Lista de Poemas

AMOR

Faz-me por dentro

Um homem novo

Que a idade quis por fim

Lembra-me que a idade

É só uma capa velha sobre mim
149

FELICIDADE

Felicidade vá embora
Não me venhas iludir
Com tuas falsas esperanças
Que carregas ao partir.

Nunca fica muito tempo
Não te importas à companhia
Deixa na porta o desgosto
Seja noite, seja dia.

Sem nenhuma despedida
Escancara o portão
Por ele entra apressada
Tua amiga depressão.

A senhora é egoísta
Sem nenhuma comoção
Ainda manda na ausência
Tua prima solidão.
160

MANDELA

Somos parte
Da vida de Nelsinho.
Contaremos sua história
Nos livros de história:
O homem de alma livre
Cárcere de sua cor.
Amordaçado,
Gritou livre nas vozes
Dos apartados.

Ganhou
Liberdade,
Eleição.
Governou
Com igualdade,
Para todo tipo de cor:
Da apartada,
Ao apartador.
A vítima,
Nunca vitimou.
166

DESPREZO

Amar sem ser amado
Masoquismo desse lado
Viver sem ser notado.

Ser amado sem amar
Sadismo do outro lado
Vive sem me notar.

Esperar para ser amado
Não alcança resultado
Está preso e condenado.

Quem sempre é esperado
Ficou acostumado
Está livre e perdoado.
198

SUJEITO

Por muito tempo

Achei que era um sujeito.

Passado um tempo

Descobri que nunca fui o sujeito que eu achava.

Parado no tempo,

Não faço a menor ideia que sujeito eu sou.

Passo o tempo,

Sendo qualquer sujeito.
143

PEDRO GRILEIRO

Herdei essas terras

Que não deviam ser minhas

E essas terras vizinhas

Não deveriam ser de ninguém

Terras que nunca pertenceram

Aos que acha que as têm

 

Essa terra que habito

Que nunca foi minha

Foi tomada de um povo

Que alma não tinha

E povo sem alma

É condenado a escravaria

 

Ganhei à culpa genocida

Do Charrua ao Tupinambá

E para àqueles que sobraram

O perigo ainda há

Herança eurodescendente

Acostumados a tomar
135

FOCA

Esperta foca focando

olha distante do mar

a foca focada andando

tubarão não vai pegar.
122

CARTA AOS BRETÕES

Querida vizinha, como vai? Tenho muito prazer em convidá-la para assistir a copa do mundo aqui em casa. Vai ter tudo de bom: fogos; muita carne; cerveja gelada e alho no pão!

Não repara a confusão! Alguns meninos meus estão muito tristes porque gastei o que não tinha para todos agradar. Minha casa ficou linda para poder te convidar e para poder te receber tinha mesmo que enfeitar!

Perdoa essa bagunça dos pequenos filhos meus. Eles são os meus mais novos e sabiam da tua chegada. Estão querendo se mostrar  andando pelas ruas todos juntos a gritar. Liga não que logo passa! Só tão querendo desabafar.

Ah! Que saudade quando a cada um podia esfolar. Mas agora diz meus outros: “Temos que dialogar”! Mas como vê não tá dando certo! Ah! Na minha época de ensinar! A cartilha era o cinto, esse sim, ensinava a respeitar!

Entra minha querida, sei que deve estar cansada! Não se preocupa com o barulho é coisa que não dá em nada. Afinal, é futebol e mais tarde chega o carnaval.

Deus é aqui de casa! Por isso cremos que deixando nas mãos Dele, tudo de bom vai acontecer!

Não tenha nenhum receio! Aqui em casa o mal que praticamos só fere a nós mesmos, aos outros bem tratamos. Nós sabemos receber! Pelo menos nós tentamos! Tem filho meu policial preparado só pra atender você.

 

 

Se achega minha amiga senta aqui pra prosear. Olha só toda essa pilha de roupa que tenho pra lavar. Mas roupa suja se lava em casa, ninguém tem nada que saber o que temos pra lavar. Só a gente aqui de casa pra entender! Meus garotos fofoqueiros com esse tal de celular grava tudo o dia inteiro, não dá nem pra disfarçar. Junta tudo nesses grupos que dá pra compartilhar e a fofoca aqui de casa não dá nem pra controlar. Dizem que tem muita coisa que é falsa por aí... Mas em quem acreditar? A televisão também engana! Isso não dá para negar.

Tempos passados meu Fernando, um querido filho meu, não tinha chance de ganhar pra aqui de casa ele cuidar. Parecia que meu outro, o Luiz, o mais popular, era certo que meus outros colocariam ele aqui em casa pra cuidar. Menina tu não sabe o que aconteceu?! Tudo deu uma reviravolta e colocaram Fernando incumbido dessa missão. Quando eu achava que o outro iria ganhar, pimba! Preferiram o irmão! Ah! Essa tal televisão. Não passou nem muito tempo e já tiraram ele de lá, assumindo outro irmão, o mais velho Itamar.

Todo mal a nós fazemos, fica tudo aqui dentro. Não levamos lá pra fora nenhum tipo de desgraça, exploramos a nós mesmos! Tem vizinha aqui de cima que adora usurpar, mas isso não me interessa quem sou eu para julgar.

 

 

 

 

 

 

Menina nem te conto: Tô toda endividada, todinha até o pescoço. Fui lá no  agiota pedir pra me salvar, um tal FMI, empresta a juros pra pagar. Como eu estou precisando, voltei nele pra pedir: “Preciso de mais dinheiro”! Foi aquele alvoroço e me disse com voz firme aquele belo moço, que até me envergou: “Pra visita tudo dá carne e os seus que roem o osso”! Mas como sempre prometi que dessa vez vou me cuidar. Falou também de outras coisas,que tive de concordar. Aceitei os juros altos pro dinheiro eu levar.

Esse mês vai ter mais conta que outa vez não vou pagar. Meu Deus que desespero, onde é que eu vou parar? Vou tirar da educação? Dá saúde vou tirar? Tiro da segurança, mas essa festa eu vou dar!

Quem controla minha finança são alguns dos filhos meus. Eles tem essa função! Cuidam de tudo aqui de casa: compra do mês e compra do pão. Mas sempre quando eu preciso nunca tem pra me ajudar. Os do meio que trabalham pra essa casa sustentar. Ah! Quando veem que estou brava trocam minha televisão, me dão outra geladeira, sofá, armário e fogão. Isso eu não vou mentir, presente é muito bom! Eles sabem esses danados que sempre dou o meu perdão. Esperam inteiros quatro anos para eu dar outra explosão.

Minha casa era maior dizimaram meu terreno, uma briga de dar dó. Perdi parte do quintal, sorte que foi um pedaço bem pequeno. Não abri mão de mais nada e o sul ainda tenho!

 

 

 

 

 

 

Fui casada quando nova, meu marido um senhor, que criava nessa terra: horta, peixe, fruta e flor. Mas aí, veio um danado, um lindo sedutor; pele branca diferente do primeiro morador. Ele foi tão violento, sucumbiu o meu senhor, me buchou e foi embora, levando tudo que encontrou. Depois veio outro homem, esse de retinta cor, tinha um troço diferente que também me encantou. Por isso aqui em casa, cada um é de uma cor. Mas são todos minhas crianças, cada qual tem seu valor.

Venha aqui pra minha cozinha que vou te fazer um chá! Espero que acerte, nunca vou me acostumar. Aqui gostamos do café direto do pé tirar, pegar aqueles grãos fresquinhos e jogar no moedor, juntar água fervida e sentir todo sabor. Esses grãos da minha terra que tanta gente que plantou.

Senta aqui minha rainha pra comer bolo de fubá. Tudo aqui do meu terreno, o que planta, aqui dá. Tá gostoso esse bolo? Claro que está! Já comeu até outro, pode comer que tem mais fubá.

Chega aqui pra minha sala pra gente fofocar: “A vizinha aqui de cima, tenho mesmo que contar, ela tem muito dinheiro e armas dela vem pra cá. Ela vive dessa guerra, daqui e de acolá, fabrica tanta arma que não falta gente pra comprar. Parece que tem outros que moram do lado de lá, igualzinho ela aqui de cima, também fazem pra exportar. Financiam outras guerras sem data pra acabar”. Etah! Por que ficou vermelha? Engasgou foi? Levanta o braço vai passar! Não sei onde esses meninos guardam?  É muito triste usarem armas sem ter incentivo pra estudar. Viver bem uns com os outros e aprender a se gostar. Mas ficamos em segredo, daquele pássaro tenho medo, ele pode até bicar!

 

Mas me conta, adoro fofocar: “Aquela guerra do Araque, lá perto de você? Deu no quê”? Desculpa! Não quis te encabular. Esquece tudo que falei e vamos outra coisa fofocar?

Menina! Minha prima aqui do lado já brigou contigo né? Por causa de uma ilha? Nossa! Foi uma surra daquelas! Eu fiquei até com dó dela. Mas nada pude fazer? Eu adoro meus meninos e se fosse eu, nunca que brigava com você. Ela bem que já sabia o que iria acontecer... O importante é que acabou!  Deus me livre de alguém querer o que é meu: “Minha Amazônia, meu Pantanal, qualquer coisa daqui do meu quintal”! O que Deus deu a cada um que cuide do seu.

Gostamos muito de ajudar e tiramos da nossa boca para os outros alimentar! Mas deixemos de tristeza e vamos falar de futebol: “Tu que inventou não foi? Aqui no quintal, a gente passa mal! Eles brigam pra valer. E só torcem juntos quando não é contra os daqui. Etah! Que invenção! Você sabia que somos penta campeão...”?

Pode chamar sua família pra vir pra cá torcer. A casa é muito simples, mas não falta pra comer. Temos chá de todo tipo e tudo pra te agradar. Se quiser traz biquíni e vamos todos para o mar.

Tem menino meu que sonha mesmo em ser cantor. Deixei cantar só um pouquinho, antes do jogo começar, é distração pra minha cabeça ouvir um pouquinho ele cantar: "Nessa pele melanina que retemos mais calor, nossos corpos bem mais quentes estão fervendo de amor".  Bravo querido! Lindo da mamãe! Agora pro banho e já!

 

 

 

 

Tá calor vamos à praia? Venha cá se refrescar? Também cá tem cachoeira e o que preferir nós temos cá.  O clima aqui é colorido, nosso clima é tropical, esqueça aquele tom de cinza que tem lá no seu quintal. Aquele frio... Minha Nossa! Aquilo pode fazer mal! Aqui vocês abrem a janela dá bom dia para o sol. Tá levando protetor? Pele branca se dá mal!

Só te peço minha amiga avisar para os seus filhos que respeitem minhas meninas, que já devem estar lá, com biquínis tão pequenos e a bunda para o ar. Aqui pode mostrar a bunda sem ser vagabunda! Querendo pode até vê, mas tem que respeitar! O direito de um começa quando do outro terminar!

 Fim de jogo... Acabou! Acabou! É vida que segue... 

Vou bater nesses meninos que a irmã querem vaiar. Deixa disso seus danados deixa ela entregar o troféu para o ganhador!

 Eu falei pra essa menina pra essa briga não comprar! Tenho medo é que algum dia alguém tire ela de lá.

Eu te levo no portão! Vai com Deus e boa viagem!  Me liga quando chegar!

Me desculpa alguma coisa que não fiz pra te agradar! Nessa festa ainda sou nova, mas por aqui eu vou parar.

Foi boa tua visita e foi um prazer te conhecer!  Querendo sabe o caminho... É só aparecer!
119

ALMA INCOLOR

Deslizei sobre o mar

Tiraram-me de lá

Trazendo-me pra cá

Vontade minha não era

De vir para o lado de cá

Acho que enquanto vivo

Nunca mais vou voltar

Apesar de toda guerra

Que tinha na terra minha

Eu preferia a minha guerra

Onde liberdade eu tinha

Os meus inimigos

Tinham tudo a mesma cor

Aqui ficamos amigos

Agora nossos inimigos

São diferentes na cor.

Moramos todos juntos

E agora somos muitos

Várias tribos, uma cor

Trouxe comigo a fé dos santos

Não conheço os daqui

Que todos são brancos

Diferentes de onde eu vim

Nada trouxe comigo

E também nada juntei

Faço aqui o que eu não quero

Sendo o que eu não sou também

Já passaram tantas luas

Que até parei de contar

Cada lua que eu contava

Era mais tempo pra ficar

Fui jogado sobre a terra

Pelas mãos de um capataz

Que de tanto me surrar

Fui e deixei o corpo ficar

Deixo aqui meu corpo velho

Que não me pertence mais

Visitarei a minha terra

Que deixei tempos atrás

Está tudo diferente

Como nunca antes vi

Deixo nela minhas saudades

Vou dela de novo parti

Fui pra uma nova terra

Que agora eu herdei

Por uma estrada livre de pedras

Que nunca antes pisei

Com as flores tão cheirosas

E nenhuma tem espinhos

Notei outros do meu lado

Não caminhava sozinho

Diante de um descampado

Onde a luz adormecia

Todos os pássaros cantavam

E a noite não existia

Tinha uma linda cachoeira

E mal pude acreditar

Os Orixás ali presentes

Todos a nos esperar

Eu com lágrimas nos olhos

Sem ter o que falar

Quando vi estava nos braços

De Nosso Pai Oxalá

Ele falou ao meu ouvido

Filho vamos trabalhar

Voltar pra aquela terra

Que te obrigaram a ficar

Para ajudar todos aqueles

Que te obrigaram a trabalhar

Te bateram e te prenderam

Não te deixaram descansar

Eu fiquei muito confuso

Não querendo acreditar

Como eu tão ofendido

Poderia ajudar

Aqueles que me tiraram a vida

E me enviaram para cá

Oxalá enternecido

Apertou as minhas mãos

Pude ver duas feridas

Cada uma em cada mão

Fiquei tão envergonhado

Parei na hora de chorar

Beijei suas mãos divinas

E voltei para o lado de cá

Me deram uma bengala

Um cachimbo pra fumar

Um copo d’água

E uma vela

Um toco pra sentar

Reuni todos os filhos

Pra poder me apresentar:

Sou um velho da senzala

E vim aqui pra trabalhar

Vocês não estão sozinhos

Vim a todos ajudar

Atravessar esse caminho

Com as bênçãos de Oxalá
145

FAVELA DELAS

A filha da minha filha

Criada também sem pai

Já teve sua filha

 

A filha da filha da minha filha

Como também um dia fui filha

Nasceu e cresce na favela

 

O barraco que herdei

Quando era somente filha

Divido com todas elas

 

Fico no morro guardando

A filha da filha da minha filha

Como fazia aquela que comigo fazia

 

Assim todos os dias

Minha filha e sua filha

Renovam a história dessa família

 

 

 

 

Deixam tão pequena

Aquela que é a última ainda

Criada pelas outras que já foram somente filhas

 

Além da guarda repetida

Tenho a minha própria lida

Lavando para outras famílias

 

Reiterando a luta feminina

Desde lá de trás

Todos os dias
145

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
joaoeuzebio

DESPREZO UM BELO POEMA AMAR SEM SER AMADO

Robson Wagner de Souza nasceu no Rio de Janeiro, em 08 de fevereiro de 1970, domingo de carnaval, às 13 horas. Desde 1983 escreve poesias para conquistar as colegas de turma que apreciavam poesias. Em 1987 ingressa no Colégio Dom Pedro II, ensino médio, em São Cristovão – Rio de Janeiro/RJ. Sua vida acadêmica teve início no ano de 2006 na Universidade Augusto Motta, cursando engenharia civil, fazendo somente quatro períodos. Ingressou logo em seguida, ano de 2009, na Fundação Técnico-Educacional Souza Marques, recomeçando o mesmo curso de engenharia civil, fazendo somente dois períodos. Em 2011 retorna para Universidade Augusto Motta cursando um período de Arquitetura e Urbanismo. No ano de 2014 começa a exercer a função de Mestre de Obras, responsável pela construção de dois prédios, na zona oeste do Rio de Janeiro. E logo em seguida, ano de 2015, se forma em Técnico de Segurança do Trabalho e Meio Ambiente, Universidade Estácio de Sá. No ano de 2017 deixa fluir toda sua vocação poética e nunca mais parou...