NOSSOS PECADOS
Sei que gostar delas, sequelas vão lhe causar, quirelas alimentam os bicos Que quando se bicam, provocam atrito, como delito, pretendem classificar, Abandonam na terra as pedras que não podem jogar, valentes e covardes, Pelos dias, noites e tardes, vivem sempre em maquinação, raça de víboras. Quem recebeu perdão, ouviu também o não peques mais e arrependeu-se, Essa parte não consigo mudar, flexibilizar nunca foi o meu forte, sem sorte Na escolha da defesa, católico praticante, em nada melhor, sem vergonha, Por conhecer o certo e não executá-lo, a minha cobrança será muito maior. Como artista, acho lindo, como homem, mais ainda, ainda que irrelevante, Uma opinião pessoal não significa muito, celebra nosso respeito, amizade, Lá dentro ninguém quer saber disto, tudo será visto como o quiserem ver, Eu sei que as coisas mudam, só não posso escrever o terceiro testamento. Você sabe o quanto acredito em casamento, foi ele o meu projeto de vida, Os filhos que não seguram o dos outros, seguraram o meu, só que morreu Pouco antes de te conhecer, o que sobrou, não terá grande valia, nostalgia Propícia para entender a impossibilidade de defesa, aceitemos a sentença.
NOVEMBRO
É novembro, eu nem me lembro da última vez que respirei assim aliviado, Que me vi extasiado com uma foto onde noto que a felicidade deva estar, Onde também possa desalinhar o cabelo de quem encontre por lá, ah, vá, Não se dê por desentendida, menina atrevida, conheço sua sede de amar. Eu quero um mar de ondas que desvendem o seu corpo, esse seu porto Onde quis ancorar, mal posso esperar para pisar na terra bendita e aflita, A fome dita qual velocidade empregar para varrer, o território peremptório Ousei percorrer da forma mais descabida, em cada subida senti o prazer. Você sabe entregar mais do que foi pedido, ainda aturdido, quero voltar, Desde o início, seria esse um indício que isto nunca iria parar, até varar, Trinta noites de férias, etéreas como as nuvens que se movem e morrem Enquanto escorrem as últimas gotas de suor que o vento veio arrefecer. Agora as águas dissolvem o atrito e o que foi dito como um grito irá soar, Ressoar como promessas descontentes, que não aprenderam a esperar De dezembro a outubro, neste rosto rubro por bobagens que vivo a dizer, Pelos feriados, todos planejados para que você não consiga me esquecer.
MUITO ACIMA DA MESQUINHEZ HUMANA
Tenho quase tantas horas de dores quanto de vida, vida comprida, Ainda me causa espanto essa capacidade de pessoas suportarem Por dias, horas, meses e até anos, sensações extremas, algemas Apertam cada vez mais e quem saberá ou poderá enxergar o fim? Fim de tarde, não do dissabor, chamaria de heróis, dizem que não, Mas, quem resiste ao que lateja sem cessar, sem dizer se irá parar, Tudo vira loucura, é tanta tortura, é tanta tontura e, mesmo o ferro Se curva ao fogo, eu já sinto o cheiro de sangue após o bangbang. Olho tantas covas prontas e enterros, aqueles aterros a céu aberto, Minha hora ainda não chegou, quem apostou perdeu, essa não deu E nem vai dar certo conspirar, pois sei que o poder de Deus é maior Do que o esforço concentrado, executado por pessoas más e ruins. Para quem perdeu tempo não tentando ser feliz, saiba que eu estou, Sem me preocupar ou até lembrar da existência, sobram aparências Em interiores vazios, tão frios, que não sabem ainda o quanto é bom Não dever nada para ninguém e olhar este horizonte lindo, bem azul.
MIL MOTIVOS PARA AMAR
Por mais que existam estradas, por mais que existam destinos, Um instante muda tudo, deixa agudo o que antes adormecera, O que antes se perdera entre atalhos, entre galhos envergados Pelas mãos que buscam frutos prontos a deliciarem seu paladar. Quem plantou, quem descuidou, quem, ainda assim, o viu brotar No pomar, o melhor lugar, ao luar, ao chegar perto, no despertar Do sorriso que não finda, enquanto há, ainda, um beijo latejante, O frio incessante das madrugadas, dos madrigais e, dos pardais. Mil motivos para amar, para deixar para lá o que só machucava, Eu só precisei de um e você vai pensando o quanto é suficiente, Se o tempo ausente apagou tudo deixando escuro todo o quarto Que reparto com a solidão e com os poucos livros que acumulei. O sim rápido se arrepende se intacto o pacto não quer consolidar Enquanto o não arrastado deixa arrasado o olhar, fica a esperar, Irá transformar terras ávidas em ácidas e, como você bem sabe, Pouca coisa cresce em solo hostil, perceba, até o sabiá desistiu.
MORADA
Eu não entendo as voltas que a vida dá e que você aumenta Enquanto tenta explicar porque prefere fugir do que buscou, Do que a vida generosamente concedeu sem cobrar por isso. Coisas são como são, pessoas tomam decisões e, às vezes, Criam distâncias seguras, alimentam ilusões, adiam perdões, Trancam em porões os melhores sonhos de vida e liberdade. Quem poderá impedir as piores escolhas e o cair das folhas, Que cresceram ainda outro dia e que os ventos carregaram? Eu já não preciso de consolo e nem busco aconselhamento, Enquanto este perfume se dissipa no ar, sem deixar feridas, Mantenho vivas as convicções quanto ao gostar de ser feliz. Abraço minha sorte como quem vê o céu azul todos os dias, Sabendo que cultivar o amor é vê-lo invadindo este espaço, Criado por você, mas, que não me impediu de ir em frente. Quem ousará dizer que não tentei encher de brilho o olhar, De quem veio de tão longe e agora sabe que mora comigo?
