HORAS MARCADAS
De repente olhei o relógio, não mais se mexia
Sacudi-o, andou um pouco, parou em seguida
Assim é a pilha, assim é a idade, assim é a vida
De ouro ou bronze, belos ou feios, jazem amontoados
Seus tic-tacs ninguém mais escuta, são só passado
Não mais os entes, nem os amigos, nem aliados
Relógios velhos, repousam perdidos no esquecimento
Adornaram paredes, cingiram punhos, marcaram o tempo
Assim é a vida - morte esculpida ao sol e ao vento
Horas passadas, folhas mofadas, obras esquecidas
Prédios tombados, abandonados, paredes caídas
Assim é a memória, assim é história, assim é a vida
Cada um levando consigo o odor do que é ou que era
Seu altruísmo, caráter, cinismo e as suas misérias
Há um trono branco, justiça postada a nossa espera
MÃOS DA ESPERANÇA
As minhas mãos jamais darei ao que difama
Ao que oprime, ao que falseia e a dor inflama
Quero mãos limpas, sono de paz, alvo o pijama
Não me cumprimentes, cruzo as mãos por segurança
Alma cingida em pacto de fé com a esperança
De ver um país onde possa sorrir toda criança
Não vituperes em gesto vil a minha inocência
És estrupício, voz de maldade, pura excrescência
Tintura de sangue, pacto macabro com a violência
Que hoje os jovens tomem por credo esta firmeza
Não dar a larápios os lauréis de votos pela esperteza
Também assassinos matando em miséria, fome e pobreza
VELHAS ÁRVORES
Árvore velha de esplêndida beleza
Que sombra de amor e carinho nos dá
Esguia e terna, do amor a destreza
Remanso das águas a ti vem beijar
Árvores mais novas esticam seu braços
Querem além do riacho, tocar em você
Buscam seu perfume e suas flores em cacho
Sua gênese e extrato querem absorver
Árvore frondosa em paz e ternura
As demais criaturas tu ensinas viver
Viçosa e bela em cores maduras
Quão doce ventura é abraçar a você
O sábio caminhante conhece o desvio
Que na beira do rio encontra a você
Ali deixa suas dores, seu tédio e fastio
E de mágoas vazio, então volta a viver
CUMPLICIDADE
Minhas alegrias são também as tuas
As minhas vergonhas para ti estão nuas
Nas minhas tristezas, o verter de tuas lágrimas
E nos meus devaneios a razão de tuas mágoas
O meu rosto marcado, diz o quanto te amo
Nos pesadelos da noite é por você que eu clamo
Sob os teus julgamentos, sou sempre perdoado
Até mesmo quando eu me confesso o culpado
Esta cumplicidade, para muitos: loucura
Para nós é o prazer e da alegria a ventura
E que me faz tão feliz, estar a ti enlaçado
O amor contagia, contamina o parceiro
Entre muitos pecados, o amar é o primeiro
Se amar-te é desvairo, me declaro aloprado
VI NOS TEUS OLHOS
Eu vi nos teus olhos
A fragilidade de meu ego
Neles também, quão doce é a esperança
Eu vi nos teus olhos
Que o amor é feito de encantos
E que saudade é apenas a busca de novos sonhos
Eu vi nos teus olhos
Que a amargura pode ser apagada
E que na ilusão reside alentos pra todas as almas
Eu vi nos teus olhos
O despontar da primavera
Que ao verão apaga e tinge de flores a mais tórrida terra
FLOR À MULHER
Aplausos às mulheres queridas
Lindas musas, encantos do verão
Também às cansadas, às sofridas
Amados adornos de outra estação
Às mulheres oprimidas,
Sem direitos e sem voz,
Maltratadas ou abatidas
Em injustiça vil e atroz
Às mulheres que lutam,
Resistem e que buscam
A igualdade de raça ou cor
Milenares guerreiras
Nessa luta altaneira
A vocês: esta flor
VISITA A XINGÓ
Vi um rio tristonho
Em represa de mágoas
E cascatas de sonhos
Na saudade a morrer
Nas pinturas rupestres
Sombras de amarguras
Que em tristes figuras
Insistem em viver
Assim como estas águas
Ali também a minha alma
Quer sua dor esquecer
Sangradouro espumante
Clama em voz retumbante
é preciso viver
JANGADA SEM RUMO
Musa que em noite bela
Navega sem ter direção
Flutua em jangada sem vela
Sem rumo, amor ou paixão
Pedras e ventos ligeiros
Nas sombras a te espreitar
Só o remo por companheiro
E nada mais pra confiar
Sai desse viver obscuro
Deixe a tua alma sonhar
Alegria infinda te espera
Venha em meu porto seguro
O amor e o afago encontrar
Aqui tua tristeza se encerra
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza