Meus pés carregam meu corpo Mantêm-me ligado à terra A lombar sustenta meu tronco A cervical, a cabeça E a cabeça suporta o mundo Quando planto bananeira A cervical aguenta o tronco E a lombar, pernas pro ar Porque ninguém é de ferro
Meus pés carregam meu corpo Mantêm-me ligado à terra A lombar sustenta meu tronco A cervical, a cabeça E a cabeça suporta o mundo Quando planto bananeira A cervical aguenta o tronco E a lombar, pernas pro ar Porque ninguém é de ferro
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Viagem com Swami Tilak Maharaj
Em um Volkswagen popular azul, que no Brasil chamamos carinhosamente de "fusca", Swami Tilak aprendeu a dirigir com Mãe Karuná (como motorista, famosa por ser um tanto... apressada). Certo dia, fui designado para levar Swami Tilak até a cidade de Goiânia, que dista 200 km de Brasília. O programa começaria por uma visita a um hospital psiquiátrico, onde pessoas com transtornos mentais e até perigosas ficavam internadas, excluídas do convívio social. Após a visita, haveria "satsanga"* do mestre junto aos médicos do hospital e devotos. Por fim, almoço na casa do então diretor do hospital, o conceituado médico psiquiatra Dr. Wesley, grande devoto de Swamiji. Partimos os três de Brasília, um tanto atrasados: eu conduzindo o famoso fusca azul; mãe Karuná ao meu lado; e Swami Tilak no banco traseiro. Mãe Karuná recomendou-me ao entregar a chave do veículo: - "Corra! Com segurança, mas corra!". Quando já estávamos na rodovia, e o tráfego era menor, Mãe Karuná ordenava : - "Mais rápido, Erasto!". O fusca nunca foi considerado um carro com boa estabilidade, e lá ia eu: a mente no mantra "Om Nama Shivaya"**, o pé no acelerador e os braços se esforçando para manter o carro na pista... Parecia a "dança de Shiva"! Quando chegamos ao perigoso trevo da cidade de Anápolis, situado a 60 km de Goiânia, um grave acidente nos fez diminuir a marcha. Dois carros haviam acabado de se chocar de frente! Os carros estavam de pé, um apoiado no outro, como duas cartas de baralho. Vi duas pessoas cobertas de sangue sentadas sobre o meio fio. Não havia mais ninguém na estrada. Fomos os primeiros a chegar ao local quando o acidente acabara de ocorrer. Swamiji, ao ver as vítimas do acidente, imediatamente ordenou que eu parasse para prestar-lhes socorro. Eu o informei que chegaríamos atrasados. "Não há problema, vamos socorrê-los", respondeu o guru. Parei o carro. Nós três ajudamos os feridos a se acomodarem no banco traseiro do fusca. E parti em alta velocidade até o hospital de Anápolis, situado a uns 10 km do trevo. Swami e Mãe Karuná ficaram no local do acidente. Parei na porta da emergência do hospital, desci do carro, e logo vieram com as macas para carregar as vítimas. Nesse momento, passei por um rápido dilema moral: disseram-me para aguardar a polícia ali onde estava, porque eu deveria prestar declarações sobre como teria ocorrido o acidente. De imediato, calculei que levaria no mínimo uma hora para dar explicações sobre algo de que eu sabia muito pouco, pois não vi o acidente acontecer. Eu era um jovem de 20 anos, cabeludo, barbudo, vestindo roupas indianas, estranhas no mundo ocidental, sobretudo no Brasil em 1983: uma figura que poderia até gerar desconfiança na polícia. Mesmo que não desconfiassem, só a burocracia já me faria demorar muito ali: identificação das vítimas, do depoente, declarações, preenchimento de formulários, assinaturas, carimbos etc. Qual seria o meu "dharma"*** naquela situação: cumprir o meu dever de cidadão e prestar depoimento à polícia ou concluir a missão de transportar Swami Tilak até Goiânia em tempo hábil para atender os compromissos naquela cidade. Quando os socorristas, após me mandarem esperar pela polícia, deram-me as costas e entraram no hospital com os feridos, não pensei duas vezes: fugi! Entrei discretamente no carro, fechei a porta sem fazer alarde, dei partida no motor e vrum... Lá se foi o potente fusca azul, como um cometa, de volta ao trevo para pegar Swami Tilak e Mãe Karuná, que estavam humilde e pacientemente aguardando, sentados sobre o mesmo meio fio em que antes estavam os feridos... Seguimos para Goiânia. Chegamos ao hospital com apenas alguns minutos de atraso (Só?!). Swami Tilak quis visitar tudo, até a ala mais perigosa. O barulho ali era assustador. Mesmo assim, Swami entrou, sem nenhuma proteção física que o separasse dos internos... Quando Swami ingressou na área onde estavam os pacientes mais perigosos, algo extraordinário aconteceu: os gritos cessaram, as grades pararam de bater, silêncio... Todo o programa transcorreu em clima de paz, tranquilidade, amor fraternal e verdadeira espiritualidade, tal como soía acontecer no "Darshan"**** de Swami Tilakji.