LUA DO AMOR DIVINO
Gosto de escalar montanhas, de ficar mais perto da lua, do amor divino, Procuro encontrar um motivo para cada nova escalada e ali me deleitar Entre o silêncio e a respiração contida, entre gaivotas, águias e feridas. Diversas culturas, diferentes relevos, sempre mantenho a cabeça vazia Como se nada mais existisse entre o céu e o precipício, só o bem-estar De proporcionar paz de espírito, de meditar, orar, amar, perdoar e viver. Quem dera o tivesse sempre como ofício, como o vício que não faz mal, Mas, tudo ficou lá embaixo, aguardando pacientemente pela minha volta, Feito a mão que não solta do pai, por sentir medo, por querer aconchego. Tenho apego por coisas, pessoas que conquistei, os caminhos que trilhei E sempre retorno como quem revê o velho mestre e, que volta a aprender, Sem saber se a lição de ontem servirá, se quem aprendeu agora ensinará. Eis que a vida, que não gera vidas, fez outra vida se tornar melhor e vibra, Porque encontrou um sentido, porque encontrou o amigo e o amor brotou E agora quem plantou um sorriso, beija a flor, escreve umas histórias, crê.
NOVOS PAPÉIS
Quando o amor precede um desejo, o beijo fica muito melhor, Seu corpo reconhece quem conquistou e quem se aventurou, O coração não esquece quem cativou e o fez bater mais forte, Quanta sorte por conhecer, explorar e perder todas as rédeas. Já não precisa de convite, se quiser grite ou chore de prazer, Só não espere que eu vá parar, mesmo querendo descansar Um impulso virou seu mundo, respire fundo, basta se render Enquanto se contorce, torce para que o momento não acabe. Seu olhar perdeu a inocência, o caminhar vai com indolência Onde a coragem alcança, seu lado criança, aquele tão bonito, Por vezes anda descalço, abraça o perigo e segue sem rumo, Sem pensar que cada escolha trás uma consequência, e daí? É mesmo hilário esse acesso de loucura, a cura com desdém, Tanta vida vivida pequena e onde sua voz sumia, dizia amém, Agora segura, não atura desaforo de ninguém, vai mais além, Provoca a cena, convida à figuração, quem já foi protagonista.
NEUZA
Tenho mãos que deslizam, contornam cada uma dessas curvas sem fim, Eu me aproprio dos sonhos e quero seus olhos verdes reluzindo em mim, Enquanto os corpos dançam, enquanto lançam toda a sorte de encantos Que a imaginação permita, o coração não resista, a manhã possa chegar. O tempo rompeu as barreiras, invadiu as fronteiras e esqueceu de voltar, Mesmo com lareira, a clareira trazia o seu brilho de outro fogo a queimar, Enquanto ardia, nenhuma sede resistia e ninguém iria se atrever a parar, Mas, a energia é finita e, a vontade que fica, jura que algum dia irá voltar. A saudade nasce do aceno, de tudo que é pleno, ela encontrou seu lugar Para morrer, também renascer, para seguir atormentando quem a cultive, E se a vive, é porque conheceu o amor, é nele que tudo acha um sentido, Mesmo num dia corrido como este, encontrou um momento para namorar. Agora que existe afinidade, a intimidade migrou para uma ligação estreita, Para aquela mão direita com quem se pode sempre contar, vou mergulhar, Espalhar aos quatro ventos, aos ouvidos menos atentos, por este achado, O corpo suado pode enfim descansar, aqui tem tudo que sempre busquei.
NOSSA ESTRADA
Eu não sei se são olhos de mar, de céu, de janelas da minha vida, Talvez esse corpo aos 20, 30, 50 ou 100 anos, meu doce repouso, Quem sabe esse jeito de interior, de café fresco, de fogão à lenha, A varanda, a cadeira de balanço em movimento e tão nossa casa? Filhos que ainda não nasceram e rosas que ainda não cresceram, Os frutos fartos como os riachos que não secam, somente brilham, Seria a pequena sereia que cresceu e que canta cada vez melhor, Areias fofas que recebem, que massageiam a pele tão sem juízo? Não tenho a menor idéia se poderia ser mais uma história de lutas, Esses campos e uns grampos que caem quando ela corre de mim, Os dois seios que alimentam minha criança mimada e ainda ávida, Aves que riscam os ares, certos lugares, em que teimas em reinar? Não sei se acreditaria se eu falasse quanto o amor faz doer, moer, Ele clama cada segundo por viver, morrer, quer renascer por você, Mas, como não sei mais o que fazer com tudo isso me consumindo, Me entrego, aceito seu sim e o seu não, aperto a sua mão, prossigo.
NATHALIA
Bem vindo seja o pássaro que me acorda de manhã É como um amigo mandando um recado: Venha depressa, o dia nasceu Voando este ser tão querido, não sabe o bem que me faz Com ele aprendi a cantar coisas boas e simples da vida Meu irmão, te quero aqui dentro do coração Meu irmão, tua presença me deixa em paz Quem dera eu fosse um pássaro a te acordar de manhã Te desse um beijo, um abraço E te alegrasse sempre Lia Voando para você minha filha, que não sabe o bem que me faz Contigo aprendi a cantar coisas boas e simples da vida Nathalia, te quero aqui dentro do coração Minha filha, tua presença me deixa em paz