O DEPOIS ESQUECIDO
Os jovens vivem Tão depressa Que não tem tempo Para pensar no fim... Já que ainda estão Bem perto do começo.
A IMPORTANTE COISA SEM IMPORTÂNCIA ALGUMA
Hoje! Os hipopótamos levantaram primeiro E lá se foram os meus travesseiros Direto para a lagoa Perto da minha cama de feno Amontoados sobre a grama seca E todos os hipopótamos Tinham olhos azuis Eles submergiam dentre as folhas Pois o rio seco era banhado Por uma luz brilhante De uma lâmpada fria Que queimava a pele fina e branca Com listras pretas dos hipopótamos Tal como as zebras Mas acabei de me dar conta Que eram zebras mesmo E que nunca foram hipopótamos Na verdade seus olhos Eram azuis esverdeados E eu estava apavorado Como poderia confundir Durante tantos anos Zebras com hipopótamos Resolvi plantar toda minha angústia Num canteiro sobre a laje Do edifício ladrilhado Com pastilhas amarelo ouro E num piscar de olhos Um jardim de crisântemos Floresceram no tapete da sala Que beirava a cozinha Onde eu tomava café da manhã Rodeado de borboletas brancas E um bode de chifres abobadados Aguardando para comer as migalhas Do mingau de aveia que esfriava Sobre a copa da árvore sem folhas Pois que era verão E o frio fazia as araras nadarem No céu molhado pelo mar Que jogava para cima Suas águas transparentes De vez verde De vez azul De vez somente água Respingando em mim Enquanto em pensamento Indagava sobre meu absurdo De confundir zebras com hipopótamos.
O BEM DE TODO MAL
O mal que fiz para alguém Fez tão mal a mim também Que me levou a procurar no bem O perdão que o mal não tem. O malvado que foge do bem E ainda deseja-me mal também É total responsabilidade minha Pedir para nós dois o bem. O tempo é dono do começo Mas o fim não pertence a ninguém O perdão é ponto final do mal E reticência de todo bem.
GRAÇA QUE GANHEI DE GRAÇA
Dei graças as graças não obtidas Pois isso já é uma graça recebida A graça que de graça não é permitida Somente a graça trabalhada é merecida E a graça que te foi prometida É viver de graça em graça a vida.
A ESCOLA DA VIDA
Hoje é dia de prova E me preparo em oração O agente se renova Encarregado da missão. De surpresa me aparece Uma em cada momento Cada instante uma prece Pouco estudo e muito lamento. E na volta para casa Eu rezo para entrar É que a fé às vezes jaza E as provas tende aumentar. Pra quem estuda fica fácil E também saiba vigiar Com Jesus tudo é grácil Ajuda quem tem fé passar. Tem dias que reprovo Distraído na multidão Mas o Diretor muito bondoso Deixa-me em recuperação. Tem vezes sem estar pronto Não querendo arriscar Fico em prece estudando Para outra prova eu tentar. A vida é uma escola Qualquer dia e lugar Até mesmo na família Tem professor pra ensinar. O dia é corretor E quando me esqueço de vigiar Peço rápido ao Diretor Outra prova pra tentar. Em todos os anos letivos Cada dia foi uma lição Estou fazendo supletivo Recuperando em oração. Fiz muitas provas no escuro E foram poucas que passei Deixei matérias para o futuro Que no pretérito eu errei.
PARTIU MINHA POESIA
Acordei sem inspiração O vazio me completa Procuro palavras em vão E a poesia se dispersa. Por mais que tento Nada vem Procuro dentro Nada tem! Desencontro desesperado Preciso me encontrar Tento sonhar acordado Não consigo me achar. Desprovido da palavra Cada linha espera um verso A caneta o papel lavra E as estrofes ficam sem nexo. A música ficou sem letra E a melodia virou barulho Lancei de atiradeira Bem acima do mangrulho... Meu orgulho de poeta Equilibrado sobre o muro Tocando como sineta Lembrando-me do perjuro. Eu jurei para poesia Nunca me envolver com a dor Escrever sempre todo dia Somente versos de amor. Não cumpri o juramento Desde quando ela se foi Sumindo no firmamento Ficando um o que era dois. Dormiu e ainda dorme Ela nunca que acordou Meu coração ficou disforme E só a prosa me sobrou.
UM VERME QUERENDO SER VERME
Um verme insignificante Parou para rezar Perguntando para Deus Quando poderia andar. Cansado de rastejar Queria ar puro respirar Sair de dentro do homem E também homem se tornar. Deus respondeu ao verme Que ainda estava em oração Muitos homens insatisfeitos Querem ser mais que criação. Agem muitas vezes contra A outros filhos meus Achando-se maior que gente Querendo ser igual a Deus. Tu que és tão pequeno Foi te dado grande função Deixar o homem no lugar dele Promovendo sua educação. Para o homem se lembrar Que sofisticadas armas Não conseguem eliminar Os pequenos agentes do carma. O verme nunca havia pensado O que tinha como missão Agradeceu muito acanhado Orgulhoso da ocupação.
QUIRODÁCTILOS
Os filhos do meu Pai São os dedos da sua mão Cada um é diferente Cada qual tem sua função Não importa ele estando Na mais baixa posição O que importa para o Pai É que todos sejam irmãos. Na mão de quatro dedos Tem no mínimo o mindinho O anelar que está do lado É dele seu vizinho Na família tem o médio Que é o pai de todos O indicador mal educado Em todas as festas fura bolo Mas a mão com quatro dedos Não serve pra segurar Nem pode matar piolho Se faltar o polegar.
O COMEÇO DO FIM
A alegria de estar livre Que retirada na pandemia Durou pouco E me fez deixar a liberdade Que tanto queria Enrolada no protocolo Que eu esqueci Sob quem estava ao lado Na maca a direita da minha Que também entubado Segurava o seu Protocolo apoiado Sobre o peito insuflado Sem nenhum leito vago Em quaisquer outros lados Da maca que ele Também estava amparado.
GABRIEL
É um anjo tentando Encontrar entre tantos Outros mostrando Aos futuros anjos Que tudo que é anjo Nascem humanos E um dia podem voar. Entre os quase anjos Segue andando E filosofando vai pensando Coisa normal De pensar para anjo: “Como na Terra Não sabem que os anjos Já foram humanos Cansados de andar”?! Enquanto caminha Usa o tempo para advogar Pelos anjos esquecidos Que ainda humanos Não sabem voar. Sente falta da harpa E com suas asas guardadas Celebra dançando Na ponta dos pés A missão recebida Pelo Filho do Homem Encontrar outro anjo Pronto para voar. Procura nos cantos E em cada encontro Uma foto ele tira Dos que foram escolhidos Pelo Filho do Homem Que estão quase prontos Para serem arcanjos Sobrevoar toda a Terra Ajudando os humanos Que ainda não sabem Que podem voar.