Raquel Mesquita

Raquel Mesquita

n. 1985 PT PT

n. 1985-03-21, Matosinhos

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Destino

Descalça, sigo adiante, pela estrada da loucura que me atrai.
É este o inevitável destino de quem na vida sempre cai!


Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
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Poemas

92

Escrever-te, Para Quê?

Escrever-te, para quê?
Se tanto te falei e tu não ouviste.
Se sempre te amei mais do que pediste.
Escrever-te, para quê?
É melhor que te esqueça,
Que fale só a quem mereça,
Uma palavra, um beijo, um sorriso.
Há, decerto, quem queira tudo isto,
Procure um afecto, de amor precise.
Escrever-te, para quê?
Se o que mais amei,
E com loucura, sempre te disse,
Foi somente, aquilo que fingiste!
92

Diz-me!

Diz-me amigo,
Que mal te fez o mundo.
Que te pôs cego, moribundo.
Diz-me amigo, diz-me já!
Eu acabo com ele, 
Com o mal que o imbecil te faz.
Mais do que isso, apesar do cansaço,
Ah mundo que te desfaço!
E acredita, amigo,
Eu sou capaz.
Por ti, ponho-lhe um fim.
Oh amigo, diz-me lá,
Uma só palavra basta.
Amigo,
Eu mato esse vagabundo,
Eu acabo com a desgraça!
90

Dor

Eu queria escrever mas não consigo.
Porque é maior do que eu,
Esta dor profunda que trago comigo,
Este inferno que é só meu…
Paralisa-me as mãos e os sentidos.
Demência? Pois, talvez!
Mas que se calem os condoídos,
Os que me pedem para sonhar,
Pois toda a vez que oiço:
- Calma, tudo vai passar!
Com clemência,
É quando sinto já ter morrido!
73

O Abismo de Ti

De todas as viagens que fiz,
Em que fui, por entre todas,
A mulher mais triste e mais infeliz,
A tua amiga mais desgraçada.
De todas as viagens que fiz,
Tão perdida, meu amor,
Sempre tão abandonada.
É a minha boca que em versos diz,
Ah, foi essa a melhor!
De todas as viagens que fiz,
Oh meu amor! Apesar da dor,
Aquela que recordarei até à morte,
Quando de mim me esqueci,
E me deixei levar à sorte,
Pelo mistério do teu corpo,
O eterno abismo que subi.
74

Espera

Nesta sala fechada,
A luz é defunta, é negra, é pesada.
Olho pela janela e não encontro nada,
Lá fora toda a vida morreu.
E eu toda a vida inquieta,
Sou agora, como a rua deserta,
Leve rumor do que aconteceu.
Das noites o sabor,
De ti uma sede infinda.
Do passado, confesso,
Um delírio, triste saudade ainda.
E assim, à janela sozinha,
Espero a noite, o alvor, a tua chegada.
Por favor, 
Tem dó da alma atormentada,
Desta mulher apaixonada,
Pedindo só que a visites,
Quando chegar a madrugada!
95

!

Toda a dúvida é uma vontade suspensa!
67

Ele

Hoje, quando acordei, ele disse:
- Escreve-me um poema, Raquel!
E eu fiquei parada,
Assim, como um rio que adormece,
Uma água estagnada.
Pois, tão cega, já não sabia,
Se poesia era ele quem me falava,
Os olhos e os gestos,
Ah, e tudo o que ele fazia!
Ou se era, afinal, em cada palavra, 
O poema mais profundo,
Que eu lhe escrevia.
84

Cartas

Escrevo cartas de amor na real certeza do erro.
De dentro como o desejo manda.
Escuras, assim a verdade molda.
Escritas ontem.
Não me parecem sentidas hoje.
Paixão arrependida do arrebatar fácil.
Tarefa parva da alma sozinha.
Ouve o piano numa melodia sombria.
A tela, em nódoas, de cinza e árido pintada.
70

Lembrar

Nada passa por mim,
Tudo fica,
O que vejo, o que toco.
Porque o que passa, não se abraça,
E se não fica, não teve graça.
Em mim, tudo fica...
Que o melhor da vida é não esquecer.
Assim, como se enganasse a morte,
Como se prolongasse um sentimento que escorre,
Como se a vida não tivesse fim.
68

As Tuas Cartas

Quando me escreves, 
Todo o chão treme sob os pés.
Não te respondo.
Gastar palavras, para quê?
São todas demais para quem tu és!
Vejo que te trais todos os dias.
E dos teus caminhos, nada sei.
Ouve, eu nunca vi flores onde tu as vias!
E enquanto corrias pelos montes e vales.
Toda a vontade perdida em mim arrefeceu e secou!
90

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