* "Satsanga": "Estar em companhia da verdade": "sat" = "verdade"; "sanga" = "companhia". ** "Om Nama Shivaya": um dos mantras mais importantes do Hinduísmo, significa "Inclino-me ao Senhor Shiva", Deus da Destruição ou da Transformação. Brahmam, Deus Uno e Absoluto, se manifesta no Universo como Brahma - o Criador; Vishnu - o Mantenedor; e Shiva - o Destruidor (ou Purificador, ou Transformador). *** "Dharma": "Lei natural", "dever", "caminho para a realização espiritual". **** "Darshan": "Bençãos e purificação sentidas na presença do sagrado".
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SÓ LETRA
L
A B C D E F G H I J K LMNOPQRSTUVWXYZ
L Letra tear reta arte
Letra é arte. Letra alerta. Letra arreta. Letra é aleta. Ela é tear: ata, reata e atrela. A letra está para o átomo, como o poema, para a matéria. Poema é amor entre letras.
Pode ser minúscula em Bashō. Pode ser maiúscula em Camões. Letra não é nada sem o leitor ou é um muro de incompreensões.
Mas só alcançará a completude uma vez que unida a suas irmãs, tal como a aranha tece sua rede e capta no orvalho a luz da manhã.
Três letrinhas já podem ser poema, como, em sânscrito, a palavra Om. O poeta escritor, sem a alma gêmea
do leitor, o poeta seu irmão, morre doente, na pobreza extrema, como Camões morreu na solidão.
Mesmo Camões, sem ter lido Bashō, não foi reconhecido ainda em vida, não faz sentido uma letra só, mas apenas quando está unida
a uma outra e depois outra e assim sucessivamente ad infinitum...
Dedico estas menores e piores redondilhas ao Paulo Leminski
Lê mim se quiser Me lê sem querer Entre eu e você O que der e vier
Um soneto à mãe
O perfume e a beleza das cores das flores que ela tanto amava, para sempre, serão nosso deleite, refletem, pois, o que dela emanava.
E, mesmo não tendo sua presença densa, em corpo físico, entre nós, ainda a teremos sempre presente na mente e no coração. Somos sós,
quando isolados nas paredes do ego. Mas somos todos um só, irmanados em fronteiras além do infinito,
sem barreiras, que separam, do tempo. Assim a sentimos, extasiados pelo que pode ainda ser sentido.
Um soneto ao pai
Quisera eu ter o dom de expressar, de forma tão verdadeira e bela e simples como, à noite, o luar, a sua luz atravessa a janela,
para, quem sabe, tentar transmitir, com palavras, a justa homenagem, mais valiosa que possa existir, ao amigo, ao exemplo, ao homem!
Ao pai, que muito amo e que me ama, hoje só agradeço; nada peço. Dedico este soneto em que trabalho
àquele cuja vida é um poema, àquele cujo nome é um verso: Erasto Villa-Verde de Carvalho.
"Amar se aprende amando"
Dormir se nasce sabendo Chorar também é instinto Andar se aprende caindo Viver, desafio estupendo
Sorrir se aprende sorrindo Fazer se aprende errando Cantar, em aulas de canto "Amar se aprende amando"
Dançar, só rodopiando Ler se apreende lendo Escrever, no pensamento
Expressar-me experimento Proseando e versejando Drummondeandradeando
Outros sonetos ao amor
I
Sei que o amor está em toda parte e aparece quando menos se espera, quando se chega e quando se parte: o amor é fícus, o amor é hera.
