Descalça, sigo adiante, pela estrada da loucura que me atrai. É este o inevitável destino de quem na vida sempre cai!
Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
918
Tentar de Novo
Pede-me verdades infinitas. Pede-me a lealdade eterna. Pede-me promessas ditas. Pede-me a minha mão terna.
Exige um apaixonante motim, Disso terás um majestoso confim!
Rouba-me o inquietante medo. Rouba-me a pesada solidão. Rouba-me o escuro degredo. Rouba-me a eterna negação.
Exijo um sentimento carmim, Disso há em mim um sem fim!
Dou-te a minha alma aberta. Dou-te um céu de desvelo. Dou-te a sublime descoberta. Dou-te o meu corpo estrelo.
Implora-me o espinhoso perdão, Desejo em mim a tua absolvição, Em espera arde o meu coração, Numa já longa e letal aflição!
Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
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Carta aberta à baixeza de espírito
Oh baixeza, se é que me ouves, ouve com atenção! Eu posso descer à lama, posso rastejar nela. Mas nunca, ouve bem baixeza, nunca vou lamber botas! Porque na vida há quem beije pés, e eu beijo tantos. Mas lamber botas, nunca! Antes morta! Perder-me em esquemas de importâncias vãs e sujas, nunca! Sabes baixeza, na vida há quem se dê demasiada importância. Importância que só existe nas suas cabeças. Cabeças pequenas que alimentam o ego em compras e vendas de um poder que não têm, um poder poucochinho como o seu espírito minúsculo. E a culpa é tua baixeza, a culpa é mesmo tua, sua parva! Ouve baixeza, na memória ficam só os grandes, os que não se rebaixam ou se vergam com medo. Na memória ficam os que lutam pela verdade, os que mesmo na lama mantêm a verticalidade. Sabias baixeza? Só que tu baixeza, reduzes as pessoas a uma espécie de plasticina tão maleável quanto os desejos pérfidos das mãos em que caem. Pois, eu sei que não sabias… E sabes baixeza, eu posso dançar na lama porque eu, mesmo na lama, tenho coluna vertebral, mantenho a palavra. Minha cara baixeza, na vida há os que importam e os que se julgam importantes. Porque, lembra-te baixeza, as pessoas mais vazias são as que vivem cheias de si. E na vida, há quem arrote a si de tão cheio. E tu baixeza, vives nestas pessoas. Haja misericórdia às suas almas! Oh baixeza, diz-me tu, estas pessoas têm sangue?! Eu não sei… juro que não!
Mas, retém esta baixeza, quando não há laços, respeito, honra, dignidade e outras tantas qualidades que desconheces ou que matas…quando não as há, o sangue não basta!
88
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Toda a dúvida é uma vontade suspensa!
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O Perto fez-se Longe
Escrevo no teu corpo as convenções. Vais falando, estás longe. O sol queima a pele que já não sente. Perdes os dedos em mim. E desenhas-me a história nos contornos. Traço firme na luz imperfeita. Escorro a garrafa, vou escrevendo. Na debandada das emoções. Vais lendo lá de longe, no tom da manhã. Sabe a frio o meu corpo de ti tão perto. Perco a tua voz no eco da moral chagada. O arrojo vem longe, no rascunho desconexo. Não está certo. Pertence a ti a obra de acabar. Morremos assim num acordar duvidoso. A fantasia está longe. Morremos assim sem o amor regressar. Ao fundo, o fim ao longe. Está tão perto.
69
Insistentemente.
O carteiro tocou insistentemente à campainha até que fosse à porta. Depois de meses em que também eu, insistentemente, esperei que ele passasse na rua para lhe perguntar: - E hoje, não tem nada para mim? Todos os dias, todos os malditos dias… Pensou que, finalmente, me trazia o que tanto esperava, o que desesperadamente procurava na caixa por entre as contas para pagar e os folhetos publicitários do supermercado. E nem reparou que há muitos dias que deixei de lho perguntar, que nunca mais esperei que ele passasse. E que cheguei mesmo a evitar que ele me visse, para que não me lançasse aquele encolher de ombros ou pregasse os olhos no chão para que não tivesse que me dizer que não trazia nada. Rasgou um sorriso e disse: - Menina, trago-lhe uma carta registada. Correio internacional. Demorou mas cá chegou, está a ver! O que tem que vir, sempre vem algum dia! Vi-me encostada à porta com aquele envelope na mão. Aquela letra que conhecia tão bem a espelhar o teu nome no envelope que de tão imaculado, ninguém diria ter vindo do outro lado do mundo. A cada segundo, sentia o coração bater como se fosse explodir. Todos os dias, todos os malditos dias… Esperei anos, caramba, anos! Mas agora que me habituei ao silêncio da tua ausência. Agora que a cama já não me sabe a vazio. Agora não me apetece ler-te. O que virias dizer, que te lembraste de mim? Quando bateste a porta o que te pedi não foi que te lembrasses de mim um dia, pedi-te que não me esquecesses em nenhum! Rasguei aquela carta com a mesma fúria com que sempre te amei. E desde esse dia, todos os dias, todos os malditos dias… O carteiro toca, insistentemente, para me entregar um daqueles envelopes imaculados, bem escritos, um daqueles com o teu nome, um daqueles que junto aos folhetos publicitários do supermercado e deito no lixo. Todos os dias, todos os malditos dias…
Insistentemente.
70
À Beira-Mar
Faltaste tu naquele dia. E cresceu em mim aquela angústia lugente, De quem guarda nas mãos, Suave e fria, Uma triste memória ainda quente, De quem fomos noutro dia. E todos os rostos que passaram por mim, Ah...! Quem me dera não lembrar, Cada traço definido que percorri, Sim! Todos eles foram de encontro a mim, Tenho a certeza, Foram de encontro a mim para me recordar de ti. Naquele dia em que faltaste, Não houve sol e nenhum vento, Só o grito asfixiado do lamento, Perdido por entre a chuva e a gente.
72
...
Há gavetas que não se devem abrir. Melhor que se guarde o passado, No armário do fundo, bem arrumado. Porque é impossível ver o presente, Continuar ou seguir em frente, Teimando em viver a olhar para trás.
73
Não contes a ninguém
Não contes a ninguém que me viste… Que ninguém saiba que andei sozinha na rua, de garrafa em punho e de alma vazia. Não contes a ninguém que andei de gatas no meio da avenida. Perdida, sem norte, sem fé e nem um pouco de pudor. Já nenhuma timidez sobra para as minhas vergonhas. Que não há maior desonra do que lamber botas e desse mal não padeço. Não contes a ninguém que rebolei e dancei na lama. Que pensem que me arrastei ou fui arrastada. Que especulem como sempre fazem. Porque esses que falam são os únicos que não granjeiam boa fama. Não contes a ninguém que me viste voar. Ninguém acreditaria. E é demais… que só a uma mente limpa concedo esse benefício. Porque a vida é um sono para tanta gente. Não contes a ninguém que eu nunca adormeço. Porque eu sonho, desejo e abro as asas do pensamento e da imaginação. Não contes a ninguém que tenho a fraqueza da tua inveja. Irão dizer que sou como eles e não é verdade. Porque a única inveja que tenho de ti é de teres uma pessoa que te quer. E como eu queria que essa pessoa gostasse de mim como gosta de ti. Mas, dessa pessoa ninguém sabe… Porque não contaste a niguém que te amo sempre. Basta-me que tu saibas e de outro testemunho não preciso. Por isso, não digas a ninguém que deixei de escrever... Não quero mais provas e o delírio já é bastante!
101
De perto, ao longe
O fim ali tão perto. Espelhado no sol daquela manhã. O teu corpo inundado pelo frio impiedoso. O regresso visto assim de longe. Apagas ao de leve as histórias delineadas. Escrevo pelo corpo à tua alma. Só depois, reinvento-te hoje. As feridas afogadas na garrafa terminada. O lado claro da tua pele curada. Fazem sentido palavras de vontade encharcadas. Por perto, o tempo abranda nesta volta, vinda de longe. O que dizes aproxima-se, depois. Aqui, de perto, o fim acena ao longe.