Lista de Poemas

Diz-me!

Diz-me amigo,
Que mal te fez o mundo.
Que te pôs cego, moribundo.
Diz-me amigo, diz-me já!
Eu acabo com ele, 
Com o mal que o imbecil te faz.
Mais do que isso, apesar do cansaço,
Ah mundo que te desfaço!
E acredita, amigo,
Eu sou capaz.
Por ti, ponho-lhe um fim.
Oh amigo, diz-me lá,
Uma só palavra basta.
Amigo,
Eu mato esse vagabundo,
Eu acabo com a desgraça!
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Ele

Hoje, quando acordei, ele disse:
- Escreve-me um poema, Raquel!
E eu fiquei parada,
Assim, como um rio que adormece,
Uma água estagnada.
Pois, tão cega, já não sabia,
Se poesia era ele quem me falava,
Os olhos e os gestos,
Ah, e tudo o que ele fazia!
Ou se era, afinal, em cada palavra, 
O poema mais profundo,
Que eu lhe escrevia.
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As Tuas Cartas

Quando me escreves, 
Todo o chão treme sob os pés.
Não te respondo.
Gastar palavras, para quê?
São todas demais para quem tu és!
Vejo que te trais todos os dias.
E dos teus caminhos, nada sei.
Ouve, eu nunca vi flores onde tu as vias!
E enquanto corrias pelos montes e vales.
Toda a vontade perdida em mim arrefeceu e secou!
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Enlouquecida

A primeira palavra é o que me custa.
Depois disso todo o texto corre.
E, como ele,
Tudo o que se esconde em mim,
Pelas páginas abertas escorre,
Em chamas,
Do princípio ao fim.
Numa cadência sedenta de gritar,
Abrem-se mundos, correm astros.
E confesso, pela fantasia,
Posso voar ou andar de rastros.
Tão cega, decerto, já tão enlouquecida.
Escrevo sempre a mesma coisa,
É sempre mesma história já tão lida.
O mesmo papel que não tem graça.
Mas a fúria não passa,
Escreva isto e mais aquilo,
Faça eu o que quer que faça.
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Demais

Meu amor,
Se eu te falasse do que vejo,
E de tudo quanto almejo.
Se eu te falasse daquele beijo,
Esse desar que desminto,
Ou te contasse sobre a noite,
Te confessasse o que sinto.
Ah, se te contasse isso tudo!
Assim, sem medo e nenhum pejo.
Juro-te que não minto,
Tu não acreditavas, meu amor.
E o mundo, de espanto agudo,
Ah, o mundo,
Ao saber disso tudo,
O mundo ficava mudo!
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Desejo

Amor,
Eu sou tão louca,
Que às vezes julgo ver,
O mar na tua boca.
Oh amor, o desejo,
De prender os teus braços,
Como dois laços,
Na minha cintura ou no meu peito.
E acredita, amor,
Ninguém te vê como eu te vejo.
Nem há no mundo outros olhos,
Tão brilhantes só de olhar-te,
Mãos que ardem de tocar-te,
Como astros num lampejo.
Outra boca,
Outro fogo que se alastre,
Pelo meu corpo, quando te beijo.
Oh amor, amor,
Se isto não é loucura,
Diz-me então, amor,
O que será!
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Depois Do Fim

Lá fora, a chuva cai grave e pesada.
Um dia, seja eu também uma gota.
Uma graça lembrada,
Nessa face em que escorra.
Afinal,
No fim somos apenas,
A lágrima acendendo a lembrança,
Para que nos corações não se morra.
Sim, essa saudade infinda.
Porque depois do fim,
Como as gotas da chuva,
Sim, depois do fim,
Somos tanta vida ainda.
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Não Importa

É verdade que eu nunca te escrevi.
E se tantas vezes tentei,
Nunca te disse nada do que senti.
- Oh homem como te amei!
E agora esta vontade louca de o gritar,
Mas o que importa isso agora,
Se não tenho forças para te abraçar,
Tudo acabou e já foste embora.
Oh meu amor,
O que para nós tinha sonhado,
É agora ruído, mera dor.
E ainda que tivesse falado,
Ao ver-te ao longe, tão distante,
Tenho a certeza,
Que por muito que tivesse dito,
Digo agora com tristeza,
Nunca teria sido bastante.
Ah amor, eu repito,
Se em poemas não te soube amar,
Não será com palavras que te vou odiar.
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Virei As Costas

De tanto te querer, andei perdida.
Achei-me só, de alma gasta,
Numa alegria demasiado vazia.
Pois enquanto o mundo corria,
A vida por mim passava,
Passava e eu não a via.
Meus olhos cegos de te ver,
Eu tão cansada de esperar,
Uma vontade de correr,
Cruzar a rua e te abraçar.
Mas um dia,
Sem ter mais o que perder,
Que perdida andava eu.
E sem saber o que me deu,
Nesse dia, disse basta.
E a sorrir, dobrei a esquina,
Disse-te adeus em surdina,
E virei as costas à desgraça!
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Bar

Quando te vi entrar no bar,
Foi mais o susto por pensar
- Triste homem ali vem!
Do que o mais que te tenha amado.
E olha que demais, como eu,
Até hoje,
Nunca mais te amou ninguém!
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Ania
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