Encantamento
Fim de tarde de pôr-do-sol pigmentado de alaranjado com timbres de púrpura.
O mar numa ondulação adormecida.
O "tschh tschh" penetrante das suas ondas leva-me os pensamentos.
Uma brisa insinuante ousa tocar-me com os seus dedos quentes.
Há música de tom teatral na paisagem.
As borboletas irrompem na sua interminável e exuberante dança de purpurinas.
Há suaves batimentos vindos do solo.
Ou talvez vindos de dentro de mim.
Não sei, não sou capaz de distinguir.
Ouço pássaros que avançam.
Escuto-os na ânsia desesperada de uma novidade acalentada.
Melodicamente gritam-me palavras de ordem reveladoras.
Sou invadida.
Surpreendentemente, pego em mim e levanto-me, sem esforço, daquele banco de pedra envolto em flores silvestres.
Obedeço apaixonada às melodias e aos mandamentos que me chegam do ar.
Saio.
E...vou amar.
Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
Os Meus Olhos
Os meus olhos dizem o que a boca não ousa pronunciar...
Porque as palavras eu controlo, mas o coração não!
Porque tantas vezes me traio em conversas, mas no meu olhar não!
Porque os olhos são leais à alma , mas a boca não!
Porque os olhos falam sem falar, mas a boca não!
Porque os olhos brilham, mas a boca não!
Porque os olhos são paz e afecto...a boca é matéria, é razão!
Porque os meus olhos não gostam do escuro...
E eu também não!
Sim! Os meus olhos não têm faz de conta...
E eu tambén não!
Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
Velho Banco
Gosto daquele velho banco da praça.
Que foi ali ficando meio perdido, propositadamente esquecido e só.
Tão anonimamente conhecido.
Banco meio coxo de pedra gasta e macia.
É de um acinzentado nu e brilhantemente polido pelo tempo.
Valente sobrevivente, pobre de elegância e tão valioso de testemunhos.
Sem a imponência digna de um postal de recordação.
Porém, eternizado na memória de muitos.
Inspirou poetas e serviu artistas.
Histórico palco de entusiasmantes encontros.
Nele se cravam também longas despedidas.
Impregnado de momentos à roda dos quais pairam sentimentos genuínos.
Docemente acarinha os que, como ele, andam eternamente sós.
Sós na vida ou naquela praça sem idade.
Já foi casa despida em tantas noites de solidão.
E reconfortante pouso em tardes quentes de sol escaldante.
Silencioso confidente e servo ouvinte dos que lhe abrem a alma.
Companheiro dos pássaros, seus fiéis guardiães que lhe trazem uma exclusiva melodia.
Um firme abraço sem braços, sempre tão seguro.
Constantemente disputado e ocupado, sendo de igual forma irmão do abandono.
Ás vezes quente, às vezes frio.
Fiel ao turbilhão da sua praça movimentada e ao tropel que, de vez em quando, por ali passa.
Gente que o olha, mas não o vê.
Alguns nem o sabem ali, estando ele sempre lá.
Preso na sua imobilidade a um chão que não é seu.
Sem ser dono de si consegue ser dono de uma esplêndida vista do rio.
Nobre banco que não se cansa, não foge e não escolhe.
Tão meu e de toda a gente.
Gosto daquele meu velho e singelo banco sem fama...
O seu único nome é somente banco da praça.
Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
As Minhas Mãos
Leva-me tudo!
Deixa-me apenas a sensibilidade...
É ela que me sussurra.
E pelas minhas mãos te fala.
Peço-te que me deixes as mãos.
São as minhas mãos que te escrevem...
E te tocam!
Escrever é um processo de regresso a ti...
Só assim te sinto!
Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
Ah dá-me beijos
Dá-me beijos.
Dá-me beijos quando a lua nos abraçar.
Ou quando o sol nos sorrir.
Quando voarmos de asas esplendorosamente cálidas, nesse momento, dá-me beijos.
Dá-me beijos por entre as altas árvores da floresta mágica.
Beijos na areia cristalizada daquela praia quase secreta ou na montanha da paz.
Quando partir e voltar, quero que me beijes.
Quero a memória dos beijos que passam, quero vinho a transbordar, quero o mar no leito, quero tudo...
Ah, mas quero beijos, desses beijos, muitos.
Se resolver seguir a estrada fascinante do abismo, e se cair, espero que mesmo assim me beijes.
Dá-me a mão e os teus esperançados braços, naquele abraço profundo.
Naquela rua perdida, na janela companheira da noite, nos excessos e na calmaria, dá-me um beijo.
Cobre-me.
Quando sentires o cheiro da terra molhada e rolarmos sob as folhas de seda, num movimento exageradamente longo, de uma dança intimamente sublime e ofegante, dá-me beijos.
Intermináveis. Quentes. Robustos.
Se eu for, se tu não ficares, beijemo-nos para sempre naquela nossa realidade tão imaginária.
Ficará o nosso segredo, eternamente agrilhoado naquele preciso beijo, desse dia nublado.
Se vier a sede de definhar, essa falta, os gritos estridentes e o fim dilacerante... beijos, quero beijos.
Languidez.
Dou-te tudo.
Dá-me amor, corações felizes, natureza selvagem, dá-me tudo.
Ar e todos os elementos possíveis.
Dá-me mais além.
Espero-te no sábio tempo de um regresso orgulhosamente inevitável.
O triunfo.
Dá-me loucura de sensações e sentidos, demência de sentimentos.
Paladares e perfumes aromatizados de encantamento.
O desconhecido e o impossível.
Dá-me mais qualquer coisa.
Ah...
Mas, dá-me beijos.
Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"