Sento-me para te escrever, Perdida na chuva que corre. O whisky bem ali, pronto a beber, E na mão o cigarro que se acaba. Sento-me para te escrever, E não acontece nada. Porque, como a chuva constante, Que pelo vidro escorre, Sento-me para te escrever, Mas, como nós, Uma a uma, Toda a palavra morre.
90
Dor
Eu queria escrever mas não consigo. Porque é maior do que eu, Esta dor profunda que trago comigo, Este inferno que é só meu… Paralisa-me as mãos e os sentidos. Demência? Pois, talvez! Mas que se calem os condoídos, Os que me pedem para sonhar, Pois toda a vez que oiço: - Calma, tudo vai passar! Com clemência, É quando sinto já ter morrido!
72
Lembrar
Nada passa por mim, Tudo fica, O que vejo, o que toco. Porque o que passa, não se abraça, E se não fica, não teve graça. Em mim, tudo fica... Que o melhor da vida é não esquecer. Assim, como se enganasse a morte, Como se prolongasse um sentimento que escorre, Como se a vida não tivesse fim.
65
Saudades Nenhumas
Saudades tuas? Do tempo sem tempo, Na melodia de notas soltas. Saudades tuas? Das promessas na mentira envoltas. Meu amigo, eu bem tento, Mas saudades tuas? Sinceramente, Não tenho nenhumas!
81
...
Há gavetas que não se devem abrir. Melhor que se guarde o passado, No armário do fundo, bem arrumado. Porque é impossível ver o presente, Continuar ou seguir em frente, Teimando em viver a olhar para trás.
73
Bar
Quando te vi entrar no bar, Foi mais o susto por pensar - Triste homem ali vem! Do que o mais que te tenha amado. E olha que demais, como eu, Até hoje, Nunca mais te amou ninguém!
89
De Alma Só
Eu quis morrer, é verdade! Não de amor mas de saudade. De alma só, árida, amargurada, A pele sem cor, moribunda, toda eu gelada. Canto a tristeza, a desgraça, a má sorte. É na tua ausência que sempre, desejo a morte!
98
Ele
Hoje, quando acordei, ele disse: - Escreve-me um poema, Raquel! E eu fiquei parada, Assim, como um rio que adormece, Uma água estagnada. Pois, tão cega, já não sabia, Se poesia era ele quem me falava, Os olhos e os gestos, Ah, e tudo o que ele fazia! Ou se era, afinal, em cada palavra, O poema mais profundo, Que eu lhe escrevia.
80
Chuva
As pingas certas e sequenciais que caiem do andar de cima, Penso sempre que são lágrimas. É ridiculamente inevitável, penso assim. Imagino todas as lágrimas que me escorreram pelo rosto. Daquelas quentes e salgadas que, Como as gotas de chuva sempre certas e sequenciais, Pingam do queixo para o peito. Gosto do sabor das lágrimas, Antigamente não gostava. Quando vejo a chuva penso nisto, E em todas as lágrimas que deixei por chorar, Por cansaço, vergonha ou sei lá o quê. Vejo a chuva e penso assim, Tão ridiculamente patética, Agradeço por ela chorar por mim.
68
Espera
Nesta sala fechada, A luz é defunta, é negra, é pesada. Olho pela janela e não encontro nada, Lá fora toda a vida morreu. E eu toda a vida inquieta, Sou agora, como a rua deserta, Leve rumor do que aconteceu. Das noites o sabor, De ti uma sede infinda. Do passado, confesso, Um delírio, triste saudade ainda. E assim, à janela sozinha, Espero a noite, o alvor, a tua chegada. Por favor, Tem dó da alma atormentada, Desta mulher apaixonada, Pedindo só que a visites, Quando chegar a madrugada!