Eu quis morrer, é verdade! Não de amor mas de saudade. De alma só, árida, amargurada, A pele sem cor, moribunda, toda eu gelada. Canto a tristeza, a desgraça, a má sorte. É na tua ausência que sempre, desejo a morte!
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As Tuas Cartas
Quando me escreves, Todo o chão treme sob os pés. Não te respondo. Gastar palavras, para quê? São todas demais para quem tu és! Vejo que te trais todos os dias. E dos teus caminhos, nada sei. Ouve, eu nunca vi flores onde tu as vias! E enquanto corrias pelos montes e vales. Toda a vontade perdida em mim arrefeceu e secou!
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Estupidez
Se me achares, perde-me outra vez! Que de tanto te encontrar, De sempre fugir e te evitar, Sou eu quem se perde quando te vê! E juro que é perda de tempo. É insano, imoral até. Paixão? Não, estupidez!
84
É Só Poesia
Escuta homem, nós somos as palavras, Somos o escândalo, o desejo, o precipício. Mas eu não posso amar-te, homem, Nem tu a mim. Eu sou loucura, tu és artíficio. Viciados numa poesia sem fim. Mas o que fazemos está condenado. Porque o amor, O amor, meu caro poeta apaixonado, O amor não se faz assim.
86
Demais
Meu amor, Se eu te falasse do que vejo, E de tudo quanto almejo. Se eu te falasse daquele beijo, Esse desar que desminto, Ou te contasse sobre a noite, Te confessasse o que sinto. Ah, se te contasse isso tudo! Assim, sem medo e nenhum pejo. Juro-te que não minto, Tu não acreditavas, meu amor. E o mundo, de espanto agudo, Ah, o mundo, Ao saber disso tudo, O mundo ficava mudo!
77
Escrever-te, Para Quê?
Escrever-te, para quê? Se tanto te falei e tu não ouviste. Se sempre te amei mais do que pediste. Escrever-te, para quê? É melhor que te esqueça, Que fale só a quem mereça, Uma palavra, um beijo, um sorriso. Há, decerto, quem queira tudo isto, Procure um afecto, de amor precise. Escrever-te, para quê? Se o que mais amei, E com loucura, sempre te disse, Foi somente, aquilo que fingiste!
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Espera
Nesta sala fechada, A luz é defunta, é negra, é pesada. Olho pela janela e não encontro nada, Lá fora toda a vida morreu. E eu toda a vida inquieta, Sou agora, como a rua deserta, Leve rumor do que aconteceu. Das noites o sabor, De ti uma sede infinda. Do passado, confesso, Um delírio, triste saudade ainda. E assim, à janela sozinha, Espero a noite, o alvor, a tua chegada. Por favor, Tem dó da alma atormentada, Desta mulher apaixonada, Pedindo só que a visites, Quando chegar a madrugada!
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Desabafo
Hoje falei com o espelho. Sabias Inês, Hoje falei com o espelho, E depois, sentei-me a escrever. É isto que tenho feito, Neste lugar ermo e sepulcral. Todos os dias, sem parar. Para não enlouquecer, Mas, sobretudo, para não pensar. Tu sabes Inês, Para não pensar em morrer.
89
Diz-me!
Diz-me amigo, Que mal te fez o mundo. Que te pôs cego, moribundo. Diz-me amigo, diz-me já! Eu acabo com ele, Com o mal que o imbecil te faz. Mais do que isso, apesar do cansaço, Ah mundo que te desfaço! E acredita, amigo, Eu sou capaz. Por ti, ponho-lhe um fim. Oh amigo, diz-me lá, Uma só palavra basta. Amigo, Eu mato esse vagabundo, Eu acabo com a desgraça!
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Bar
Quando te vi entrar no bar, Foi mais o susto por pensar - Triste homem ali vem! Do que o mais que te tenha amado. E olha que demais, como eu, Até hoje, Nunca mais te amou ninguém!