Escrever-te, para quê? Se tanto te falei e tu não ouviste. Se sempre te amei mais do que pediste. Escrever-te, para quê? É melhor que te esqueça, Que fale só a quem mereça, Uma palavra, um beijo, um sorriso. Há, decerto, quem queira tudo isto, Procure um afecto, de amor precise. Escrever-te, para quê? Se o que mais amei, E com loucura, sempre te disse, Foi somente, aquilo que fingiste!
92
Diz-me!
Diz-me amigo, Que mal te fez o mundo. Que te pôs cego, moribundo. Diz-me amigo, diz-me já! Eu acabo com ele, Com o mal que o imbecil te faz. Mais do que isso, apesar do cansaço, Ah mundo que te desfaço! E acredita, amigo, Eu sou capaz. Por ti, ponho-lhe um fim. Oh amigo, diz-me lá, Uma só palavra basta. Amigo, Eu mato esse vagabundo, Eu acabo com a desgraça!
90
Dor
Eu queria escrever mas não consigo. Porque é maior do que eu, Esta dor profunda que trago comigo, Este inferno que é só meu… Paralisa-me as mãos e os sentidos. Demência? Pois, talvez! Mas que se calem os condoídos, Os que me pedem para sonhar, Pois toda a vez que oiço: - Calma, tudo vai passar! Com clemência, É quando sinto já ter morrido!
73
O Abismo de Ti
De todas as viagens que fiz, Em que fui, por entre todas, A mulher mais triste e mais infeliz, A tua amiga mais desgraçada. De todas as viagens que fiz, Tão perdida, meu amor, Sempre tão abandonada. É a minha boca que em versos diz, Ah, foi essa a melhor! De todas as viagens que fiz, Oh meu amor! Apesar da dor, Aquela que recordarei até à morte, Quando de mim me esqueci, E me deixei levar à sorte, Pelo mistério do teu corpo, O eterno abismo que subi.
74
Espera
Nesta sala fechada, A luz é defunta, é negra, é pesada. Olho pela janela e não encontro nada, Lá fora toda a vida morreu. E eu toda a vida inquieta, Sou agora, como a rua deserta, Leve rumor do que aconteceu. Das noites o sabor, De ti uma sede infinda. Do passado, confesso, Um delírio, triste saudade ainda. E assim, à janela sozinha, Espero a noite, o alvor, a tua chegada. Por favor, Tem dó da alma atormentada, Desta mulher apaixonada, Pedindo só que a visites, Quando chegar a madrugada!
95
!
Toda a dúvida é uma vontade suspensa!
67
Ele
Hoje, quando acordei, ele disse: - Escreve-me um poema, Raquel! E eu fiquei parada, Assim, como um rio que adormece, Uma água estagnada. Pois, tão cega, já não sabia, Se poesia era ele quem me falava, Os olhos e os gestos, Ah, e tudo o que ele fazia! Ou se era, afinal, em cada palavra, O poema mais profundo, Que eu lhe escrevia.
84
Cartas
Escrevo cartas de amor na real certeza do erro. De dentro como o desejo manda. Escuras, assim a verdade molda. Escritas ontem. Não me parecem sentidas hoje. Paixão arrependida do arrebatar fácil. Tarefa parva da alma sozinha. Ouve o piano numa melodia sombria. A tela, em nódoas, de cinza e árido pintada.
70
Lembrar
Nada passa por mim, Tudo fica, O que vejo, o que toco. Porque o que passa, não se abraça, E se não fica, não teve graça. Em mim, tudo fica... Que o melhor da vida é não esquecer. Assim, como se enganasse a morte, Como se prolongasse um sentimento que escorre, Como se a vida não tivesse fim.
68
As Tuas Cartas
Quando me escreves, Todo o chão treme sob os pés. Não te respondo. Gastar palavras, para quê? São todas demais para quem tu és! Vejo que te trais todos os dias. E dos teus caminhos, nada sei. Ouve, eu nunca vi flores onde tu as vias! E enquanto corrias pelos montes e vales. Toda a vontade perdida em mim arrefeceu e secou!