FLORES AO VENTO
Tudo são flores no coração da menina
Tão linda, tão meiga, nada de mal imagina
Enlouquece a família, incendeia a campina
Já seus rastros farejam, lobos em cada esquina
Quem consegue livrá-la, da tragédia eminente?
Como enfim desviá-la desta água corrente?
É fogo de capoeira em um relevo ascendente
Só no fim da queimada é que escuta a gente
Quantos sonhos perdidos em ações levianas
Quantas belezas mortas, sem sair do pijama
É tão triste ver ninas, sem sorrir virar madres
Pois legislam iníquos que decência não sabem
NÃO QUERO AMAR-TE
Não quero amar-te, tu já bem percebes
O quanto eu blindo e guardo a meu peito
Fortaleza de assombros a dor entregue
Ruínas e vis restos de amores desfeitos
Não quero amar-te, mas não é por covardia
Sou volúvel como a brisa aos teus encantos
Mas é que o amar que me seduz, por ironia
Foge de mim e faz-me réu dos desencantos
Melhor vazio de ilusão estar ao teu lado
De seu carinho a cada dia, ser mendigo
Do que eu ver meu coração apaixonado
Cair no hades ao teu fugir do paraíso
Não quero eu te amar, pra quando fores
E ignorares tudo o que eu sinto por você
E não ver se transformar todas as flores
Somente em ódio e ignomínia do viver
RETROSPECTIVA
Hoje eu retiro de mim toda palavra muda
Sentimentos ocultos, quais eu nunca escrevi
Volto lá na infância pra liberar toda a culpa
Amarguras e erros dos quais nunca esqueci
Me desfaço da carga que carrego nos ombros
Pesadelos e assombros do que não pude fazer
Me desgrudo do mito, para ser só o homem
Que mesmo trôpego e insano, viveu por você
Quase nada eu fiz certo e eu erraria de novo
Se ao sair do meu ovo, eu voltasse a te ver
Pois não há homem esperto e tão cauteloso
Que resista a este charme que habita em você
SAPATINHOS
Tantos sapatinhos vazios
Flores de amor a murchar
Humanos que em desatino
Celebram o poder de matar
Perdem seu verde-esperança
Milhões de sapatinhos de amor
Nas leis que condenam crianças
Em funestos laços de horror
Usam com cinismo e escárnio
Da reprodução o bem-fazer
Tal qual quem joga baralho
Descartam a vida de um ser
Clama e chora a natureza
Sapatos vazios a postar
Denunciando esta torpeza
Orquídeas contra o abortar
CASAMENTOS E SONHOS
O casamento dos vinte é apenas uma planta baixa, lá se enveredam os sonhos de jardins suspensos, vista para o mar, suítes aromatizadas e tudo mais que a imaginação juvenil comporta. Lá não faltam os recursos nem a flexibilidade para se adaptar aos diferentes gostos. Só quando se assina o contrato é que se percebe que o projeto é falho. O solo não é suficientemente estável, falta coragem para encarar o duro desafio de estudar, levantar cedo, fazer concursos, etc. Também é a hora que se passa a perceber os materiais desejados têm que vir de longe, que custam caro e que muitos deles são inacessíveis. Aí é que o bicho pega, reduzir sonhos não é coisa fácil. A flexibilidade é boa para a ampliação, mas para contrair expectativas costuma ser indomável como uma mula. A incapacidade ou a falta real de desejo de cada um começa cobrar o preço e o projeto dos sonhos fica no alicerce com os protagonistas acusando um ao ouro pelo insucesso. Mas há também os casos em que um é o constritor e o outro apenas o projetista compulsivo, amplia o projeto a cada dia enquanto o outro se sufoca nas readaptações intermináveis e inconseqüentes. Um dia, a paciência se esgota e a obra para de uma vez por todas.
O casamento dos quarenta é algo mais prático, a casa já está com a laje feita e basta algum esforço para que a mesma seja concluída. O problema está na reforma, cada um dos protagonistas espera mudar o gosto alheio para que a casa venha ser aquela que sonhou na juventude. Um espera que o outro mude suas atitudes, que faça regime, que aprenda a cozinhar, que volte a estudar, que pare de beber, etc. É uma espécie de engodo consentido em que cada m acredita que o seu charme mudará as coisas. Quando a obra recomeça é que se percebe que ninguém muda ninguém, a parestesia da preguiça juvenil continua operante e agora amparada por muito mais desculpas, como cansaço, simplicidade, etc. Mais uma casa condenada ao monturo ou a ser eternamente inacabada pela falta de coragem de se derribá-la para começar uma outra. Assim jazem muitas edificações nas nossas cidades.
