Olhar para o céu é como uma oração. Aprender sobre plantas medicinais é o que herdo de minha mãe. A solidão é um abraço com Deus e o partilhar de sentimentos com alguém é um abraço com o próximo. A escolha é nossa liberdade e a prisão é estar vazio. Acreditar na eternidade é o verdadeiro preenchimento. Ser humilde e se reconhecer como pó é para os que verdadeiramente evoluíram.
Lista de Poemas
memória
Uma flor surge, mas com o tempo o vento a derruba.
Um olhar se faz, e a flor cai.
Tudo o que sobressai, se desfaz.
O que é belo, o que faz bem, sempre se esvai.
Só se salva em retrato, em escrito, melodia e memória.
E lá fica. Nunca se esvai.
vida e morte
Em um ônibus em movimento, eu tentava voltar pra casa. Enquanto me aproximava do ponto, luzes vermelhas refletiam, e havia um amontoado de pessoas.
Meu corpo cansado, a mente pesando. Mais à frente, vi um homem estirado, com sua vida escorrendo sobre o asfalto.
E tudo em mim ficou mais pesado. Percebi minha vida dentro, e a dele fora, um semblante triste, aquele que a morte exibe.
Meu destino continuou, e o dele, não. E foi isso o meu pesar. Foi isso a minha dor. Perceber que meu corpo seguia em frente, enquanto o dele estava ali, exposto para todos verem: jogado, assustado, machucado, sem poder viver, sem poder voltar pra casa.
banho de chuva
Hoje pela manhã, a chuva veio inesperadamente. As pessoas se protegiam com seus guarda-chuvas, enquanto outras buscavam abrigo, esperando ela passar para seguir seus destinos. Eu, como todos ali, fiz o mesmo.
A chuva caía, o céu estava nublado, o tempo ameno. Meus olhos fixaram-se em uma poça d'água, onde os pingos da chuva desenhavam círculos e folhas secas eram levadas pelo pequeno córrego que se formava no asfalto.
Meu corpo estava parado, tentando evitar os respingos debaixo de uma árvore, mas não adiantava. Os pingos da chuva me encontravam, enquanto minha atenção se voltava para as gotas que caíam do alto.
Sou sensível a tantas coisas nessa vida, e percebi que me proteger da chuva não faria diferença. Eu queria sentir a chuva, deixar as gotas geladas tocarem meu rosto, meu cabelo e meu corpo. Não me importei em adoecer. Era água vinda do céu, um presente.
Naquele momento, enquanto seguia meu caminho pela chuva, senti-me leve e grata. Como se, ao tomar banho na chuva, nossos problemas e defeitos fossem levados junto com aquelas folhas secas pelo córrego.
É pertencer à natureza e senti-la em sua forma mais pura. É perceber que Deus ainda não desistiu de nós. Pois onde há água, há vida. E onde há vida, há esperança para limparmos nossos erros.
paixão
Achei que fosse débil o meu amor por ti. Pensei que fosses igual a mim, porém, me enganei. Quantas noites estive a chorar, escrevendo poemas para ti, ceticamente, mas apaixonada. Não era fraco; era forte como cada lágrima caída, achando que jamais seria correspondida. Eu queimei aquelas palavras, as queimei na solidão do meu quarto. Pensei que aquele sentimento seria queimado também, mas não: ele sobrevive ardentemente. Eu ainda te amo profundamente e queria o mesmo de ti, pois o amor não virou cinzas; ele permanece queimando dentro de mim.
transtorno
Quantas dores ainda hei de sentir,
quantas lágrimas terei de derramar,
até que este solo descompassado torne-se pó?
Desritmado,
sem filtro,
sem vigor,
coração introspectivo,
falas sufocadas,
passos rastejantes.
De um sorriso impostor,
em pleno último século caótico,
que caminha velozmente para o fim,
ainda hei de sobreviver! Sobreviver! Sobreviver!
E ver: ver o mundo dissolver, o amor declinar, a vida tornar-se raridade, o mar: caçamba de lixo.
No que piso, no que danço, no que habito, serão terra e mar extintos.
Único corpo a chorar, não será mais visto pelos amantes de seu brilho.
Jorrará apenas lava, no eterno labirinto dos tubos tingidos.
A gênese é datada, no meio nos ferimos, e no fim? Não existimos.
onde se acham esses sonhos
brincando de esconde esconde dentro de um coração de criança
ainda não achei minhas bonecas e patins
tampouco os parques e passeios de bicicleta
os aniversários com doces e bolos
onde se acham esses sonhos
quando se é adulto criança?
(A-ha - Stay On These Roads)
automático
estou sendo 1% de mim desde o início do ano. não avanço, mesmo sentando e tentando ler, estou secando. isso não é tentar. isso é se perder no tempo mesmo sem tempo contando os numeros do relogio na tela do celular como se o tempo fosse me matar, como os livros e as palavras não lidas e não expressas. eu tenho uma semana para envelhecer e ainda não lancei um livro de poemas, não construi uma casa na árvore e nem entreguei a minha última carta, ainda não joguei com meu companheiro de vida bexigas cheias de água e tampouco subi a árvore para compor uma canção nem mesmo dedilhei um violão e não pulei na água mesmo estando abaixo do pescoço eu sorri apenas e depois fiquei séria. é só isso que sei fazer: ser séria e fingir ser feliz em meio a tanta desorganização de vida sem tostão e sem rota concreta de beijo, amor e suor, de sonho e estabilidade de mente e de alma. está tudo empoeirado, livros espalhados, retratos dentro das páginas perdidas no tempo contendo magia de anos atrás quando fui criança e feliz quando tinha nada e ao mesmo tempo tinha tudo e hoje nada tenho só tenho um nada enorme desenhado na minha memória, nas paredes, na mão de uma corda. há tempos não escrevo uma história senão poemas livres de doenças sentimentais e resquícios de tanta gente que desgraçou meu eu e de tantos eus malfeitos e mal escritos dentro do meu coração discreto incoerente e poroso. poroso feito corpo de ator prestes a enraizar os pés no solo e erguer os braços na inquietude e desejo de alcançar o céu e a presença mística quase impossível de um intérprete bicho corpo não doido mas todo, ser todo no espaço tempo em outro mundo, outro mundo tão desejado e distante. reparo em mim e nos outros de corpo e tenho visto tudo embaçado manchado preto porque minha visão não serve mais para mim quanto menos pra você é por isso que sem poder enxergar o mundo me apaixono desfocado e assim prosseguem essas doenças malditas quase raras de se acontecer e me desfoco e vejo o outro desfocado mas tudo em meu peito é tão nítido, calado, forte e gripado, rouco e exausto. parado e sem teto sem vez uma mão única e estupidamente gelada sem graça só fervura de teclados e jogos antigos de jogo dramático do pierre encostando no meu garfo e nos teclados de uma semana quente quente e infernal de dores e de sangue sangue sangue sou estudante com útero dilacerante e de sinal fechado para eu mesma e para quem não obedece minhas regras dentro de um carro dando marcha e acelerando até chegar na esquina de uma rua para comprar todos os ingressos de uma peça de um escritor defunto aclamado e imortal de um roteiro estupidamente horrível de romântico com amor e morte e ode é uma confusão ostentar amor na arte sem ter visto e sentido um de perto mas atriz ator é ser isso e tudo um tico de jogador e mal jogador sem ter aprendido as regras e ainda assim ter se jogado no calor de uma cena de ser um piloto uma máquina e um objeto. de se misturar e escrever tudo sem ver sem pensar e ser rápido como vento de corrida no rosto as quintas eu não sei você mas isso não é viver, viver é ser pintura emoldurada na parede para todos ver e ali, nunca nunca nunca tu vais morrer pelo contrário vai eternamente viver dentro de um outubro no quarto enquanto pessoas te rodeiam e te observam feitos moscas famintas a procura de qualquer coisa para saborear e viver mesmo sendo péssimo ainda vao te rodear e falar e falar ou se tocar por tudo o que foi dentro daquele quadro velho e eterno restaurado centenário quadrado e intocável
intocável.
libriana (o)
peso a mim e a todos em meus dois lados
quem fala e quem silencia
quem esconde e paga
eu meço os dizeres do passado
do presente e do futuro
e nunca chego a um veredicto
tudo pesa igualmente
de um lado eu sorrio
e do outro eu choro
eu apenas não sei ter duas metades
de um lado a mentira e do outro a verdade
Comentários (1)
Oi