Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Vizinho ilustre


Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

64

O amante

Finda o dia e já 'scurece...
Horas vespertinas em que divago
no meu leito inda sem flores. 
Estou lúcido e tu me apareces. 
Espera! que a dor não trago 
e ainda há dia em minha vida. 
Minha mente está caduca 
e vazio é o saco escrotal das minhas palavras. 
Quisera ejaculá-las todas, aos borbotões, 
em tua página vermelha e negra... 
Ah! Se não fosses infecunda! 
Transformar-te-ias com a maternidade. 
Reagirei, ó Dona Morte, Viúva Triste, Mulher Fatal! 
E incutirei em tuas veias os versos deste poema, 
marcapasso do meu coração. 
Desposaste Mallarmé, Camões, Bilac... 
Não te contentas? 
A mim, hás de ler-me vivo! 
Ninguém é totalmente insensível à Poesia. 
Assim, absorta em ouvir-me, enamorada, 
amar-te-ei ao ocaso e, antes que anoiteça, 
tendo-te aos meus pés, exausta e subjugada, 
de posse do teu segredo e em prol da Vida, 
matar-te-ei, ó Dona Morte! 


369

Juramento

Jurei que o meu amor seria eterno
e que alguém me amaria até o fim.
Antes tivesse desejado todo o inferno
só pra mim...


Encontrei uma musa inspiradora
e no início o amor nos fez tão bem!
Poucos anos... eu pequei e ela pecadora
foi também.

Desde então, aquele eterno amor imploro,
mas fatal sina nos persegue vida afora:
presas dos duros laços do amor, eu choro
e ela chora.

O juramento que fiz, ela fizera,
querendo alguém que a amasse eternamente.
Mas o amor eterno é doce quimera
dos dementes...

Prisioneiros fatais de um juramento
que nos mantém os corações tão bem fechados,
sofremos ambos o mesmo tormento
dos condenados.

No entanto, eu juro! - estou bem certo -
que as grades do sofrer serão partidas
e os nossos corações serão libertos,
cada um seguindo livre a sua vida.


535

Um outro país

Quando você chegar
deve encontrar um outro país,
ser recebido por um povo que diz
ter orgulho da sua nação.
Quando você chegar
deve encontrar um país diferente,
confiante na força da sua gente,
moderno, seguro, sem corrupção.
Quando você chegar
ouvirá histórias de um país encantado,
de um povo forte, feliz, inspirado,
que lutou como um bicho acuado
por trabalho, saúde, casa e educação.
Quando você chegar,
menino ou menina,
ainda haverá vestígios da revolução,
nos jornais, nas revistas,
nos cartazes escritos à mão,
das passeatas, dos brados, daquela canção
cobrando o respeito à sua gente sofrida.
De um povo que, cansado do seu pesadelo,
saindo às ruas de forma atrevida,
fazendo sua guerra sem o uso do aço,
somente com sua voz e a força dos braços,
libertou-se por fim daquela opressão.
Quando você chegar
será – menino ou menina – bem mais feliz
do que sua mãe, seu pai, seus irmãos,
que lutaram tanto pra lhe deixar um país
grandioso, belo, liberto, viril,
como sempre deveria ter sido o Brasil.


658

Os dançarinos

Melancólica e sonolenta, eis a lua,
flutuando sobre as águas do oceano.
Alheio a tudo, imerso na noite e no mundo,
meu pensar também vaga neste plano.
 
Ei-la, imagem erradia na pista do mar,
entrando, dançando, bailando nas ondas vadias.
Minha imagem também entra, dança, baila,
embalada pela aquátil melodia.
 
Qual casal de dançarinos da esperança,
vestidos de amor e de alegria
deslizamos sobre as águas nessa dança.
 
Já desperta e alvacenta, eis a lua,
causadora dessa bela fantasia
que nos tira do real e nos flutua
537

Nostalgia

Helena? Helena? Onde 'stás agora?
Apesar do pouco tempo da partida,
a lembrança me castiga, faz ferida
e a tristeza solidária me namora.

