Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Vizinho ilustre


Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

64

Frases

Se o amor de mãe é incondicional, como explicar tantas mães que maltratam, abandonam, matam seus filhos, bebês ou já crescidos, em troca não do amor, mas da satisfação sexual que os homens lhes proporcionam?
-
Jamais poderemos estar perto de quem amamos, enquanto nos ausentarmos de nós mesmos
-
Consciente do seu tamanho, o meu coração dividiu-se em bilhões de partes, em pequeninos corações e foi descortinar o mundo, adentrar os peitos vazios de sentimentos
-
No comboio da vida, a juventude é passageira e o tempo cobrador.
-
O erro quando involuntário é natural e tentar reparar, se desculpar e evitar repeti-lo é humano; mas é desalentador ver pessoas  altamente instruídas insistirem repetidamente nos mesmos erros, sentindo prazer nisto, porque lhes é favorável, serem aplaudidas e não sofrerem qualquer punição
-
A vida passa do meu lado e não me vê
-
Meu pai foi um grande pensador, só não sabia escrever
-
Assim como as vitórias nos dão confiança para prosseguir, as derrotas nos preparam para os mistérios de cada amanhã
-
Só depois que a fonte seca se descobre o valor que a água tem; no jardim do amor que é mal cuidado as flores secam também
-
Depois que passei a vida melhorou; a minha não sei, mas a de quem ficou.
-
Quem vive mendigando carinho recebe -como doação- falsos afetos disfarçados em meios abraços
-

658

Cara de pau

            Hoje tirei o dia para pensar.
            Pensar nas coisas que tenho para consertar,
            os meus dentes, os dentes dos lá de casa,
            os meus calos, aquele sapato furado (único que tenho)
            a camisa social onde faltam dois botões,
            o meu salário, ou melhor, a falta dele,
            o emprego que não tenho,
            o pagamento dos impostos em atraso,
            as contas de água e de luz,
            o cheque sem fundos do supermercado,
            as roupas das crianças que já não lhes cabem,
            as sandálias surradas da minha esposa,
            a comida que não há na mesa...
            Tanta coisa para consertar, tanta coisa para comprar,
            tanta coisa por fazer, para por em dia,
            mas este filho pai-d’égua tem que primeiro
            tomar vergonha nesta cara suja!
764

TAMtos mortos

+ Duas centenas +

TAM
tos mortos... (estou certo?)
De quem é a culpa?
Do homem-máquina?
Da máquina-homem?
Da máquina-máquina?
Ou de todo o maquinário?
E o que diz a caixa,
a caixa queimada,
a caixa “imune” à queda,
a preta caixa-preta?
Será que gritos, choros,
gemidos, ruídos,
frases entrecortadas,
palavras desmembradas
denunciam culpados?
De quem é a culpa?
Da chuva? Da pista?
Da torre?
De quem já morreu?
E a próxima culpa?
De quem há de ser?...
Minha? Tua?...
816

Origem

Ei-lo
no ventre alfonsino, 
no seco Aleixo das Geraes,
rico de fome e aridez...
425

Áurea

Faço poemas 
em versos negros 
e versos brancos 
para que todo poema 
seja livre.
550

Vestuário


Roupas, roupas, 
vestimentas, 
enganos do corpo, 
engodos, farsas. 
Panos, panos, 
linhos grossos, 
fininhos, 
obstrução de caminhos...
396

Nova Era


Homenagem à minha cidade natal,
no Vale do Aço.
 
Minha cidade é limpa,
é verde amarela azul e branca.
Minha cidade é pequenina
e tem rio,
tem lagoa,
tem São José da Lagoa,
tem vales e serras.
Inda ontem fui lá
e fiquei feliz:
na minha cidade ainda há crianças
brincando na rua...
405

Vizinho ilustre


Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
767

Estrangeiro


Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Estrangeiro sou e não ardo.
Meu corpo segue em névoa calma.
Não carrego nenhum fardo:
não sofre quem não tem alma.
 
Piso as pedras do caminho
livre, só, sem rumo certo.
E por ser assim -sozinho-
nada é longe, nada é perto...
 
Estou aqui, além, aquém,
não importa meu destino;
se não me espera ninguém,
meu viver é peregrino.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Ser estranho é ser feliz,
é ter tudo e não ter nada,
ser mestre e aprendiz,
tendo a casa na estrada.
 
Vai, alma, não voltes mais!
Vê se te aportas noutro porto.
Ser assim muito me apraz:
não ser vivo nem ser morto...
 
Se meu corpo não tem alma,
minh'alma um corpo não tem.
Tal estado hoje me acalma;
a ela não sei se convém.
                                                                                                                                                                                                                            
                                                                                                                           
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
Sou meio-termo inteiro,
animal de consciência;
sou ar puro e passageiro,
que de si não dá ciência.
 
Minh'alma foi carcereira
do corpo, as rédeas tomava.
Fingia ser companheira
enquanto só regras ditava.
 
Perdi amor e felicidade,
que a ela não interessava.
Hoje há paz e não saudade
da alma que o corpo matava.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
é que longe, aquém das serras,
alma me abandonou...
 
Desalmado sou, bem sei,
estou solto e desgarrado,
livre do mundo, da lei,
sem presente e sem passado.
 
Minh'alma já foi bem tarde
se perder por outros lados.
Faço tudo sem alarde:
sem alma não há pecado.
 
Vai, alma, pedir pousada
em corpo que te receba.
Sou feliz e não me agrada
te encontrar pelas veredas.
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
 
                                                                                                                        
É bom que eu seja assim,
como nuvem passageira..
Que o mundo não saiba de mim.
Sou quem não fede nem cheira.
 
Fui louco, tolo, bastardo,
a alma de mim fez desdém.
Leitores, compreendam meu fado:
a alma jamais fez-me bem.
 
Serei o que queiram que eu seja.
Se quiserem, serei ninguém.
Sou o novo que viceja
do que já foi velho. Amém!
 
Sou estranho nesta terra.
Estranho? E por que sou?
É que longe, aquém das serras,
a alma me abandonou...
468

Só o tempo passa...


... e foi assim que cheguei:
despojado de tudo,
sentimentos, atos, ilusões
e esperanças.
Em busca de um novo mundo.
Deixei por sobre os ombros
vales, montanhas, seres ocos,
prostitutas mulambentas,
criancinhas remelentas...
Adiante, séculos e séculos após
surgiu o novo mundo
e lá me vi,
nu de ilusões e esperanças,
entre criancinhas remelentas
e prostitutas mulambentas...
469

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