Árvore frondosa de grandes copas. Erva que se espalha pela parede. Ora nos enleva alto, ora brota como praga, musgo ou limo verde.
Hoje amo amor de árvores belas, antes sementes, agora florescem: todos que as veem se admiram delas.
Mas também sei do amor que dá em pedras, que se espraia, nos agarra e endoidece. Prefiro o amor fruto ao amor quimera.
II
Quero me embriagar de poesia. Beber palavras até saciar a sede que me resseca a alma. Degustar o néctar da ambrosia
de versos em caldas. Eu tomaria litros e mais litros de letras tintas, tonéis de carvalho, harmonizadas com as melhores especiarias.
E depois, dançaria com a musa, ao som das estrelas. Sobre o tapete verde, então, tiraria a sua blusa
e sorveria o doce deleite que escorreria por fora de sua taça de amor, tal como sorvete.
Corpo de dor / Corpo de luz
A meu irmão espiritual Namadev (in memorian), que, além de tantas outras preciosidades, me apresentou a obra do mestre espiritualista Ekchart Tolle.
I
Enquanto perco a minha consciência, uma intensa dor de mim se apodera, como se eu fosse uma outra pessoa não tão boa como a que antes eu era.
Deixo-me dominar pela emoção que de tão forte a mim me controla, pensamentos tolos que vêm e vão, sem a noção do Ser, do aqui e do agora.
Depois me vem o arrependimento, a dor do remorso que me devora. E desse modo retroalimento
o corpo de dor que dentro em mim mora. Como me livrar dele? Não sei. Tento forçá-lo daqui de dentro pra fora.
II
Dor que volta mais forte do que antes. Meu semblante até a mim apavora. Já com a face toda retorcida, como suicida que só aguarda a hora
de terminar com sua própria existência, nem mesmo eu a mim me reconheço. Quero começar novo recomeço, estar consciente da Consciência
e mais presente em minha presença. Não há solução à base da força. A mente que descontrolada pensa,
observada de maneira atenta, naturalmente uma hora se cansa e na quietude então se assenta.
III
Assim surge silenciosamente quem sempre esteve, mas despercebido, aqui mesmo, contudo escondido pelo ego que me dominava a mente.
Sem nome ou forma, refoge aos sentidos. Em relação ao mundo é transcendente. O Eterno só é aqui, no presente. O Infinito nunca é definido.
O corpo de dor, desaparecendo aos poucos, perde a sua densidade, pois só existia em meu pensamento.
Quieta a mente com naturalidade, alívio sinto enfim bem aqui dentro: só o Corpo de Luz É, na realidade.
Ahimsa
Política não é religião, assim como partido não é seita. Sem a liberdade de expressão, a Democracia não se sustenta.
O discurso de ódio interessa só a quem toma o poder à força. Para que o povo o retome depressa, criatividade e inteligência
são necessárias na resistência, desobediência civil pacífica, como ensinou Mahatma Gandhi.
Sua doutrina da Não Violência é uma grande verdade histórica que o brasileiro agora apreende.
Vermelho (des)encarnado
I
Do pau-brasil se extrai o pigmento para tingir tecidos de vermelho: a cor que provoca tanto espanto em quem se ufana de ser brasileiro.
A cor menos visível do espectro está na pele dos índios Tupi. Quando aportaram os estrangeiros, eles já se encontravam aqui.
A que mais se aproxima do negro, como o sangue derramado em vão, é pois a cor que causa tanto medo,
a cor que se ausenta sem a luz, qual a fogueira que vira carvão à medida que o fogo se reduz.
II
Do pau-brasil se extrai o pigmento para tingir tecidos de vermelho. Mas o desconhecimento é tanto que ignoram até o que é ser brasileiro!
Se o vermelho não está na bandeira - como o verde das matas devastadas, o azul do céu de nuvens poluídas, o amarelo do ouro que orna igrejas
na Europa -, está na pele dos índios que habitavam esta terra quando os brancos a tomaram (tempos idos?),
no sangue que derramaram enquanto saqueavam e ficavam mais ricos à custa de almas desencarnando...
III
Revogaram o vermelho das rosas. Proscreveram o vermelho do sangue. Confinaram o vermelho das roupas aos limites de um sonho estanque.
Censuraram palavras de ordem. Proibiram as frases de efeito. Determinaram os livros que podem ser, nas mais nobres estantes, enfeites,
e queimaram em fogueiras medíocres: os outros; rosas e roupas vermelhas. E chamaram sonhadores de míopes,
ignorando sua própria cegueira. Pois o sonho arrebenta os diques, como o sangue escorre das veias.
Vossa Excelência tem a palavra
A linguagem do advogado verdadeiro, dita de forma tão dura quanto polida, que a Justiça nela brilhe por inteiro e trespasse a falácia em aço construída,
há de ser. Pois, como o diamante, milenar, forte nos textos dos clássicos, que cultiva, o advogado deve assim se expressar, bravo, com voz serena, todavia altiva.
E que esse mesmo brilho, de tão reluzente, pleno de simples e honesta sabedoria, possa enfim ofuscar a fala do sofista.
Que sirva não a si, mas sim a seu cliente. Nem o gesto ou a beca, nada em demasia. Assim seja, claro, na voz e na escrita.
Ser ou estar?
Tantas vezes de novo reinvento outro eu que eu sei que sempre sou: político, poeta, músico ou advogado mesmo, virulento
assim como estou neste momento, que já não sei se sou persona grata! Mas para mim isso pouco importa, contanto que eu continue sendo
eu. Mas quem sou eu? Nem quero saber! Cabeça doida, teorias tortas. Ser ou estar? É de estarrecer!
Clamo pela paz, ao amanhecer, ideias certas, vida bem disposta! Diferente de mim, não posso ser.
Haicais. 20.6.2016
Está amanhecendo O canto de um passarinho Frio... Frio... Frio
Cinzas no ar Revoada de quero-queros Poeira nos sapatos
Seca no cerrado Queria tomar chuva até encharcar a alma
O dia se esvai O sol que entra na sala não me aquece dentro
São grilos da noite zumbindo no meu ouvido ou grilos da mente?
Haicais. 21.6.2016
Alta madrugada. Canta o carro-de-boi? Não! O carro de lata.
"Inverno austral" Dias curtos, noites longas Sul do e-quæ-dor!
Dia do Yoga: atividade no templo; paz no coração.
Haicai. 22.6.2016.
Porto Alegre? Sim. Mas trago nesta viagem frio no coração.
Outro paiz (23.6.2016)
Bah sal Bah céu Brazil
Bah sol Bah sul Bah frio
Balbucio
Bah chá Bah tchê Bah xi
Bashō Babaçu Baiacu
Baba, Rio!
Haicais da Bahia (jul.2016)
O sol é a estrela do dia, mas a tristeza, o astro de dentro.
Eu robotizado Estrelas no Universo O mar me lambeu
Carta à Segunda Pessoa
Digníssima Senhōra, Onde estás que não respondes? Só nos versos de Pessoa, de Cabral de Melo Neto?
Ah, eu chamo-te à toa... É aqui que tu te escondes? Nestes versos que destoam, pois versejo, não poeto?
Farias a mediação entre mim e a Terceira, mas sem ti, na solidão desta língua brasileira,
José, Chico e João, Severino e Donana, o Mané, a Conceição, Seu Tião e Bastiana,
até mesmo os de cima ficam sós, na Casa Grande, que ninguém consegue rima se te fazes de importante.
Preto não fala com branco, só com a excelência dele, e, se o olha no olho, chicote lhe queima a pele.
Na tribo, criança, cacique, homem, mulher são auá. Mas carioca é muito chique, lugar de branco falar.
Inclusive padre Antônio, irreverente com Deus, era cerimonioso quando pregava aos seus.
E o plebeu não se dirige diretamente ao Rei. Por isso que sumiste ou causa de que? Não sei.
Ei! Fugiste para onde? Diz-me, ora pois! Que é de ti? Coronel ou lobisomem, estás com medo de quê?
Não podes abandonar tantos filhos de João, de Maria e de José! És cristã ou és pagão?
Foste para além-mar com a família real? Não temos com quem parlar de igual para igual!
Voltasse pra Portugal, sem coragem de lutar, e levasse, além de terra, que dizias tanto amar...
(Vossa Mercê me perdoe se já lhe não dou ao respeito! Vosmecê não se chateie, não falo mais com você!
Suncê levasse daqui, além de terra - já disse!), ouro, prata... mineral, toda riqueza que existe,
e largasse uma língua nesse mundo, sem igual! Pois italiano, espanhol, português de Portugal
prosam contigo de boa, em Roma, Madri, Lisboa. Aqui te tratam tão mal quanto foram maltratados.
Nesta terra desigual, pobre e rico tão distantes, não estranha no Brasil idioma nunca dantes...
Onde mal falam ocê, agora, em tempo real, duas letrinhas, mais nada, é tudo que lhe restou.
Nem me refiro a bandeira branca, pedindo a paz, levanto sim a vermelha: que não tornes nunca mais!
Desde que, neste país, Pombal, pedante Marquês, proibiu a língua Tupi e impôs o Português,
gerações degeneraram-te, na fala e na escrita, cansadas de palmatória, de chibata. Que desdita!
Como disse o malfalado, Severino Cavalcanti, chefete dos Deputados (tão insignificante,
mas nos anais registrado): - Recolha-se à insignificância de Vossa Excelência! Vc já está bloqueado!
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Carta à Segunda Pessoa
Digníssima Senhōra, Onde estás que não respondes? Só nos versos de Pessoa, de Cabral de Melo Neto?
Ah, eu chamo-te à toa... É aqui que tu te escondes? Nestes versos que destoam, pois versejo, não poeto?
Farias a mediação entre mim e a Terceira, mas sem ti, na solidão desta língua brasileira,
José, Chico e João, Severino e Donana, o Mané, a Conceição, Seu Tião e Bastiana,
até mesmo os de cima ficam sós, na Casa Grande, que ninguém consegue rima se te fazes de importante.
Preto não fala com branco, só com a excelência dele, e, se o olha no olho, chicote lhe queima a pele.
Na tribo, criança, cacique, homem, mulher são auá. Mas carioca é muito chique, lugar de branco falar.
Inclusive padre Antônio, irreverente com Deus, era cerimonioso quando pregava aos seus.
E o plebeu não se dirige diretamente ao Rei. Por isso que sumiste ou causa de que? Não sei.
Ei! Fugiste para onde? Diz-me, ora pois! Que é de ti? Coronel ou lobisomem, estás com medo de quê?
Não podes abandonar tantos filhos de João, de Maria e de José! És cristã ou és pagão?
Foste para além-mar com a família real? Não temos com quem parlar de igual para igual!
Voltasse pra Portugal, sem coragem de lutar, e levasse, além de terra, que dizias tanto amar...
(Vossa Mercê me perdoe se já lhe não dou ao respeito! Vosmecê não se chateie, não falo mais com você!
Suncê levasse daqui, além de terra - já disse!), ouro, prata... mineral, toda riqueza que existe,
e largasse uma língua nesse mundo, sem igual! Pois italiano, espanhol, português de Portugal
prosam contigo de boa, em Roma, Madri, Lisboa. Aqui te tratam tão mal quanto foram maltratados.
Nesta terra desigual, pobre e rico tão distantes, não estranha no Brasil idioma nunca dantes...
Onde mal falam ocê, agora, em tempo real, duas letrinhas, mais nada, é tudo que lhe restou.
Nem me refiro a bandeira branca, pedindo a paz, levanto sim a vermelha: que não tornes nunca mais!
Desde que, neste país, Pombal, pedante Marquês, proibiu a língua Tupi e impôs o Português,
gerações degeneraram-te, na fala e na escrita, cansadas de palmatória, de chibata. Que desdita!
Como disse o malfalado, Severino Cavalcanti, chefete dos Deputados (tão insignificante,
mas nos anais registrado): - Recolha-se à insignificância de Vossa Excelência! Vc já está bloqueado!