezes, curvam-se o raso chão, atirando-me pedras verbalizadas contra as sombras
- em vão -,
e revelando que, por detrás dos disfarces, há exatamente que estou ali para evidenciar:
a verdadeira - ou dela a falta - face.
115
NOITE INESQUECÍVEL
Chegara de madrugada em casa,
perfumado com o cheiro e arranhado com os espinhos de uma fulga flor de inverno
- ela entendia mesmo sobre chãos e era uma fulgurosa puta na cama -;
ao portão, esperava-me um corpo cansado, olhos lacrimejantes e suaves mãos,
para curar-me as feridas e ensinar-me, dolorosa e silentemente, sobre o amor e as sublimidades do coração.
127
NÃO HÁ AMOR SEM CAOS
Sem a menor dúvida, o maior problema que enfrentamos durante todo o tempo em que nos amamos,
foi termos excogitado demais sobre nós mesmos, e sobre o que éramos ou fazíamos ao meio de outros passarinhos e mariposas com seus cantos soberbos e seus faróis acesos,
porque o amor não admite elucubrações nem suas palavras-instrumento, que acabam se transformando em afiadas navalhas a tocarem a alma e a ameaçarem a paz.
Não, não fale deles - essa bicharada que, como nós, regozijam luzes defecando sombras escondidos -;
os maiores culpados de nossa morte fomos nós mesmos, que não soubemos nos amar em meio a este inevitável caos.
94
A SENSIÊNCIA HUMANA!
Que seria a maior virtude - ou riqueza - há no ser humano, senão a razão, que o difere das demais coisas e animais,
que lhe permite, entre tudo que imagina, sente ou vê, fazer escolhas que melhor lhe aprazem?
Não obstante, que também maior chaga há no universo que a aquisição acidental dessa racional senciência,
que lhe permite colocar-se ao centro de tudo, rasgando possibilidades, inaugurando novas casualidades e provocando extermínios plurais?
231
VIVER É NÃO PENSAR
Se as coisas não nos são de outro modo, senão o com que as vemos com nossas sencientes e cegas retinas;
por que eu deveria dar algum crédito ao que regozijam os filósofos, os religiosos e os demais menestréis de plantão,
ou por que deveria pagar algum tostão que seja, pelo conjunto a quem chamam de sabedoria humana?
195
ESTRANHA ANARQUIA!
Em que estranha anarquia e em que abstratíssima sensação me acordei nesta opiácea e inusitada manhã:
sob o desdenhar das nuvens, fora como se as coisas estivessem se apagando em branco,
sem que eu pudesse compreender se eram reflexos avessos de meu espúrio eu psíquico, ou de minha alma vazia.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*