A ORAÇÃO DE JÓ
Restaura-me Senhor, te peço, tira-me do opróbrio
Não de bens e de filhos, pois destes já nasci pobre
Livra-me das chagas n'alma, eternos aguilhões da dor
Dá-me candura e pureza, condições básicas do amor
Tira-me a amargura da abnegação vazia e do rosto cuspido
Apaga de minh'alma a desilusão, o nojo e o pranto contido
Faze-me esquecer o outono com o despontar da primavera
Quero prazer no que eu sou, não mais a dor de quem eu era
O HERÓI DESCONHECIDO
Nós na escola estudamos
sobre heróis desconhecidos
suas história decoramos
e repassamos aos nossos filhos
Mas às vezes somos injustos
em manter no anonimato
não um herói, mas um vulto
que é lembrado em todo fato
Não tem história nem honra
para aos outros repassar,
sua vida é apenas vergonha,
não pode dela falar
Nunca venceu uma batalha
pois nelas nunca entrou
Mas sempre encheu sua mala
com o que um outro conquistou
Ele é do brio a negação,
um eterno escravo do medo,
um parasita entre irmãos
ou simplesmente: pelego
REVOLTA DAS ÁGUAS
Águas límpidas fagueiras, vivas em corredeiras,
felizes a cantar;
Planícies e florestas transformam-se em festa
sob o vosso comandar.
Águas inocentes, em um projeto indecente
vão te represar;
E seus braços viçosos, livres e vigorosos,
estão a canalizar.
Águas agora oprimidas, se arrastam sem vida,
num constante penar;
Vossa fauna sufocada, a morrer condenada,
não tem onde desovar.
Águas enclausuradas, sem canto, paradas,
jazem numa prisão,
Estais poluídas, opacas, sem vida,
cheiram a podridão.
Águas enraivecidas, revoltadas e unidas,
vão a barragem estourar,
E os restos tiranos deste casulo insano,
que se afoguem no mar!
BOLSA-ESCOLA
Condoa-se o rei com a mãe do fenecido
preste-lhe auxilio e amenize seu drama,
mas não divida da outra o filho vivo
nem chame de equidade a tal infâmia
Justiça não se faz com hipocrisia
nem se nivela por baixo a má sorte
Não se aniquila o caminhar dos que tem vida
para igualá-los na inércia da morte
Não se admite o ato salafrário
de dar bolsa-escola a um pequenino
tirando os direitos e o salário
daquele que ministra o próprio ensino
MÃE ROSEIRA
Diria que és rosa em perfume e beleza,
delicada e serena no seu jeito de ser
Mas se vista de perto, te digo: és roseira
em amor e afeto, abnegado viver
Os perfumes e as flores que enfeitam o jardim
são as tuas carícias dedicadas a mim
O ciúme o cuidado com que viver a me olhar
são agudos espinhos o jardim a guardar
Os botões que florescem com inefável vigor
são os rebentos do ventre, frutos do teu amor
Os insetos e pássaros na roseira a pousar
são amigos cativos de sua graça sem par
Cabelos assanhados em meio a aflição
são pétalas que voam sob o vento da dor
Teus olhos cansados por mais um serão
são folhas que murcham no abrasar do calor
As mudas tiradas, pondo o tronco a sangrar,
são teus filhos e filhas que pra longe se vão
E aqueles que partem para não mais voltar
são seus brotos tosados a tesoura e facão
Raízes profundas te fazem resistir
às intempéries que te vem açoitar,
Mas ao raiar da aurora tu já estás a sorrir
em perfume e em flores, o jardim alegrar
DEIXA-ME CHORAR
Deixa-me chorar, te peço, não me acalentes!
Minh'alma almeja suas mágoas dissipar
E não inquiras as angustias que ela sente,
são turvas águas que anseiam ir ao mar
Deixa-me chorar, te peço, os desalentos,
os devaneios, as loucuras e a solidão
Trazer ao peito adormecidos sentimentos,
regar em lagrimas meu espírito em sequidão
Deixa-me chorar, te peço, sem alarido!
Nenhuma compaixão quero despertar
Sufoco e silencio o meu gemido
Somente as lágrimas não consigo segurar
Deixa-me chorar, te peço, não me seques o rosto!
Que adianta minhas mazelas ocultar?
Se lá no íntimo o meu ser morre em desgosto
e o meu pranto é a tristeza a suspirar?
Deixa-me chorar, te peço, pras desventuras
lá do âmago de minh'alma eu desvendar
Buscar vestígios de tristezas e amarguras
pra nas recamaras do silencio as apagar
Deixa-me chorar, te peço, pois só em meu pranto
posso a doçura da vida reencontrar
Lavando em lágrimas de minha vida os desencantos,
pra em sorrisos o meu viver recomeçar
AMOR MORIBUNDO
No lado esquerdo
da cama e do peito
há um vazio profundo
Já não há alegria,
calor, euforia,
nada a palpitar
O rugir de sua fonte
é o som do desmonte
de um amor moribundo
Que suspira latente
e sofre penitente
sem querer se entregar
Quando o amor vai embora,
o que fica por fora
pode até enganar,
Nas não vibra nem canta,
não abraça ou encanta,
não há como negar:
É uma trova sem rima,
sequidão na campina
esperando queimar
Triste de quem não assume
o apagar de seu lume,
para recomeçar
VIAGEM INSANA
Excesso de amor na bagagem
tornou o marujo insano,
pois nem percebeu ser miragem
o que julgou ser oceano
Em seu insano desejo
no mar do amor foi navegar
e nem da verdade o lampejo
fez o marujo acordar
Ao cais do desdém amarrado,
seu barco nunca partiu,
mas pelo amor obcecado
este detalhe não viu
Em seu diário da vida
a ventura do amor descreveu
e não há expert que diga
que ela nunca aconteceu
De volta ao porto, cansado,
o marujo por fim voltou
e seus olhos contristados
são prova de quanto amou
Se foi verdade ou loucura
já ninguém sabe dizer,
mas um amor com tal ventura
todos são loucos pra ter
MAGIA DOS OLHOS
O teu olhar é como um passe de magia
loucura, embriaguez, fascinação
Tem o brilho, a avidez e alquimia
que detém a minha alma em prisão
Esses teus olhos são maldade e pecado,
pois alucinam o mais puro do meu ser
- de cidadão, tornei-me fraco e viciado,
pois já sem eles não consigo mais viver
Atentem, desde já, ó autoridades
e venham a essa torpeza pôr um fim
Protejam os cidadãos desta cidade
pra que ninguém eles viciem além de mim
ASAS DOS SONHOS
No mundo dos meus sonhos é plena a vida
Lá sou teu e és minha, como a brisa e mar
Sem que dolo ou temor nos restrinja ou iniba,
tudo é belo é carícia, é um eterno bailar
Bendita madrugada que a Morfeu nos entrega
E no país das delícias nos faz mergulhar
Que importa se é sonho, ilusão ou quimera?
Deixo a magia dos sonhos minha vida guiar
Descobri que o sono é a saúde do corpo
Ao dormirmos a força nos vem renovar
pois sonhando contigo eu acordo mais moço
para mais uma vez tentar te conquistar
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza