Carta ao Papai Noel
Meu querido Papai Noel, sou muito grato a você pelos presentes que você me tem dado todos os anos. No Natal passado ganhei uma bike importada e um game station. Fiquei muito feliz. Vovó me disse que você é um velhinho muito bom e que faz a alegria das crianças. Eu acho isso muito bonito. Não sei onde você mora, mas sendo assim tão bonzinho, deve morar perto do céu. Quero te pedir uma coisa: este ano, não me mande presentes, apenas me faça um favor: Sei que a sua tarefa é fazer as crianças felizes e minha mãe não é criança, mas é que ela anda muito triste, ultimamente. Assim, ao invés de trazer presente pra mim, você podia trazer uns presentes para ela. Eu não sei se você tem mãe, mas se tiver uma saberá que não há como ser feliz quando a mãe da gente está triste. Não sei o que ela quer no Natal. Se ela fosse criança eu até saberia, porque sei o que minhas primas gostam quando ganham de presente. Eu só sei que, às vezes, quando eu a vejo de joelhos orando, ela pede a Jesus algumas coisas que eu não compreendo bem. Já a vi pedindo sustento, carinho, compreensão, tranqüilidade e paz de espírito. Não sei o que são estas coisas, nunca vi ninguém brincando com isto, mas devem ser coisas boas, senão ela não pediria. Provavelmente você não tenha nada disso na sua oficina porque só faz brinquedos, mas morando aí perto do céu você pode ver com Jesus o que são essas coisas e trazer para ela no seu trenó de natal, quando vier à minha casa. O quarto dela fica depois do meu. Passe só depois de meia noite, porque ela demora a dormir. Ah! sim, mais uma coisa. Eu já ia esquecendo: Não diga a ela que foi eu que pedi isso a você. Quero ver o sorriso dela cheio de surpresa. Um beijo. Carlinhos.
ILHA DOS SONHOS
Encha-te de fé e sai outra vez em busca de sua alma gêmea. Não sabes como ela é, mas com certeza a conhecerás quando, em um só sorriso, tua alma for resgatada da tormenta e for levada de novo a sentir o cheiro da terra firme. Abandone o diário de bordo, crivo das tuas muitas lamentações, dê espaço amplo a alegria. Alegria esta construída no fiar de muitos sonhos e tecida nos desejos de uma alma carente. Fios sem o aço das juras eternas, sem a segurança do tempo, mas trançados nas ilusões hibernadas da juventude e amaciados pelo aguçar dos sentidos, os quais te lembram que deves ser feliz, ainda que por tempo incerto.
Não é fácil por de novo o barco n'água. Cada naufrágio vivido ressoa como pesadelo em noites de trovoadas. Porém, o amor te impulsiona e te diz que há, por certo, uma ilha deserta onde a desconfiança nunca atracou nem o egoismo fez morada. Nela sim, poderás habitar isenta de todos os teus medos.
O PESO DAS COISAS
Quem pesa mais, uma arruda de algodão ou uma arroba de chumbo?
A arroba é uma medida de massa e não de volume ou capacidade, assim
ambas as cargas pesam iguais. Engraçado, a piadinha é velha mas nos
ensina muito. As vezes renunciamos centenas de gestos de carinho por
causa de apenas um desacato. Damos muitos mais peso as ofensas do que
ao amor, embora em volume, os gestos de carinho são muito mais
abundantes. Detestamos as agressões. Todavia, damos a elas um local de
destaque nas nossas vidas. A fraternidade é registrada em areia, mas as
ofensas são gravadas em bronze. Se nos perdoássemos na mesma proporção
que perdoamos os outros, na certa nos mataríamos. "Assim como nós
perdoamos aos nossos devedores", nos ensinou Cristo. Perdoar é o ato de
conceder aos outros a misericórdia que almejamos. A justiça do
olho-por-olho foi revogada em Cristo porque Deus viu em nós uma
humanidade cega, não havia um justo sequer, nenhum caolho. Onde não há
perdão, reina a mágoa, a angústia, a depressão e a tristeza. Cristo foi a
personificação do amor, mas passou sua vida nos dando lições de
misericórdia. Não desperdices as aulas de Cristo, seja feliz!
ACADEMIA REVERSA
Os filhos são, quase sempre, juízes antes de serem advogados ou sequer se postarem como alunos do direito. Quando, por fim, aprendem a justiça a pena imposta já foi cumprida por inteira e o edital de reparação, quando ocorre, é póstumo. Soa apenas como uma cantiga de remorso a registrar que a imaturidade é a mãe da estupidez e, quase sempre, verdugo das relações fraternas. Não é à toa que a toga é preta!
