Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Meus versos são vozes de um farsante, Leal inconfidente artífice de ilusões, Aleivoso trovador cantando alegorias, Apanhando pelo caminho de aventuras, Os inúmeros eus caídos da existência, Trovejando emoções no céu ansioso, Atmosfera onírica preexistente.
Dialético jogo o meu ser agrega, Lançando ao vento falas convergidas, Postiço sentimento ao espelho, Abstraído nas causas obscuras, Imitando a estranha camuflagem, Imagem das massas ruminantes, Aduzindo cúmplices de um pensamento.
Delibera o espirituoso zombeteiro, Palavras em outras palavras mórficas, Paradigmático enredo entre labirintos, Sofrendo sem sofrer a dor sentida, Amando o amor que não se almeja, Enigmático paralelo de afeições, Condicionando congêneres disparidades.
Sirlânio Jorge Dias Gomes
743
Sentido
Poesia é a composição de si no outro, Esculpindo pensamentos de todas as cores, Duas coisas que n'alma se revela, Beijando a humana flor das emoções, A transpor o infinito das palavras, Realidade constante de sentimentos, Resvalando o lume da imaginação, Instigando a natureza enfermiça.
Poesia são laços que se unem, Mosaico de ideias a refletir sensações, Maquiagem do abstrato nas mãos do artista, Êxtase da verdade retratada no silêncio, A dar vida ao que antes adormecia, Beleza diversa revestida de invólucros, Viajando entre o tudo e o nada, Aos olhos que tudo veem e nada percebe.
Poesias são alegorias divertidas, Enigmáticas generosidades assentidas, Transmutando labirintos na mente louca, Dando vozes aos mudos falantes Visão aos cegos que tudo vê, Vagando nas inconstâncias da vida, Subindo as escadas do tempo, Pleiteando a imortalidade.
Sirlânio Jorge Dias Gomes
757
Ventura
Entreabriu-se plenamente ao meu coração, Deu-me o olhar guia do meu desígnio, Cultivou minha alma no amor, Alimentou-me com os frutos do desejo, Desnudou-me da tristeza injuriosa, Florindo as delícias do sentimento, Além do que pude imaginar.
Meu mundo se refez ao seu toque, Meu riso chegou ao céu, Depois de tanto tempo de penumbra, Tudo isso é felicidade em mim, Beleza grandiosa que me encanta, Poetizando a vida revivida, Depois do meu funeral.
O sol está brilhando depois da tempestade, Finalmente posso plantar a semente, Ver brotar a árvore da vida no meu jardim, Regá-la toda manhã com a esperança, Vê-la crescer enquanto aguardo a despedida, Adormecer junto dela sem medo, Acordar no paraíso sabendo que valeu a pena ter vivido.
Sirlânio Jorge Dias Gomes
747
Audácia
Corro no chão batido em direção ao gol, Lanço a bolinha de gude no alçapão, Desço no carrinho de rolimã, Chego em casa sujo de poeira, Após um longo dia de aventuras, Na beleza de uma infância saudável, Pensando no dia seguinte, Antes ou depois das aulas.
Tantas alegrias de dias que se foram, Amigos que partiram em seu tempo, Histórias gravadas da memória, Todo amor do mundo cheio de simplicidade, Alegria até na tristeza do dedo ferido, Ou joelho ralado das peripécias, Presenteado com puxões de orelha, Ou até mesmo uma tunda.
Bela infância de uma ascendência única, Que qualquer presente dado, Era a melhor coisa do mundo, Motivo de longos sorrisos, Brilho nos olhos de um ano inteiro, Pedido atendido do papai Noel, Descobertas de uma vida, Aprendizagem para a maturidade.
Há tanto entre uma geração e outra, Juventude sob o risco da morte precoce, Aventurando-se na desobediência, Na loucura do desconhecido, Longe da sabedoria dos pais, Buscando a própria sorte ao vento, Bobagens dos mais velhos caretas, Sepultando jovens na cova da rebeldia.
Sirlânio Jorge Dias Gomes
695
Simbiose
Abençoada arena da minha deformidade, Espelho inconformado do meu eu intimidado, Imitando as travessuras da minúscula vida, Provocando a insuportável alma, Aos pleitos inflamados do medo, Rasgando a dor entre laços, Cultuando a miserável luxúria, Covardia do ser abatido.
Da altura da minha soberba despenco, Flutuando no espaço da mesquinha loucura, Vestida de vento debochando do escravo, Todo solene em seus nobres grilhões, Feito de tudo que é mais precioso, Possuindo tudo sem nada ter, Rindo da própria tragédia, Pronto a abraçar o seu infame destino.
No meio do caminho grita o nome da morte, De braços abertos sem cobiçar as núpcias eternas, Galante encontro de mágoa contrita, Lançando flores no leito petrificado, Sentindo o gosto insentido do fel ultrajante, Abissal embriaguez do noivo aguardado, Em seus trajes estranhos ao banquete, Abstrato conúbio indelével.
Sirlânio Jorge Dias Gomes
787
Mefistofélico
Tantas curvas pelo caminho! Pessoas se agridem sem temor, Trazendo em seus corações, Sentimentos inglórios, Lançando pedras pelo ar, Enquanto se ferem feridos, Pela dor em suas almas, Cheios de si no vazio de tudo.
Medos combatendo medos, Perdidos nos caminhos da discórdia, Defendendo-se do desconhecido, Antes mesmo de serem atingidos, Fingindo amizade aos amigos inimigos, Alimentando os corvos no jardim, Fantasiados de bons convivas, Imerso de ciúmes invisíveis.
Tantos olhares indizíveis, Indescritíveis banalidades do afeto, Bombas relógio da covardia, Dilacerando a beleza da vida, Nos estilhaços da indiferença, Matando os dissemelhantes iguais, Causa estranha do heterogêneo juízo, Atrocidade de um mundo decaído.
Há quem diga do monstro voraz, Sem reconhecer a humana disposição, Dos demônios silenciosos escondidos, Mentiras astuciosas travestidas de bondade, Sementes cruéis da flor da maldade, Embrulhando a caridade cheia de veneno, Nos mananciais das intenções ardilosas, Feito anjo da morte repleto de luz.
A beleza do falso amor entorpece, Leva ao caos a harmonia das coisas, Desequilibra o universo que nos une, Diminui os batimentos da existência, Fechando nossos olhos ao além, Retardando a evolução invisível, Hermético saber do espírito aguardado, Inconcebível ao injurioso mundo sarcástico.
Sirlânio Jorge Dias Gomes
731
Arbítrio
Amor! Há tantos amores no amor, Que o próprio amor se confunde, Em meio a tantas identidades, Reciprocidades de proporções vazias, Vagando entre sentimentos frívolos, Devorando a sensatez enlouquecida, No carente coração aos gritos.
Amor? Voluptuoso tempo ao lúbrico deleite, Lapso de almas adjacentes ressentidas, Vagando entre as ilusões iludidas, Mistério premente do corpo apressado, Furtivo enredo castigo da liberdade, Premeditando a infelicidade ao louco desejo, Despindo o inconveniente eu aprisionado.
Amor... Haverá de ser em si como aprouver, Consoante calma ao anseio da vida, Causa do destino amparo verdadeiro, Sentimento mútuo coerente felicidade, Seduzindo a amizade apaixonada, Amando o que deve ser amado Sem medo de encontrar-se.
Essencial, Amar o amor ao tê-lo, Vivenciar a autenticidade das coisas simples, Perceber-se no outro na razão de ser, Sorrir, abraçar e beijar, A fidelidade ao conjugado olhar, Ser livre numa comedida liberdade, Sem aborrecer a harmonia que o precede.
Sirlânio Jorge Dias Gomes
692
Atitude
É como se eu estivesse no alto de uma montanha, Olhando o mundo em todo o teu amor, Buscando a força de tanto sentimento, Sabendo que me acalma quando me toca, Todas as coisas se tornam menos difíceis, Ao ter tua presença ao meu lado, Diante de tantas coisas girando ao nosso redor.
Sinto-me como se pudesse voar para sempre, Beijando a liberdade refletida nos teus olhos, Uma loucura santa diante de tanta beleza, Flertando com a noite para que nunca se acabe, A felicidade de termos a lua como testemunha, Diante do imenso céu da esperança, Em não perder as batidas do coração.
Os sonhos são iguais a noite e o dia, Trazendo em si a intensidade de um momento, Dando cores as emoções imprescindíveis, Olhares diuturnos em todas as direções, Imitando as nuvens do céu, Imagens da nossa existência audaciosa, Explorando as estradas do destino.
As tuas mãos são minhas, Unidas ao mais íntimo querer, Dialogando com a vida em seus bordões, Interpelando a alma sobre a essência das coisas, Tangível serenidade ao fim inevitável, Repleto de memórias transcendentes, De tudo que valeu a pena ser vivido.
Sirlânio Jorge Dias Gomes
765
Simetria
Era um dia comum, Até então igual a tantos outros, Sentei no meu jardim, Respirei fundo sentindo a vida, Tanta pressa em meu peito, Um pedacinho do paraíso diante de mim, E só agora descobri num momento de simplicidade, Que necessitamos de pouco para ser feliz.
Precisamos apenas de um sorriso verdadeiro, Um olhar singelo diante do mundo, Estar com a alma sossegada ao dever cumprido, Observando a vida nas asas do tempo, Exercitando o amor quando se torna improvável, Amar tanto neste mundo repleto de caos; Mantendo a fé na esperança, Alimentando os sonhos de uma criança.
Um dia jovem sonhei como quem almeja, Noutro dia velho almejarei como quem sonha, Ver os filhos felizes com seus filhos, Percebendo a felicidade dos netos, Ao sabor de muitas emoções da existência, Desejando que o mundo não se torne amargo demais, E que as pessoas vivam de verdade a própria verdade, Exercendo a caridade do jeito que desejam ser amadas.