Onda calma de sono me invade
quando oscilo sobre a rede no quintal.
Teus beijos... teus abraços... teu rosto divinal...
que saudade, Helena! Que saudade!

Tremor vago o meu corpo já domina,
ao sentir que a bela fantasia
s´esvaece logo que o sonho termina.

E quem entende a minha dor, o meu desgosto
e a escassez que há em mim de alegria,
é o zéfiro que banha o meu rosto.
566

Terapia do riso absurdo

Contraídos o risório e o zigomático,
explode em ti sonora gargalhada.
Do veneno do teu riso tão elástico
minhas cordas também são contagiadas.

Tudo em ti é motivo de euforia
e até o vento faz-me cócegas passando.
De tudo rimos e na falsa alegria
o teu riso com o meu riso vai rimando.

Com o riso tu me enganas e eu te engano.
Se sorrimos, damos bah! para a tristeza.
Riamos, que o riso encobre o dano.

Devemos rir, pois só o riso nos sobeja.
Serão bobos? vão dizer. Somos insanos!
E talvez rindo, a triste Morte não nos veja
572

Classificado

Contrata-se um assassino, um matador de aluguel
que tenha na profissão bastante experiência.
Deve ser frio, calculista, insensível e cruel.
Exige-se carta de referência.

Quem o trabalho puder assumir,
favor encontrar-me na mais triste praça.
Direi que a vítima não vai reagir,
que é homem semimorto, descartável e sem graça.

Mas que seja certeiro o tiro ou o golpe do punhal:
não quero que o ferido se arrependa.
Melhor no coração, pra ser fatal.

Depois, já não haverá dor ou ferida.
E que o contratado não se surpreenda
ao saber que o pagamento é a minha vida
649

À minha mãe

Quisera hoje ver-te, ó mãe querida,
contigo estar no meu torrão
e te contar da minha Vida,
da dor que me aperta o Coração.

Quisera alegrar teus olhos cansados,
curar da falta a grande ferida
que te faço e me fazes. Já quebrados
os meus planos, minh`alma está partida.

É tão longa a distância, mãe amada,
que me consola esta página amarelada
onde me debruço a chorar o meu tormento.

Contudo, mãe, se são desfeitos os meus planos,
meu Coração, mesmo entre tantos desenganos,
tanto te ama e não te esquece um só momento.
736

Prisão e liberdade

À noite, o rosto nas grades da janela
do colégio interno onde estudava,
perguntei ao padre que cidade era aquela,
toda escura, de onde nada se escutava.

Aos domingos, muita gente lá passeia
e outras, brancas, imóveis _ serão guardas ?
Em novembro de flores fica cheia
e de velas as finas ruas enfeitadas.

_ Que cidade é esta, diz pra mim,
que me atrai com seus noturnos mistérios?
O padre me olha sério e diz por fim:

_ Ali moram reis e rainhas de finados impérios,
ricos, pobres, crianças, todos que dormem, enfim...
Aqueles muros brancos, filho, são os muros do cemitério.
531

Invólucro

Idiota! Não vês que nada és?
Apenas fina capa bolorenta te protege
da podridão. Vermes famintos te rodeiam.

Ignoras que num lance mágico, num segundo apenas
cai por terra toda a altivez e o belo
 papel-presente revela a fétida massa?

O gosto amargo do fel, a visão incerta,
o entortar das pernas, o descontrole total...
tudo é inevitável!

Mais dia menos dia serás presa fácil:
o tempo é impiedoso.

O trágico fim independe de tua vontade.
A arrogância que despejas não passa
de faceta inútil das tuas diversas faces
vãs e mundanas.

Ao sol poente, o rosto murcho e os ossos corroídos
doerão mais do que naqueles que tiveram
a precaução e o bom senso de serem
simples e ocultos.

Restarão teus lindos cabelos...

E que utilidade terão teus cabelos, fios
órfãos e subterrâneos, dispersos, opacos
sobre os ossos?

615

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