MOMENTOS
Há momentos em que:
- Um abraço vale mais que um discurso;
- Uma lágrima fala mais que um alarido;
- O silêncio é a maior das expressões;
- A solidão é a melhor das companhias;
- O grito da alma é tão grande que não passa pela garganta;
- A atitude é a única voz plausível;
- A distância é única expressão de respeito;
- A alma chora, ainda que o rosto se esconda num sorriso;
- Que uma flor do campo é melhor do que as jóias.
DESCRENÇA
Não creio:
- No tempo como instrumentalidade do perdão;
- No arrependimento sem lágrimas;
- No amor que não se expressa em obras;
- Nas mudanças sem a firmeza dos propósitos;
- Na solidariedade dos discursos;
- No perdão cunhado em bronze;
- Nas amizades curtidas nos interesses;
- Na alegria regada no mosto;
- Na caridade do sobejo;
- Na ideologia da conveniência;
- Na fé que não enfrenta as tempestades;
- Na justiça dos impróbios;
- Na felicidade dos profanos;
- Na paz dissociada da decência;
- Na esperança não fundamentada na Cruz.
Happy Hour
Sai mais uma vez ao vento
Enche tua alma da brisa
Ventura do amor e alento
Que a toda dor cicatriza
Ainda que em tempo incerto
Teu ser, encontrar precisa
Oculto em um olhar discreto
A graça de uma Monalisa
Corre, abandona a carga
Vai de encontro ao destino
Há muita vida além desta serra
Apressa-te, a noite não tarda
O trem do tempo é mesquinho
Para pouco e a ninguém espera
CREPÚSCULO
Os velhos às vezes conversam demais
São casos enfadonhos e repetitivos
As coisas passadas, deixemos pra trás!
Prosas antigas nos cansam os ouvidos
As vezes em silêncio, com um olhar vazio
O velho se ausenta e mergulha no tempo
Busca refrigério num mundo esquecido
Nada mais nos fala é só seu o momento
Pra onde vai sua alma naquele mergulho?
Por que tanto se enoja e foge da gente?
É que é duro ser visto um peso ou entulho
Quem passou sua vida cuidando da gente
Ela vai para onde a mesquinhez não chega
Lá onde os velhos e novos são todos iguais
Onde os braços de Cristo é quem aconchega
Onde a velhice é apenas o alcançar da paz
A ECLOSÃO
De repente ela caiu em si - estava só. Descobriu que a sua fortaleza de pedra, intransponível aos olhos do mundo, a qual pensara por tanto tempo ser o seu refúgio era de fato o seu degredo. Lá isolou seus entes da crueldade do mundo, do desenfreio urbano e da lascívia do consumismo. Sua casa fortificada a consumira em cuidados. Passara os melhores dias da sua vida postada de sentinela, lutando para que as angústias da vida não atingisse aos seus filhos como havia feito com ela. A procriação transforma os sentimentos humanos. Troca-se o fascínio da aventura pela âncora da segurança. Faz do comedor de ovos um guardião de ninhos, da faladora desbocada a voz da prudência e o ditame da moralidade.
Tudo parece seguro até que os ovos eclodem. As janelas agora não são forçadas por fora, mas abertas por dentro em surdina à sombra da confiança. São os filhos que quebram as cascas dos ovos, por isso são chamados de rebentos. É dura e triste a sensação de ter lutado em vão. Os sonhos construídos na fornalha do sacrifício são agora desfeitos na moenda do descaso, da ingratidão explícita e no curtume da indiferença. O segundo parto dói muito mais que o primeiro. No primeiro o sonho alivia a dor, mas no segundo é o desfazer dos sonhos que provoca as dores. Num nasce a esperança no outro a desilusão. Num a alegria de conhecer quem chega no outro a tristeza de se desconhecer quem parte.
Já não sabe se chora por si ou por eles. A dor da desilusão é tão profunda quanto a amargura do desterro. Busca conforto no sentimento da obrigação cumprida, mas este foge dela lançando-lhe ao rosto a sua vida usada e o seu esforço inútil em favor de quem não o merecia. Posteriormente, depois de aprender a suportar a amargura da derrota, tentará achar no sorriso infante de seus netos o bálsamo de gratidão que lhes devia os filhos. Pensando bem, se tivesse a chance de recomeçar, faria tudo do mesmo jeito. Carregaria consigo a dor da abnegação vazia, mas guardaria sempre em seu bojo a certeza de que amou acima da razão e que tudo fez para que eles fossem plenamente felizes.
Brilho dos Olhos
Que tristeza é esta que te cobre os olhos?
Por que maculas tanto este rosto lindo?
Não já portou o Mestre: coroa de abrolhos
Pra remir-te das chagas e ver-te sorrindo?
Por que lastimas tanto os teus desenganos?
Por que não perdoas os teus próprios erros?
Já não foi imolado o rei soberano
Pra que a tua dívida tivesse um termo?
Afaste do rosto a sombra da tristeza
Brilhe nos teus olhos: luz e comunhão
Receba de Cristo a maior riqueza
A paz e a alegria, vindas do perdão!
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza