Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.
Helena? Helena? Onde estás agora? Apesar do pouco tempo da partida, a lembrança me castiga, faz ferida e a tristeza solidária me namora.
Onda calma de sono me invade quando oscilo sobre a rede no quintal. Teus beijos... teus abraços... teu rostodivinal... que saudade, Helena! Que saudade!
Tremor vago o meu corpo já domina, ao sentir que a bela fantasia s'esvaece logo que o sonho termina.
E quem entende a minha dor, o meudesgosto e a escassez que há em mim de alegria, é o zéfiro que banha o meu rosto.
464
Nada
Quem pensa que eu vivi, engana-se. Quem diz que eu vivi, mente. Passei apenas... E passei como se fosse um nada que ninguém vê, que ninguém sente...
413
Aborto
Baseado no depoimento de um casalarrependido
Ontem, um tiquinho de nós se foi sem querer, mas por querermos e levou com ele nossa alma, nossa vergonha, nosso pudor, nossa fé e coragem. Ontem, um tiquinho de nós chorou, lutou até o fim e partiu. Partiu os nossos corações, venceu a nossa ignorância, nossa imoral, nossa impiedade. Ontem, um tiquinho de nós se foi, um tiquinho de mim, um tiquinho de ti, uma promessa de amor e felicidade, uma paz infinita... Nós o mandamos embora sem carinho, sem proteção. Ontem, um tiquinho de nós se foi e levou TUDO de nós. Hoje, amanhã e depois e sempre estaremos sós com nossa maldade. Ontem, matamos um tiquinho de nós e morremos TUDO!
874
Desatino
Olho-te e não te vejo. Não és mais o que antes vi. Procuro ver o que desejo e desejo o que houve em ti.
Tudo é mudado, tudo é estranho... Tudo difere do que vivemos. A imaginar como fomos nos pomos e tão alheios de nós nos percebemos...
À hora morta, é morto o riso e do vento a ladainha nos ouvidos insiste que o Amor é preciso mas não adianta: estamos perdidos.
O tempo é escuro... a voz não fala... No alvorecer dos belos dias deixamos os sonhos. Nada nos abala. Só nos resta agora a alma fria...
É mudo o meu ser mas não mudei. Duas almas opostas no mundo. Quando tu dormiste, acordei. Vejo um corredor escuro e sem fundo...
722
Coração
Vi o Coração quando jovem, quando puro, rindo e sonhando dia e noite, noite edia, como se a Vida, a Morte, o claro e o escuro se resumissem em prazer e alegria.
Hoje, velho e partido pela Vidaamargurada, sem glórias, sem ânsias, sem desejos, vesano órgão, cambaleia pela estrada, sem sonhos e algente de sobejo.
Melhor fora Coração não ter havido: sem este ingrato o peito seria de sentimentos e tramoias desprovido.
Antes, vi aurora de intensa euforia. Agora, tendo a Vida esmorecido, só vejo a Morte, lúgubre, sombria...
439
No berço
Dizem que nasci e que foi um sucesso, mas não entendi. Pois também ouvi que agora o tempo escorre, que é só retrocesso, que quando se nasce se morre. Foi mesmo o que ouvi? Nasci ou morri? Que estranho processo...
352
Transe
Há uma estafa fastidiosa a inebriar-meos sentidos, maquiando qualquer vestígio de repentino júbilo,
modorrentapreguiça mental que subtrai de mim toda esperança de manter-me ereto,
inexplicável lentidão dos movimentos que minimiza e estatifica... Fuga momentânea das palavras,subdivididas em sílabas desconexas, ininteligíveis;
ansiosa necessidade derecostar-me ao primeiro apoio com o qual me deparo; uma palidez mórbida a recobrir-me a face, tal qualum chinês embebido em éter... Um querer e não poder abrir os olhos -uma nesga que seja - e vislumbrar,
ainda que momentaneamente, um átimo da luzque me circunda;
uma dor tão profunda! tão profunda! que não se sente, mas,ainda assim,
enraizada no subconsciente... Um suspiro (antes um expiro) que nãoparece deixar outro atrás de si.
Em suma, um cansaço de existir...
412
Cinzas
Na rua a moça passa, os carros passam, adiante tudo passa... Só eu não passo! De repente, qual ilusão de ótica, itinerante e órfã de sorte minha vida passa, ilógica, sob a visão cinérea da morte.
497
O morredouro
Na minha rua há um morredouro, quasecomo aquele da Irmã Angélica de Bombaim. Lá, tudo é miserável e não háenfermeiras, só moribundos, decadentes, agonizantes, cujas vidas não podem ser saciadas com comidas ou remédios terrenos. As paredes são descarnadas e pequenasvalas serpenteiam entre as enxergas, um acúmulo de sangue, pus, escarros e lágrimas. Tudo forma um quadro de pinturaabstrata, involuntária, de chãos e paredesmulticores, vermentos, com predominância dovermelho. Cães comem pelos cantos e lambem asvalas; não é justo chamá-los de nojentos: nãohá nojo em saciar a fome, há satisfação. Vê-se uma sutil beleza naquelapodridão, naquele concerto de gemidos e lamentos. Oh! Deus! Quando minhas pernasbambearem estarei lá, adepto da loucura poralgumas horas, alguns meses ou até a horaextrema, a critério dos vermes que, quaseimperceptivelmente, já me corroem as entranhas...
688
Substancia
[para Rosangela de Fatima]
Mi trovo tante volte pensando a te E visualizzo la tua perfetta forma didonna, di giorno a sfiorare le labbra divelluto, la notte ad accarezzare la seta deicapelli. Se sei lontano da me, giorno dopogiorno Ti trasformo nella delizia del fruttoche apprezzo nella frescura dell’acqua che mi sazia la sete. E nella sostanza che mi permette ildomani. Posso sentirti nella soave brezzamattutina, nei primi raggi del sole che miriscaldano e sempre ti vedo in ogni oggetto, inogni volto, in ogni goccia di brina della verdeerba e nel battito delle ali dellerondinelle… sono piccolino davanti alla tuapresenza e oscuro nella tua trasparenza, ma i miei occhi mantengo serrati mentre il giorno corre, finchè l’ora vitale non giunge finchè ti incontro, nata dal nulla, fiorita, cristallina davanti ai mieiocchi e bevo dalla tazza delle tue labbra e mi scaldo al sole del tuo sorriso e mi sciolgo in infantile allegria e se ne vanno dal mio volto l’ombra el’amarezza e tutto ciò che mi fa soffrire quandonon ti ho Onda che vieni e che vai E torni nuovamente E torni a partire Ma che non si ferma mai In questo oceano di delizie che è iltuo corpo Che bagna il mio corpo Che fa nascere il sole sul mio volto. E’ la delizia, la dolcezza dei mieigiorni E ad ogni ora ti aspetto Per regnare sempre nella mia vita.
Per la traduzione in lingua italianaringrazio Ena Villani (http://www.enavillani.com) ed isuoi amici.