Raquel Mesquita

Raquel Mesquita

n. 1985 PT PT

n. 1985-03-21, Matosinhos

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Destino

Descalça, sigo adiante, pela estrada da loucura que me atrai.
É este o inevitável destino de quem na vida sempre cai!


Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
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Poemas

92

Em Branco

Vão-se as musas, vão-se os deuses.
Toda a inspiração parte em corrida impetuosa.
Paixão ou tristeza.
Constituição única do seu alento.
Vão-se as palavras, vão-se páginas em branco.
Ou se ama ou se deprime.
E eu, nem uma nem outra.
No sentir insosso do silêncio.
71

Carta aberta à baixeza de espírito

Oh baixeza, se é que me ouves, ouve com atenção!
Eu posso descer à lama, posso rastejar nela.
Mas nunca, ouve bem baixeza, nunca vou lamber botas!
Porque na vida há quem beije pés, e eu beijo tantos.
Mas lamber botas, nunca! Antes morta!
Perder-me em esquemas de importâncias vãs e sujas, nunca!
Sabes baixeza, na vida há quem se dê demasiada importância.
Importância que só existe nas suas cabeças.
Cabeças pequenas que alimentam o ego em compras e vendas de um poder que não têm, um poder poucochinho como o seu espírito minúsculo.
E a culpa é tua baixeza, a culpa é mesmo tua, sua parva!
Ouve baixeza, na memória ficam só os grandes, os que não se rebaixam ou se vergam com medo.
Na memória ficam os que lutam pela verdade, os que mesmo na lama mantêm a verticalidade.
Sabias baixeza?
Só que tu baixeza, reduzes as pessoas a uma espécie de plasticina tão maleável quanto os desejos pérfidos das mãos em que caem.
Pois, eu sei que não sabias…
E sabes baixeza, eu posso dançar na lama porque eu, mesmo na lama, tenho coluna vertebral, mantenho a palavra.
Minha cara baixeza, na vida há os que importam e os que se julgam importantes.
Porque, lembra-te baixeza, as pessoas mais vazias são as que vivem cheias de si.
E na vida, há quem arrote a si de tão cheio.
E tu baixeza, vives nestas pessoas.
Haja misericórdia às suas almas!
Oh baixeza, diz-me tu, estas pessoas têm sangue?!
Eu não sei… juro que não!

Mas, retém esta baixeza, quando não há laços, respeito, honra, dignidade e outras tantas qualidades que desconheces ou que matas…quando não as há, o sangue não basta!
85

Desabafo

Hoje falei com o espelho.
Sabias Inês,
Hoje falei com o espelho,
E depois, sentei-me a escrever.
É isto que tenho feito,
Neste lugar ermo e sepulcral.
Todos os dias, sem parar.
Para não enlouquecer,
Mas, sobretudo, para não pensar.
Tu sabes Inês,
Para não pensar em morrer.
89

Cartas

Escrevo cartas de amor na real certeza do erro.
De dentro como o desejo manda.
Escuras, assim a verdade molda.
Escritas ontem.
Não me parecem sentidas hoje.
Paixão arrependida do arrebatar fácil.
Tarefa parva da alma sozinha.
Ouve o piano numa melodia sombria.
A tela, em nódoas, de cinza e árido pintada.
66

Escrever-te, Para Quê?

Escrever-te, para quê?
Se tanto te falei e tu não ouviste.
Se sempre te amei mais do que pediste.
Escrever-te, para quê?
É melhor que te esqueça,
Que fale só a quem mereça,
Uma palavra, um beijo, um sorriso.
Há, decerto, quem queira tudo isto,
Procure um afecto, de amor precise.
Escrever-te, para quê?
Se o que mais amei,
E com loucura, sempre te disse,
Foi somente, aquilo que fingiste!
90

É Só Poesia

Escuta homem, nós somos as palavras,
Somos o escândalo, o desejo, o precipício.
Mas eu não posso amar-te, homem,
Nem tu a mim.
Eu sou loucura, tu és artíficio.
Viciados numa poesia sem fim. 
Mas o que fazemos está condenado.
Porque o amor,
O amor, meu caro poeta apaixonado,
O amor não se faz assim.
86

O Abismo de Ti

De todas as viagens que fiz,
Em que fui, por entre todas,
A mulher mais triste e mais infeliz,
A tua amiga mais desgraçada.
De todas as viagens que fiz,
Tão perdida, meu amor,
Sempre tão abandonada.
É a minha boca que em versos diz,
Ah, foi essa a melhor!
De todas as viagens que fiz,
Oh meu amor! Apesar da dor,
Aquela que recordarei até à morte,
Quando de mim me esqueci,
E me deixei levar à sorte,
Pelo mistério do teu corpo,
O eterno abismo que subi.
68

Bar

Quando te vi entrar no bar,
Foi mais o susto por pensar
- Triste homem ali vem!
Do que o mais que te tenha amado.
E olha que demais, como eu,
Até hoje,
Nunca mais te amou ninguém!
88

Chuva

As pingas certas e sequenciais que caiem do andar de cima,
Penso sempre que são lágrimas.
É ridiculamente inevitável, penso assim.
Imagino todas as lágrimas que me escorreram pelo rosto.
Daquelas quentes e salgadas que,
Como as gotas de chuva sempre certas e sequenciais,
Pingam do queixo para o peito.
Gosto do sabor das lágrimas,
Antigamente não gostava.
Quando vejo a chuva penso nisto,
E em todas as lágrimas que deixei por chorar,
Por cansaço, vergonha ou sei lá o quê.
Vejo a chuva e penso assim,
Tão ridiculamente patética,
Agradeço por ela chorar por mim.
64

De perto, ao longe

O fim ali tão perto.
Espelhado no sol daquela manhã.
O teu corpo inundado pelo frio impiedoso.
O regresso visto assim de longe.
Apagas ao de leve as histórias delineadas.
Escrevo pelo corpo à tua alma.
Só depois, reinvento-te hoje.
As feridas afogadas na garrafa terminada.
O lado claro da tua pele curada.
Fazem sentido palavras de vontade encharcadas.
Por perto, o tempo abranda nesta volta, vinda de longe.
O que dizes aproxima-se, depois.
Aqui, de perto, o fim acena ao longe.
56

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