O casamento dos cinqüenta costuma ser uma edificação mais modesta. Não há grandes reformas a serem executadas. Já não há torres, adegas, mirantes e aquelas loucuras da inconseqüência juvenil. A reforma só é planejada com os materiais que se tem ao bojo, restos das construções que cada um já tentou edificar. As exigências de acabamento agora são bem modestas e o que importa é que no aconchego da tranqüilidade se possa viver em paz. Os protagonistas agora querem apenas uma janela com blindex de onde possam ver as construções alheias e refletirem como a vida poderia ter sido bem mais simples e a felicidade alcançada nas pequenas coisas.
DIA FUGAZ
Nasce o Sol e assim como a aurora os sonhos
Repleto de ilusão, o amor surge risonho
A luz invade o mundo, já nada é obscuro
A jovialidade desconhece qualquer muro
Caminha rápido o Sol, ninguém percebe
Sua sombra é fugaz, derrete-se a neve
Mui breve toda soberba esvair-se-á no tempo
Como rastros na areia ao respirar do vento
Só quando o Sol se põe é que nós percebemos
O quanto usamos pouco o muito que tivemos
E quando todo projeto na escuridão for nada
Aí sim, entenderemos quão curta é a jornada
Os últimos raios de Sol coram em dor sua tristeza
Rubor de desencanto, dos muitos erros a certeza
Já a jornada é finda, vem com a noite os pesadelos
E na sombra da demência, a paz por esquecê-los
VELHO CHICO
Meu rio São Francisco, de longa história
Das antigas dores, das velhas memórias
Do serpentear tristonho entre a caatinga
E do morrer cansado em meio a restingas
Como o velho Chico, assim são minhas dores
O morrer de sonhos e o sofrer de amores
Cesta de amarguras a se arrastar no tempo
Desaguar de lágrimas a rolar sentimentos
Seus sonhos infantes de mil corredeiras
Morrem em Três Marias, amante faceira
Lá começa a sina de sua bancarrota
Amor de menino, paixões por canastras
Vai se ressentindo, vai perdendo a graça
Colhe águas de mágoas para lavar outras
SAUDADE EM GOTAS
De repente, as flores se curvam ao tempo
Some o perfume de calorosos sentimentos
E a negra sombra da noite ao ninho invade
Regam agora os olhos, lágrimas de saudade
Não há mais festas de faceiras borboletas
Nem querem as vespas o sabor do seu mel
Tua alegria de primavera se tornou em seca
Nem os teus olhos ousam contemplar o céu
Adorna a tua face o teu choro cristalino
Num pranto de saudade do teu viver ladino
Onde o amor, tu sabes, por certo floresceu
Botões de esperança brotam dentre os ramos
Quem sabe o amanhã afugente os desenganos
E ainda volte o amor a morar nos braços teus
PENDÃO DA PÁTRIA
Ah meu pendão da pátria mutilado
Arvora ao céu, procura ar, asfixiado
Maldita podridão, em frente e aos lados
Abutres infestam o céu do meu cerrado
Atraídos pelo mau cheiro putrefato
Que exala entre a câmara e o senado
Pudesse eu arrancar tua bandeira
Arvorá-la bem longe da bandalheira
Desta praça da infâmia brasileira
NOME DE LUGAR
Você já deu nome a uma rua ou praça? È quase certo que não, mas eu, acidentalmente, batizei uma. Há cerca de quinze anos, a prefeitura de Sobradinho-DF criou o Conselho Participativo, que se reunia uma quinta feira por mês, para definir o que devia ser feito com o orçamento da cidade.
Eu tinha uma casa no conjunto G da quadra 13, em uma das ruas mais baixas da minha quadra. Infelizmente, quando ocorre qualquer entupimento na rede de esgoto, é por lá que transbordam os dejetos humanos.Tal fato aconteceu no ano de 1992, o esgoto vazava na esquina do conjunto H, uma rua abaixo da minha, e corria caudalosamente para o riacho, mas o mau cheiro não conhece fronteiras e invadia a minha privacidade. Procurei o a prefeitura, que ao invés de cuidar de resolver o problema, me mandou ir na quinta feira para registrar o fato junto ao Conselho Participativo.
Na quinta-feira, sai do meu trabalho e fui ao dito Conselho. Após duas horas de espera pude finalmente registrar a tragédia a que eu estava submetido. Aguardei mais de uma hora para ouvir o veredicto: eu deveria re-encaminhar minha demanda no próximo ano porque as obras prioritárias daquele ano já estavam definidas.
Deixei passar mais uma semana, foi então que, nas altas horas da madrugada, fui até ao local do transbordamento do esgoto com uma grande escada e fixei com arame uma enorme faixa em letras garrafais: ' NÃO ESTRANHEM O CHEIRO, AQUI ESTÁ O CU DO PT'. Menos de doze horas depois havia um alvoroço de máquinas trabalhando para resolverem definitivamente a questão. Todavia, aquela esquina é conhecida até hoje pelo incólume nome de 'CU do PT'.
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza