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À MANEIRA DAS CADELAS



olhando o sangue
de moscas vespertinas
e pedaços de carne
pendurados no açougue
penso sempre o poder
parido à maneira das cadelas:
crescendo GEOMETRICAMENTE
a fome dos cachorros


Maria Silva
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Poemas

21

ESSÊNCIA



dessas noites contigo
não me basta saber
se me amas ou não

mas extrair tuas loucuras e tolices
tuas asneiras e recatos

enquanto me roça as coxas
e abre mãos sobre meus seios

extrair de teu corpo
o corpo inteiro
como se nunca tivéssemos amado


Maria Silva
181

DUPLA EXISTÊNCIA



sempre senti assim
e então
meus dias são como gritos
a povoar a garganta
e um de meus olhos é uma manhã ensolarada
enchendo a casa de luz

mas sempre senti assim
qualquer coisa como um punhal
reprimida vontade de matar


Maria Silva
168

TRINCHEIRAS



o que tenho de mim
são esses restos
resquícios de batalhas anteriores
estilhaços de tédio
dolorosas medalhas

esgotada de mim
o que mais poderia te oferecer
além de tréguas
tratados

além de mãos que vasculham
teu território abandonado
formulando um perigoso pacto
bélicas promessas de romance

mas
como cumprí-las
se o conflito é inevitável
e o medo demarca fronteiras
aprisionando a poesia
nos corações derrotados


Maria Silva


185

CRIAS



tenho medo sim
dessa fragilidade
que me faz tecer histórias
e chorar
a cada final


Maria Silva
187

BATALHA



é necessário
que me ameace sempre
de ambos os lados
com lâminas finas

é necessário
que me corte sempre
constantemente
em metades distintas

pra que me sinta forte
sincera
inteira
e finalmente vencida


Maria Silva
177

À MANEIRA DAS CADELAS



olhando o sangue
de moscas vespertinas
e pedaços de carne
pendurados no açougue
penso sempre o poder
parido à maneira das cadelas:
crescendo GEOMETRICAMENTE
a fome dos cachorros


Maria Silva
181

FRACASSO



e
abandono o palco
como quem
vai procurar
nos bastidores
uma gota d'água
pra tentar salvar
nosso teatro em chamas


Maria Silva
177

DESGASTES



o amor
é essa gilete desatenta
enferrujando
sobre a pia

no embotamento
do que um dia foi paixão
no esgotamento
do que outrora foi poesia


Maria Silva
211

REMENDOS



em constante suspense
tudo o que mais me afligiu
foram as acrobacias baratas
e os truques de amor
que por tanto tempo
mantiveram intacta
a lona esgarçada
dessa relação fim de circo


Maria Silva
184

INÉDITO



após
tantas bocas
tantos corpos

paira
entre as pernas
e os poros

a sensação
de que o amor
ainda é inédito


Maria Silva
194

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