Que não me lembro, É o que respondo quando me perguntam por ti. Que não te amo e que já esqueci. Digo como se esfaqueasse o passado. É a máscara de um coração maltratado. Que não te conheço, É a resposta pronta quando não me desvio e passo por ti. Nada há de mentira aí, Pois não posso conhecer alguém que fugiu de si. Nesta montra que é a vida, fizeste a escolha errada. Não vendo a dignidade, nem vivo de vida comprada. Que não me interessa e nem quero saber, Responderei se me disserem que já não andas, Rastejas na lama sem coluna vertebral. Ah…isso já não me espanta! O verme sempre volta à sua mole condição natural… Ao verme o sujo, que é seu por direito!
17
A folha caiu e o gato miou
A folha caiu e o gato miou. As palavras espalharam-se no chão. Partidas, sujas, bastardas. Inúteis quando não passam de encenação. Como inútil é todo o castigo. Basta a penitência de não teres perdão. A folha caiu e o gato miou. Ficaram as mentiras em cacos e tu em solidão.
19
O Inútil
O útil é cansativo. É por isso que o inútil me dá prazer. Dá-me prazer procurar alguma realidade no vazio. Porque o oco tem conteúdo, ainda que vão. Há sempre qualquer coisa, mesmo no mais superficial. É a lógica das laranjas quando se espremem. Muito ou pouco, dão sumo. É como as pessoas… Gosto de explorar o que é plástico. Porque é inútil, porque me é novo. Porque tanto faz, porque não importa. Porque nunca espero que acrescente. Há paz em nada esperar. Nunca espero nada do que não me tem utilidade, Porquanto não me cansa, e isso é um prazer.
16
Quando me dizes ao ouvido...
Quando me dizes ao ouvido, com toda a calma, que me amas. Sinto como se estivesses, com toda pressa, a gritá-lo ao mundo em jeito de confissão. Gosto que me digam - sou teu! Gosto que me peçam para dizer - sou tua! É bonito este sentimento de entrega que se mistura com a importância de podermos possuir alguém. Mas é mentira. Quem ama não tem. Quem ama cuida só de amar. Se fosses meu, se eu fosse tua, nada restaria para amarmos um no outro. Quem possui não ama porque a posse mata o amor. Quando me dizes ao ouvido que ninguém te teve como eu te tenho, é como se acreditasse que somos um do outro. É como se nos esgotássemos um no outro, nos fundíssemos num só. E é quando desejo ser tua, sem o ser de verdade. É quando te digo baixinho ao ouvido que sou tua, numa declaração de impossibilidade sonhada.
19
Em Branco
Vão-se as musas, vão-se os deuses. Toda a inspiração parte em corrida impetuosa. Paixão ou tristeza. Constituição única do seu alento. Vão-se as palavras, vão-se páginas em branco. Ou se ama ou se deprime. E eu, nem uma nem outra. No sentir insosso do silêncio.
71
Para a minha Irmã
É um amor maior. É um amor que não controlo. Como maior é o medo da perda. E é sempre com angústia que te vejo partir. Toda a ausência é dolorosa. É um amor sempre ali. É um amor adquirido. É um amor mais do que necessário. Um amor que poucos percebem. Tão poucos alcançam o que nos une. É um amor que dispensa palavras. É um amor preocupado. É um amor felino. Daqueles que nos escudam. Eu luto à tua frente em qualquer batalha. E tu proteges-me sempre. É um amor espelho. Conheces em mim os recantos que ninguém sabe. E eu sei todos os esconderijos da tua alma. É um amor de sangue, de carne, de pele, de coração. É um amor do início. Como o ar da minha razão de ser. Dói quando não estás. Toda a distância me rasga. E é por isso que peço que o meu fim seja o primeiro. Porque sem ti não passo de nada. Não há explicação… Este amor é um abraço que transcende a vida, a morte e todo o espaço.
76
Fome
Não, não tive fome de paz. Sede de eternindade ou de luar. Apenas uma vontade de ficar aqui e ali. Perto do mar, o vento a beijar-me a pele. Sentir o desejo nas veias como um veneno. Paixão a pulsar. E no fim de toda a espera, Ver-te, ao longe, a chegar. Nunca tive fome senão de ti. De perder-me nas correntes, de mergulhar. Troçando da solidão, saltar dos abismos. Ser livre nos pensamentos e ser capaz de voar.
26
O que não fui
Deram-me a possibilidade de ser o que não fui. Tudo o que quis foi perder-me por entre tempestades. Subir todos os montes e abraçar liberdades. E assim, presa a quem sempre fui, não agarrei o que sonharam para mim. Perseguindo os abismos da saudade do que nunca existiu. Aqui e agora, onde me encontro a viver da única maneira que me sei ser. E pouco a pouco, o que não fui vai ficando para trás.
17
A vida inteira
Fome nas mãos. Ternura na boca. Um olhar de súplica. Um beijo que demora. Um amor acorda. E uma vida inteira à porta.
19
Não Sei
"Oh triste, porque choras?" Perguntas naquele tom de quem tem pena de mim, Como se eu não tivesse o direito de sofrer assim. E perguntaste-me que tristeza é esta, E eu só sei, nas lágrimas mergulhada, Que, em mim, a dor faz uma festa, E eu nem sequer fui sua convidada. Tomara eu ter uma palavra ou um qualquer sonho desfeito, Para te responder, E justificar o eterno calvário que tenho feito. Mas eu não sei, oh céus! Que se eu soubesse porque choro, Todos os convidados seriam meus, Na melhor festa deste corpo onde, Já não vivo, apenas moro.