Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Não tenho caneta nem papel só tenho cortes e desenhos na pele água em torvelinhos pela cara e fel.
Dos lábios longe longe o começo.
Envelheço.
Os cortes afundam-se, poços vazios, vacilando, vendavais.
Num espírito fraco sem esperança de um sol que promete e nunca vem. Escrito a 31/05/2018
585
Superstição
A minha resposta cega no final dum caminho longo e ostentoso e asas de um véu aquoso. No fim, um ponto sem penas, nem carinho uma ave aveludada, depenada e desgraçada.
Graças divinas de olhos, suaves lamparinas de onde escorre óleo de palavras por papel. Papel que não tens nessa peça que escreveste. Rabiscos autorizados pelas deusas felinas.
Ronronam de leve a se esticar e a enrolar um fio de novelo grosseiro e embaraçado, como o carmim da tua cara quente e clara, em luz tornada, voltas a rir e a cantar.
Canta uma moda, uma qualquer, não sei. Nem tu, nem ninguém, não sabemos nada. Nadamos por aqui e por ali em limos e limamos arestas para agradar ao rei.
A coroa não é nossa, nem o será. Cera escorre-nos pelos dedos trémulos. Terminados e assustados e medrosos. O medo que nos nasce nos ouvidos.
E se a superstição queimares, o melhor e que com mais dor puderes, esperando por sortes melhores, nasce-te alento pare te deitares. Escrito a 24/06/2018
539
Ver sem ver
No mesmo lugar, sem se encontrar. Sem se conhecer, para quê ver? Ruídos altos e desconexos, sem ritmo, pauta ou rima. Desdém? Oh, não, assim não, por quem?
Emoção exclusiva para porcos. Pelintras petulantes e peganhentos. De vozes roncantes e ideais, sempre ocos e iguais.
Aqui é fascínio puro e ligeiro. Porque lá estão, no recinto. Porque pisam a mesma brita. Porque na multidão labirinto, se se cruzassem não se viam, naquela poeirenta área restrita.
Escrito a 23/06/2018
544
Mãos
Esfacela-me as faces, devagar. Pétalas de mãos macias de magnólias, purpúreas e pálidas de cheiro aleivoso. Alto está o céu áspero e estrondoso.
Árvores abrem-se. Breves. Em tremores. As cicatrizes cinzentas, os tambores, rufando sem alento porque as mãos são purpúreas e pálidas e pontes.
Voz vaga e longe daqui e nas faces que esfacelaste, porque de raiva assim to pedi, os teus dedos meus usaste.
É longe, o mar é vasto. As águas movem-se e vão. Deixam-nos, sem dó, a léguas. E não há perdão.
Escrito a 21/06/2018
568
Rearranjamos
Mas olha o que está
à frente
ou aqui atrás.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Escrito a 30/03/2017
693
Consenso(no)
Chega o sono falso. Suspenso, é um balão. Desliza, cobra, sorri, pelo preto corrimão.
Abre-me as hastes, flores flamejantes, que brilhem ao sol como elefantes.
Se vou e não fico, não quero, é aqui. E não sabes se vi o lance levante.
Nas escadas da loucura olhamos à frente e, e... E quê? Eu porque não olhei não vi, a fogueira azul escura.
Se a vontade me chegasse, se a vontade me levasse. Ah, a cobra murmura, no fundo da escada escura.
Escrito a 20/06/2018
640
Milénio Prometido
Roubado o futuro das mãos tenras. Os dedos moles, quebradiços, como os sonhos que não tínhamos. Que nos fizeram crer que podíamos ter.
Agora em volta, a toda a volta, em chamas mais altas, mais altas que as vozes. Labaredas encarnadas, descontroladas, velozes.
Reduzidos a cinzas, os sonhos. O cheiro acre, ácido, nos olhos, das promessas vazias.
Como queda agora tudo a toda a volta vazio.
Escrito a 17/10/2017
492
Por essa
Pela poesia que transforma em grunhidos canções. Aquela que desenforma firmes convicções.
Pela poesia que rebenta com os olhos nas órbitas e a língua na boca. Explode apaixonada! Encara a bola do mundo oca a alvorada!
Pela poesia que arrefece fogo adentro. A mesma que aquece gelo adentro.
Escrito c. 24/05/2017
543
Na parede
Na parede. Na parede, dura e fria, é que agora ia. Isto já fede.
A tremer, no lixo, no lixo, a tremer. As minhas mãos sempre a tremer.
Só na parede. Espatifar. Contra a parede. Em mil pedaços. D e s p e d a ç a r.