Lista de Poemas

Sobre nada

Mesmo que o grão disseminado 
Conteste a singularidade do plantio
E a terra em desuso 
Combata o florescer obscuro 
Delírios ácidos acentuarão
Debalde, a irrigação nos poros
Latentes em cada movimento 
Mesmo que imortalizar os vícios
Signifique simpatizar a paranoia
Ramas plácidas infinitas
Ainda codificarão o instinto
E os pressupostos doutrinarão a culpa
Se os sapos tivessem asas
Não bateriam com o traseiro no chão
Sempre que pulam 
Mesmo que as pupilas dilacerem o razoável
E as bigornas sirvam de peso para papel
Alguma coerência ainda restará
E vibrará como uma víbora
No forno aceso
Jogar fora a própria vida 
Significa usá-la da melhor forma
Mesmo que confrontar medo com medo
Seja um blefe da consciência
A confusão enrijece o apetite
Por tudo que se ganha sem razão
Admita que sempre foi hipócrita!
Sendo hipócrita, como posso admitir?
Ousar ou usar
Se em qualquer momento da minha vida 
Eu depositar toda minha esperança em alguém
Então podem ter certeza
De que perdi a esperança
Mesmo que nada seja atributo de tudo
Tudo que se escreve sobre nada
Sobretudo
Sobre nada, esse poema
Não quer dizer tudo
Um peixe de sobretudo
Nada nada
Em seu aquário

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251

Ritmo sincronizado

Continuo sendo essa equação de solidão
Que soterra paladinos
Em puro ostracismo vulgar
Para além das manias pueris
O preço dos meus dentes está caindo
Correspondências sem meu nome entopem a caixa
Tem Teresa, Rogério, Camilo e Adriano
Com intimidades bancárias
Paulo Roberto assinou TV a cabo
Regina lembrou-se de Alceu
Impossível esquecê-lo
É o imbecil que emprestou-me a chave de fenda
Alceu recebe cartas de Regina e tem uma chave de fenda minúscula
Já daria um ótimo marido de aluguel
Orgulharia o presidente
Não a mãe
Nem minha namorada, Gilmar é seu marido às vezes
Ele sim tem uma bela chave de fenda
Aliás, tem um jogo inteiro delas
A carne e o detergente estão em promoção nos panfletos
Retiro somente um da caixa do correio
Não tem meu nome, mas também não tem nenhum outro
Por Deus, a única coisa realmente útil que tenho na pia do banheiro
É uma loção para hemorroidas, e nem ao menos posso usar
Porque não incharam ainda
Nem caíram pra fora de mim
Penduradas, sabe
Talvez eu devesse doar para o carteiro
Já que nem um cachorro tenho pra ele
O fogo que era azul agora derrete minhas panelas
Insisto em observá-las pingando
Só assim me interesso por química
Parece besteira, mas decorei a tabuada
Quem sabia podia sair da escola antes
Capitais nunca soube
Sempre um dos últimos a sair da aula de geografia
Minha professora de ciências tinha um belo rabo
Como não consigo lembrar seu nome?
E por que não esqueço o nome da professora do pré?
Alice, meu primeiro corpo impossível
Bobagem, não era carnal, era amor
Afinal, toda criança de seis anos era capaz de amá-la
Obrigada a amar aqueles cabelos lisos e sua pele lívida
Que sorriso, que voz, que cheiro absurdo
Será que ela me amou tanto como eu a amei?
Possivelmente, meus seis anos foram meu auge
Tolerância
Tolerar
Ser tolo
Arder em areia fina
Marchar na poeira molhada
Dormir em um copo
Acordar em um corpo
Singelamente possível


Poema encontrado no livro "estrAbismo" (Editora Viseu)
https://www.eviseu.com/pt/livros/622/estrabismo
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Diante de ti

No mar que palpita os olhos, escarnece a alma 
Diante de ti,
Em meio ao véu soturno
Do primeiro sopro cardíaco da manhã 
Perpétuo
O cheiro de abacate cortado
Indignas
Roseiras em caules mastigados
Tiranos
Psicopatas em cruzes de orvalho
Diante de ti,
Bigas transportando palhaços invisíveis
Quimeras em estátuas de sal
Maçãs nas teias de aranha
O improvável mausoléu de heranças equívocas
No mar que palpita os olhos, escarnece a alma 
Diante de ti,
Godot na corda de Lucky
Sabor dos cachimbos de plástico
Colchões em pé no canto do quarto
O amargo estampido no palato do fantoche
As ruínas nas migalhas de janeiro
Diante de ti,
Sobremesas antes do jantar
Nicotina em doses curativas
Puxadores soltos nos parafusos
Conservas vazias embaixo da pia
No mar que palpita os olhos, escarnece a alma 
No mar que palpita os olhos, escarnece a alma 
Diante de ti,
Túmulos em poses circenses
Acrobatas no subúrbio animal
Embriaguez em tempos de paz   
Baratas mortas dentro dos moletons
Almoços em xícaras de papel
Adiante, adiante, adiante
Elos em crinas de borracha
O improvável mausoléu de heranças equívocas
No mar que palpita os olhos
A planta do céu da boca
Antílopes fumando cigarros de bronze
Cobertores atirados em camas molhadas
Diante de ti, escarnece a alma
Interruptores amarelos como os dentes
Panelas com cabos quebrados
Isqueiros molhados
Pregos de cabeça torta
Azeite na garrafa de vinagre
Vinagre no pote de sal
Sal na boca do fogão
Buraquinhos do chuveiro trancados
Alicate que não abre mais
Diante, diante, diante
De ti
Não adianta
Mais
298

Nec spe nec metu

Hálito imaculado num bocejo de ferrolho
Já é tarde pra mastigar o pigarro
Veneno som que imita e tranca
A trinca que acasala sozinha
Sobre o isopor das maçãs verdes
Puniram-no
Pelo velho hábito de fazer serenatas  
Após goles de água gelada
Gracejo
Já é tarde para reinventar as pernas flácidas
Da mulher colhendo amoras
Amoras que fazem tilintar 
O miserável sapo de dente quebrado
Pobre Ugo, o sapo que ejacula farinha
E emoldurou uma lápide grande demais para seu nome
A galega com perfume de trigo
Cambaleou ao entrar no banheiro
Sussurrando o famoso lema: 
“Sem esperança, sem medo”
Ugo antes de saltar pro brejo esbravejou:
“Sem herança, só medo”
Com a coberta em relva cinzenta
O poema não é mais poema
O poema já é tarde
Amanhã a trinca me acordará
Como alguém gritando:
“Sem esperança, só medo”
Meu hálito será de brejo
Meu ferrolho um bocejo
E meu gracejo uma mancha de amora
Lapidada nas pernas flácidas da mulher
Que nem sabe meu nome
274

O capcioso eu derrotado

Foi Churchill quem disse:
“Agora que fizeram o que queriam
Vocês têm uma tarefa mais difícil
Gostar do que fizeram”
Ao som dos ruídos gástricos da cidade
O poder nunca foi tão metafísico
Partindo de um ponto ignóbil e viril
O desvio insular coberto por um lençol com dois furos
Homens e mulheres como adesivos num campo de golfe
Foi por isso que Prometeu prometeu não prometer mais nada
Sempre ouço dela: “Não existe doença, existe doentes”
Há muito pouco para mastigar ultimamente
Tudo parece trivial e sem gosto
Comboio marginal
Animais gargalhando, pois voltaram no tempo
E abortaram suas mães
E as tartarugas vivem muito
E as corujas também
Enquanto um besouro castrado na gaiola
Queima num berço vicioso
Colando fumaça no quadro branco
Escritor tarde demais
Escritor cedo demais
Desaprendendo
A caçar na escuridão
Um feixe de luz ilusório
Que me cega
No primeiro feixe de luz
Na escuridão
Era 22:00 quando faltou luz no bairro
E o primeiro grito que ouvi foi esse:
“Filha da puta! E agora como saberei a hora de parar de limpar o rabo?”
O maldito cano sanfonado
Os intrusos, a goteira, as rachaduras da parede, o barulho da caixa d’água
Uma aranha sem pernas tecendo sua teia para afastar-se de mim


Poema encontrado no livro "estrAbismo" (Editora Viseu)
https://www.eviseu.com/pt/livros/622/estrabismo
255

Granada

Da mancha no olho casto
Do prurido na pele branca
Dos calos relevantes no pé 33
Das paisagens que sobram na cama
Leio Azevedo por 3,99
O primeiro livro vendido no bazar
Segundo a caixa
Pedido de ordem nas cruzadas
Não sei a capital do Líbano
Sugiro Lindóia do Sul
Muita letra
“Não sei”, por fim, nos une
Uníssonos
Tocamos cabelos e formigas
Nas paredes mofadas
Nos panos de pia
No pacote de lixo
Na folhagem que atrai abelhas
Nas folhagens que nos une
Que regamos com suco de limão
E adubamos com erva molhada
Assim sentamos à margem
Das tristes notícias do erro comum
Das traças viciadas em naftalina
Dos equívocos das tesouras com ponta
Do nome no lápis sem ponta
Da taça trincada por um erro comum
Dos beijos si-lá-bi-cos
Voltamos a caminhar
Torcemos nossos corpos
Na quina do sofá
Na porta do box
Achamos engraçado esse porte de arma
Quebramos, esparramamos
Os cacos da porcelana verde por dentro
Vamos embora, vamos embora
Nosso chão tem carvão em brasa
Nossos símbolos vestem chapéu
Nossa ternura usa bigode
Nossas extravagâncias estão no sótão
Deixo a toalha de banho marcada de cera
Uso dois pingos de gel
Repito a cueca
Corto as unhas dentro do cinzeiro (um pote de metal para presente)
Cheio de ilustrações geométricas
Mas saem voando, capazes de orbitar
Vamos embora, vamos embora
Ela deixa rastros de primavera pela casa
Ela queima como um verão bêbado
Ela é outono quando sonha e inverno quando chora
Suas toalhas de banho têm cheiro de pêssego
Seus cigarros ardem como incenso
Damos nomes aos insetos que respiram pela boca
Das patrulhas pelas travessas
Do mendigo que fala chinês e mendiga em espanhol
Da noite que embrulha a ópera
Dos centímetros que separam metros
Do último furo no cinto
O álibi como um simples não
À margem, à margem
De um confuso ato
Os espelhos podem marinar
A recompensa que nunca acaba
Ela já está dormindo
Minha lira de 29 anos


Poema encontrado no livro "estrAbismo" (Editora Viseu)
https://www.eviseu.com/pt/livros/622/estrabismo
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Zoometarquia

Chinelos vermelhos
Tramas na geladeira
Quinta da carne
Terça das verduras
Papai e mamãe perderam a posição
Há sangue nas gavetas
Quarta do frango
Sexta da cerveja
Há umbigos roçando desonestos
Cristina chora no quarto escuro
Ao lado da goteira, afirmando:
“O mundo perdeu-se por andar em círculos”
Domingo teatro
Segunda folga
Feriados, sacolas cheias de água
Chico empresta dinheiro para a esposa
Com juros abusivos
Há um frasco de remédio vazio
Pendurado como um guarda-chuva
Na hélice do helicóptero
Urubus são anjos que deram certo
Sábado
A colheita, a colheita, a colheita
Dias, sabores
Quinta da carne
Terça das verduras
Kama sutra além do livro de receitas para colorir
Ingredientes sem giz de cera
Carnes, verduras
Tramas na geladeira
Chinelos vermelhos
O palhaço do semáforo
Após deixar seu nariz de plástico cair
Embute:
“Contudo,
Com nada
Se perde tudo”
Eu deixei as moedas em casa hoje


Poema encontrado no livro "estrAbismo" (Editora Viseu)
https://www.eviseu.com/pt/livros/622/estrabismo
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Comentários (1)

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billygancho

Muito bom.

Ramon Carlos é coautor do livro estrAbismo (Editora Viseu, 2018). Escreve no site: www.estrAbismo.net. Tem materiais diversos espalhados em revistas como: Mallarmargens, Amaité Poesias & Cia, InComunidade, LiteraLivre, Subversa, Philos, Escambau, Bacanal, Ruído Manifesto, Literatura & Fechadura, Jornal Plástico Bolha e Cidadão Cultura.