Raquel Mesquita

Raquel Mesquita

n. 1985 PT PT

n. 1985-03-21, Matosinhos

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Destino

Descalça, sigo adiante, pela estrada da loucura que me atrai.
É este o inevitável destino de quem na vida sempre cai!


Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
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Poemas

92

De perto, ao longe

O fim ali tão perto.
Espelhado no sol daquela manhã.
O teu corpo inundado pelo frio impiedoso.
O regresso visto assim de longe.
Apagas ao de leve as histórias delineadas.
Escrevo pelo corpo à tua alma.
Só depois, reinvento-te hoje.
As feridas afogadas na garrafa terminada.
O lado claro da tua pele curada.
Fazem sentido palavras de vontade encharcadas.
Por perto, o tempo abranda nesta volta, vinda de longe.
O que dizes aproxima-se, depois.
Aqui, de perto, o fim acena ao longe.
63

Não Digas Nada

Peço-te que não digas nada,
Uma só palavra será demais.
Eu não quero saber do que viste,
A quem te deste, onde dormiste.
Os teus olhos nada me dizem,
Sombras e verdades que se fingem.
Porque eu, confesso triste,
Não perdoo jogos e habilidades,
Esses fracassos e fragilidades,
Refúgio de quem não sabe amar.
Que só almas fracas falam assim,
Falam do que vêem sem alcançar.
Eu não quero saber por onde andaste,
Até onde, com egoísmo, te levaste.
Porque eu, não quero essas mãos,
E longe de mim esse olhar.
Porque eu,
Não quero braços,
Que me toquem sem me abraçar.
Eu quero olhos por onde viaje,
E uma boca que me fale sem falar.
Por isso, escuta o que te peço:
- Não digas nada, segue!
93

À Beira-Mar

Faltaste tu naquele dia.
E cresceu em mim aquela angústia lugente,
De quem guarda nas mãos,
Suave e fria,
Uma triste memória ainda quente,
De quem fomos noutro dia.
E todos os rostos que passaram por mim,
Ah...! Quem me dera não lembrar,
Cada traço definido que percorri,
Sim! Todos eles foram de encontro a mim,
Tenho a certeza,
Foram de encontro a mim para me recordar de ti.
Naquele dia em que faltaste,
Não houve sol e nenhum vento,
Só o grito asfixiado do lamento,
Perdido por entre a chuva e a gente.
74

Estupidez

Se me achares, perde-me outra vez!
Que de tanto te encontrar,
De sempre fugir e te evitar,
Sou eu quem se perde quando te vê!
E juro que é perda de tempo.
É insano, imoral até.
Paixão? Não, estupidez!
88

É Só Poesia

Escuta homem, nós somos as palavras,
Somos o escândalo, o desejo, o precipício.
Mas eu não posso amar-te, homem,
Nem tu a mim.
Eu sou loucura, tu és artíficio.
Viciados numa poesia sem fim. 
Mas o que fazemos está condenado.
Porque o amor,
O amor, meu caro poeta apaixonado,
O amor não se faz assim.
92

Dez Minutos

De dez em dez minutos,
Há só um silêncio onde a tua voz se cala.
E, a cada minuto, aumenta a distância
Onde se perde a graça.
Porque de dez em dez minutos,
É, decerto, outra a voz que te fala,
E nesse compasso desisto e calo a ânsia.
Assim, de dez em dez minutos,
Percebo que,
Antes de tropeçar em ti,
Naquela esquina fria e gasta,
Melhor seria que tivesse caído em desgraça.
Porque a paixão é febre cega,
A rameira de veludo, da mentira, a entusiasta.
80

Em Branco

Vão-se as musas, vão-se os deuses.
Toda a inspiração parte em corrida impetuosa.
Paixão ou tristeza.
Constituição única do seu alento.
Vão-se as palavras, vão-se páginas em branco.
Ou se ama ou se deprime.
E eu, nem uma nem outra.
No sentir insosso do silêncio.
78

Não contes a ninguém

Não contes a ninguém que me viste…
Que ninguém saiba que andei sozinha na rua, de garrafa em punho e de alma vazia.
Não contes a ninguém que andei de gatas no meio da avenida.
Perdida, sem norte, sem fé e nem um pouco de pudor.
Já nenhuma timidez sobra para as minhas vergonhas.
Que não há maior desonra do que lamber botas e desse mal não padeço.
Não contes a ninguém que rebolei e dancei na lama.
Que pensem que me arrastei ou fui arrastada.
Que especulem como sempre fazem.
Porque esses que falam são os únicos que não granjeiam boa fama.
Não contes a ninguém que me viste voar.
Ninguém acreditaria.
E é demais… que só a uma mente limpa concedo esse benefício.
Porque a vida é um sono para tanta gente.
Não contes a ninguém que eu nunca adormeço.
Porque eu sonho, desejo e abro as asas do pensamento e da imaginação.
Não contes a ninguém que tenho a fraqueza da tua inveja.
Irão dizer que sou como eles e não é verdade.
Porque a única inveja que tenho de ti é de teres uma pessoa que te quer.
E como eu queria que essa pessoa gostasse de mim como gosta de ti.
Mas, dessa pessoa ninguém sabe…
Porque não contaste a niguém que te amo sempre.
Basta-me que tu saibas e de outro testemunho não preciso.
Por isso, não digas a ninguém que deixei de escrever...
Não quero mais provas e o delírio já é bastante!
105

...

Há gavetas que não se devem abrir.
Melhor que se guarde o passado,
No armário do fundo, bem arrumado.
Porque é impossível ver o presente,
Continuar ou seguir em frente,
Teimando em viver a olhar para trás.
76

Desabafo

Hoje falei com o espelho.
Sabias Inês,
Hoje falei com o espelho,
E depois, sentei-me a escrever.
É isto que tenho feito,
Neste lugar ermo e sepulcral.
Todos os dias, sem parar.
Para não enlouquecer,
Mas, sobretudo, para não pensar.
Tu sabes Inês,
Para não pensar em morrer.
96

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