R. Elfe

R. Elfe

n. , Brasil

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puro desvão

puro desvão de rua,
parede descalça,
pés de muro,
a mudez da curva,
salto na grama,
o palrar do vento nas maçãs do corpo,
a ingratidão da chuva,
o verão limpando o fogo,
o caminhão de lixo fantasma,
a lâmina na corda,
o vizinho de cima embaixo da porta,
a boca dos móveis,
o olhar dos padres
dos automóveis,
dentes cariados,
faróis dobrando a esquina,
contratos que se calam,
as pequenas linhas inimigas do tarô,
trópicos lidos,
os psicotrópicos da vulva celeste,
histórias coloridas,
frutas sobre a mesa, o gurufim,
flamenguistas como eu,
arrivistas e afiliados de pele branca e mãos de ferro,
feirantes e contribuintes de um longo país devorado por mosquitos de proveta,
palavras com patas de gesso,
pano nas orelhas e o sangue do poeta,
crianças e mais crianças gritando acentos circunflexos,
a vírgula distorcida, o trema quieto e morto
seus filhos, os meus,
os netos e as tias que jamais comeram tóxico,
o fumo conversando asneiras,
o quarto devorado à língua,
seda comendo bicho,
nariz e navio numa só fileira
da boca, do pulo, da fresta que vomita cús
do sol cheirando estrume
cogumelo saltando bosta
manhã virgem e teu gole
teu gole mais teu
seguros numa apagada rua de outra cidade
assassinos com chapéus de harpa
o anjo condenado ao trem de mariposas
Deus numa loja de conveniência riscando fósforos úmidos
uma estrela morta,
os adesivos de aviso sonoro, o avião enterrado às pressas
uma explosão de coisas aceleradas e vazias
a incompreensão da mosca
o indivisível pesar de uma caixa de sapatos

só uma das mãos pode cavar
a outra aguarda o fruto.
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Poemas

6

puro desvão

puro desvão de rua,
parede descalça,
pés de muro,
a mudez da curva,
salto na grama,
o palrar do vento nas maçãs do corpo,
a ingratidão da chuva,
o verão limpando o fogo,
o caminhão de lixo fantasma,
a lâmina na corda,
o vizinho de cima embaixo da porta,
a boca dos móveis,
o olhar dos padres
dos automóveis,
dentes cariados,
faróis dobrando a esquina,
contratos que se calam,
as pequenas linhas inimigas do tarô,
trópicos lidos,
os psicotrópicos da vulva celeste,
histórias coloridas,
frutas sobre a mesa, o gurufim,
flamenguistas como eu,
arrivistas e afiliados de pele branca e mãos de ferro,
feirantes e contribuintes de um longo país devorado por mosquitos de proveta,
palavras com patas de gesso,
pano nas orelhas e o sangue do poeta,
crianças e mais crianças gritando acentos circunflexos,
a vírgula distorcida, o trema quieto e morto
seus filhos, os meus,
os netos e as tias que jamais comeram tóxico,
o fumo conversando asneiras,
o quarto devorado à língua,
seda comendo bicho,
nariz e navio numa só fileira
da boca, do pulo, da fresta que vomita cús
do sol cheirando estrume
cogumelo saltando bosta
manhã virgem e teu gole
teu gole mais teu
seguros numa apagada rua de outra cidade
assassinos com chapéus de harpa
o anjo condenado ao trem de mariposas
Deus numa loja de conveniência riscando fósforos úmidos
uma estrela morta,
os adesivos de aviso sonoro, o avião enterrado às pressas
uma explosão de coisas aceleradas e vazias
a incompreensão da mosca
o indivisível pesar de uma caixa de sapatos

só uma das mãos pode cavar
a outra aguarda o fruto.
450

Sem título

Tenho o lado imemorial dos mortos. 

Se não estão aqui, não os sei. 

Meu pai circunda o grau 9 desse tremor. 

Os melhores amigos afundam no 7. 

O estranho é reconhecer nesses vazios 

tudo o que eu não soube preencher.

390

Trecho

Quando se nasce pro instante,
o futuro é virar-se pro nada.
Poucos pruma vida diletante,
muitos pruma vida apagada.

369

Escavações ao silêncio

Não basta emudecer, ou trancar-se em si.
Continue a fala, abra caixas, anote vôos.
Onde menos reconheces como tal, escondeu-se.

Aí, nesse fundo falso de alguns sonhos inevitáveis,
ilumina-se a face risonha desse menino sem olhos.
414

Trechos

Ando preguiçoso.
Uma preguiça quente.
Preguiça de poço na sombra.
De gato.

Preguiça de gente morta.
397

(Trecho ao meu amigo Rimbaud)

"A minha alma persegue um naufrágio maior. " 
(Paul Verlaine em: A Angústia)


A descrença, aqui e agora, como foi antes.
Fulminados por um sol esquecido e mórbido.
Alardeia o breve e o que já se foi! 
- E a vida?! 
- Foge meu querido!
Entre músculos e ossos, foge!
Estamos sempre a descer por seus infernos 
Sem uma estrela a nos guiar.
Agora dá-me um pouco desse fogo, que tanto nos uniu.
Um pouco da cor de céu dos tantos que partimos.
Me faz lembrar de ti toda manhã assim, gélida.
Visões de tantas vidas!
Que futuros mais teremos?
Não espero por mais nada...


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