Renata Bomfim

Renata Bomfim

n. 2011 BR BR

n. 2011-11-21, Vitória

Perfil
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Vampiro vegano

Vou ceder aos vampiros
quem sabe assim
vendo algum livro.
Mas imagino uma
entidade diferente:
com sangue quente,
roupas brancas,
resplandescentes,
olhar de cigano.
Amigo das pessoas,
Não cospe na cruz,
Aprecia alho.
Um vampiro vegano!
Ele será o terror dos feirantes e,
na calada da noite,
invadirá quitandas e hortifrutis
em busca de clorofila.
Preferirá os orgânicos
e os sem conservantes.
Sugalos-á com prazer e
sem compaixão,
até que restem somente as fibras.
Esta dieta será o segredo
de seu poder e eternidade.
Nada será mais assutador
e nem mais bizarro
que um vampiro sarado e
com baixo colesteról.
Ler poema completo
Biografia
Renata Bomfim nasceu no dia 21/11/ 1972 na iIha de Vitória, capital do Espírito Santo, no Brazil. Poeta, ensaista e arteterapeuta e artista plástica, é Membro da AFESL, do IHGES e pesquisadora do CNPq desde 2007. A poeta é ativista socioambiental e trabalha no Mosteiro Zen Morro da Vargem, é militante pelo direito dos animais e pelo abolicionismo animal.  Mestre e doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo/Ufes. Possui artigos e ensaios publicados no Brasil e no exterior.
Autora do Blog literário Letra e fel (www.letraefel.com)

Poemas

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Fantasmas da Esperança

Dedico este poema aos sindicalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, covardemente assassinados por defenderem a floresta da ganância dos madeireiros e a outros mártires que a mídia não tem interesse em divulgar.


Deixemos Deus sossegado
e colhamos as vinhas da nossa ira.
Soem trombetas
Acordem liras
Pois não existe céu além deste que
conhecemos e poluímos.
Homens, até quando
a terra será encharcada
com o sangue dos teus irmãos?
Até quando morrerão índios,
negros, mulheres, crianças,
bastardos e desempregados,
e uma leva de outros seres subalternizados?
Por que não conseguimos enxergar
que o rosto desfigurado
do homem e da mulher
sem nome, sem casa e com fome
é o meu e o seu rosto, é o nosso rosto?
Porque não aceitamos que
esse homem e essa mulher são, também,
a flor que arrancamos,
o animal que assassinamos
as árvores que deixamos cair...
Até quando o ferro e o fogo
calarão vozes mais esclarecidas?
E no lugar das árvores
sejam plantadas as sombras
dessas existências perdidas?
Morreu Paulo Cesar Vinha,
Chico Mendes, Maria do Espírito Santo
Dorothy, irmã querida,
morreu José Cláudio Ribeiro da Silva,
defendendo as castanheiras
e a nossa humanidade.
Tantos outros também partiram
traídos pelos seus.
Exército de vencidos
que se levantará um dia
ainda mais forte, pois,
existem coisas que não se pode matar:
a Fé, a Esperança, a Revolta, a Justiça!
Esta é a hora de nos inspirarmos
nos fantasmas da esperança, para que
as gerações futuras possam descansar, ter
ar, água, lugar de existência.
Nós nos perdemos no labirinto
da modernidade ourobórica,
construída com armas tecnológicas.
Não temos, mas, ainda buscamos,
alguém ou algo que nos salve
de nós mesmos.
860

Campo comum

Nada nos é alheio, amigo,
Dentro de mim e de ti há
um amor irrestrito
o ódio dos assassinos
os atos dos santo
a covardia dos bandidos.
a poeira da primeira estrela e
resquícios das águas:
do grande dilúvio
do mar da Galiléia
do rio Benares
do Tietê
do mar japonês
imantado pela radioatividade.
Um mundo de caos iludido
por imagens edênicas
nos convidam para viagens
ilusórias e paradisíacas.
Há no âmago do nosso ser
a videira
vinho e pão
a ceia inteira e santa
o ódio
o perdão
Tudo isso compartilhamos
mas, leitor, há dentro de mim
uma angústia que desconheces:
o assombro de estar viva
contemplando a beleza bruta
e há o desejo incontido de
desabrochar qual rosa mística
no coração do Cristo.
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Vampiro vegano

Vou ceder aos vampiros
quem sabe assim
vendo algum livro.
Mas imagino uma
entidade diferente:
com sangue quente,
roupas brancas,
resplandescentes,
olhar de cigano.
Amigo das pessoas,
Não cospe na cruz,
Aprecia alho.
Um vampiro vegano!
Ele será o terror dos feirantes e,
na calada da noite,
invadirá quitandas e hortifrutis
em busca de clorofila.
Preferirá os orgânicos
e os sem conservantes.
Sugalos-á com prazer e
sem compaixão,
até que restem somente as fibras.
Esta dieta será o segredo
de seu poder e eternidade.
Nada será mais assutador
e nem mais bizarro
que um vampiro sarado e
com baixo colesteról.
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Cristo me inquieta

Cristo me inquieta!
A sua luminosidade me invade,
O seu amor me desperta.
Sinto vibrar as cordas do Universo:
Em cada olhar de criança,
Na música,
Em cada poema.
Há 'aleluias' nas mãos que buscam
repetir os seus gestos:
Mãos que curam,
Protegem,
Libertam,
Que resistem à falsa órdem.
A sua voz ressoa nas bocas que
Dizem "não" às injustiças,
Que militam pela humanidade,
Falando por aqueles que não podem.
Bem como, nas bocas daqueles que
se comprometem com a complexidade
Das variadas verdades que existem.
─ Bem-aventurados aqueles
que plantam esperança,
Pois eles beberão
do vinho o contentamento e
comerão o pão da bonança.
─ Igualmente bem-aventurados
aqueles, cujas bocas cheias de amor,
beijam, e cujos corpos, vivificados pelo desejo,
amam como quem apascenta rebanhos.
As suas taças, de cristal e ágata,
jamais se esvaziarão!
Cristo me inquieta!
Suas palavras fazem sentido
dentro das minhas células.
Eis a minha prece:
─ Amado, eu não sou fora de ti,
Vivo e morro por ti,
Com maior volúpia e paixão
que os amantes mais febrís!
Vejo, pelos olhos do Cristo,
Erguer-se em busca de sol,
Por entre os espinheiros da descrença,
Frágeis plantas que serão,
Um dia, árvores de harmonia e de resiliência.
Alimento tudo o que quer crescer!
Vejo também os animais livres:
Os pássaros cantando felizes,
Cães, gatos bois, coelhos,
carneiros, onças, peixes, perdizes...
Tudo o que vive celebra
O fim da era de sangue e violência.
Vejo os homens, com amor,
Semeando a terra que, agradecida,
Oferta a si mesma
por meio dos elementos/alimentos
que a representam.
Não sei bem explicar como é isso,
Mas estou certa de que é o Cristo,
É ele! A Letra Bendita que
escreveu o mundo.
É ele! Comandando ritos,
Despertando no meu abissal
mitos antigos.
Estou pronta para o Juízo,
Que não é o Final, mas,
prelúdio, promessa, (re)início.
Observo a tudo isso sem medo:
Assombro e deslumbramento.
Compreendo que
Não existe morte e nem vida isolados,
Existem apenas momentos:
Em alguns morremos,
Noutros vivemos,
Tudo em fluxos (des)contínuos.
A semente de Deus está em nós,
Prenhe de eternidade,
Buscando metamorfoses
Ad infinitum...
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Despertar

Desperta!
Acorda pleno e olha,
És imagem:
Traços, cores, texturas,
Contornos espetaculares.
Tua tribo anseia e canta,
Nasce a música
Brota a dança
Coreografia de milhares.

O alimento é comum:
Miséria, angústia, esperança...
Desperta!
Acorda pleno e sente
És letra!
Símbolos e marcas
Adornam teu corpus,
te abençoam com a imortalidade.
Recorda teu sonho, mito:
Astros em conjunção,
Rituais de vida e de morte.
Pariste fantasia!
A alma existe?

Desperta e ama o saber: filosofia!
Desperta tudo o que dormita:
Emoção, mímica, interjeição...
Transita no rítmo
Explode e goza num grito
Poesia!
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