Sou um viajante do tempo, em busca de meus sonhos; na minha caminhada costumo ser alegre... rio, choro, me emociono com o olhar de uma criança, com o brilho do sol, da lua; o cantar dos pássaros. Sou um simples mortal que acredita na imortalidade da essência do Ser, do espírito . . As coisas que eu gosto? ... são as mais simples que existem. Gosto de ver o sol nascer, se por... ver a lua bailar no infinito espaço, e as estrelas enfeitando o manto negro e majestoso da noite... (e só de pensar que viemos e iremos ainda para alguma delas, chega a dar saudade ... !) Ver o rio correr tranqüilo seguindo seu curso sem reclamar, ouvir o sussurro do vento, o som dos pardais ao entardecer, o sorriso de uma criança, a sensualidade feminina, e tantas outras coisas mais que nos rodeiam!Como eu vejo as pessoas? ... Vejo as todas companheiras de viagem, indo em busca de algo; são viajantes das mais diferentes origens, oriundas de algum lugar do Universo e na maioria das vezes perdidas sem saber para onde irão e o que buscam ! Isto é triste! Sonhos ? ... sou um eterno sonhador ! " Sei, que n'algum lugar, muito além dos horizontes... nossos sonhos realmente acontecem! " Vou-me embora para PASARGADA , sonho de todo poeta, ir se embora para Pasárgada,..... Sinto-me privilegiado possuidor das chaves deste lugar, entretanto, sei que nada vale a pena se não for fruto de nosso próprio esforço... Do que adianta ser amigo do rei, ter tudo que se imagina e não ser feliz ? Prefiro seguir meu caminho, colhendo todas as pedras que encontro na estrada e utiliza-las para meu caminhar. Quem quiser ... acompanhe-me e caminhemos juntos!
Lembranças da velha estrada de ferro - Lembranças da velha estrada de ferro - RMV. RUIM MAIS VAI Rede Mineira Viação (que levava inscrito em seus vagões a sigla R M V ) é o nome da antiga ferrovia mineira que cortava as alterosas levando pessoas, gado, café e minérios. Conhecida pela sua deficiência mas querida pela tradição era carinhosamente chamada de Ruim Mais Vai. Só pra se ter uma idéia, um trajeto que hoje se faz em pouco mais de três horas, levava-se 12 horas com a velha Maria Fumaça que tranqüilamente cortava campos, colinas e montanhas enquanto uma nuvem de fumaça singrava os céus. Até o final da década de cincoenta reinava a Maria Fumaça, no alvorescer dos anos sessenta chegaram imponentes as primeiras locomotivas a diesel. Era comum o embarque e desembarque de gado nos vagões apropriados, de madeira pintadas de vermelha. A Estação Ferroviária era o lugar mais movimentado, à noite passava o "noturno" que vinha de São Paulo e ia até o norte de Minas. O seu apito era quase um aviso para a cidade adormecer, depois que se ia a cidade acabava de se aquietar e se preparar para o novo dia Rede Mineira Viação (que levava inscrito em seus vagões a sigla R M V ) é o nome da antiga ferrovia mineira que cortava as alterosas levando pessoas, gado, café e minérios. Conhecida pela sua deficiência mas querida pela tradição era carinhosamente chamada de Ruim Mais Vai. Só pra se ter uma idéia, um trajeto que hoje se faz em pouco mais de três horas, levava-se 12 horas com a velha Maria Fumaça que tranqüilamente cortava campos, colinas e montanhas enquanto uma nuvem de fumaça singrava os céus. Até o final da década de cincoenta reinava a Maria Fumaça, no alvorescer dos anos sessenta chegaram imponentes as primeiras locomotivas a diesel. Era comum o embarque e desembarque de gado nos vagões apropriados, de madeira pintadas de vermelha. A Estação Ferroviária era o lugar mais movimentado, à noite passava o "noturno" que vinha de São Paulo e ia até o norte de Minas. O seu apito era quase um aviso para a cidade adormecer, depois que se ia a cidade acabava de se aquietar e se preparar para o novo dia
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Morro da Onça.
Esta era a visão que se tinha da janela da sala e do quarto onde eu dormia na Fazenda da Mata. Passei boa parte de minha infância observando esta paisagem. Com certeza os melhores dias da minha vida. Ao fundo imponente aparece o Morro da Onça, nome este devido ser muito comum a freqüência de onças pintadas e jaguatiricas por lá. Em minha infância cheguei a cruzar com algumas Jaguatiricas, mas onças pintadas só em estórias contadas pelo meu avô e pelos camaradas da fazenda. De vez e outra ouvia se dizer que alguma cabeça de gado havia sido atacada por uma onça pintada e o temor corria pela redondeza. Esta foto foi tirada na década de setenta, mas posso garantir que antes dos anos sessenta o cenário era muito mais belo. Onde se vê as plantações outrora era ainda mata virgem, os cafezais se estendiam mais a direita. A mata original era linda e embelezava a paisagem e favorecia a uma rica fauna. Mas atenho-me agora a falar mais precisamente do querido e saudoso Morro da Onça. Com freqüência costumava passar a cavalo numa trilha que cortava sua encosta esquerda ou de Jipe com meu tio ou meu avô. Era o caminho que levava à Fazenda do tio Orosimbo que ficava a uns 6 quilômetros da fazenda do vovô. Costumávamos revezar semana sim semana não íamos passar o domingo lá e as vezes acompanhava meu avô em suas idas a negócio com o tio Orosimbo. Ao passarmos ao lado do Morro costumava ficar olhando para o seu topo e almejando o dia que eu pudesse subir até lá e poder observar os quatro pontos cardeais. Sabia que de lá poderia ter uma bela visão ao Sul das bandas do Rio Grande, do Porto dos Mendes e em destaque se via o Morro de Ponta, local em que meu avô morou quando mamãe era criança. Eu gostava de ir lá com meus avós. Era um lugar pitoresco. Do lado norte, bem distante se via no horizonte o delinear da cidade de Campo Belo esbranquiçada mesclando-se com o céu azul salpicado de brancas nuvens. Ao oeste se avistava a Fazenda da mata e ao Leste a Fazenda do vovô avistando-se a sede toda imponente ao pé do Morro dos Maias ou dos Pimentas.
Enquanto eu vivia meus primeiros anos de vida, minha primeira infância, não havia outro meio senão contemplar diariamente a beleza do Morro da Onça e sonhar com o dia que eu pudesse aventurar-me pelas suas matas e atingir a pedreira que cobria seu cume. O tempo naquela época parecia não passar, demorava-se muito para chegar o final de semana, as festas de fim de ano, os aniversários. Eram dias intermináveis, parecia que o relógio era bem preguiçoso. Ao contrário de hoje. Só sei que tudo acabou passando e quando percebi já estava morando em São Paulo e não via a hora de chegar as férias de meio do ano e as de final de ano para lá na Fazenda ir matar a saudade. Nos primeiros anos que se sucederam, depois de estar morando em São Paulo, geralmente combinava com os meus primos para irmos juntos. Íamos eu, minha irmã Bernardete, as vezes o Pascoal também e lá nos reuníamos com a Raquel, a Juanita, a Jane, a Aríete, o Dalmo William e a Denise e deixávamos vovô bem nervoso com nossas aventuras. Os outros primos, Cida, o Antonio, o Rogelio geralmente não participava de nosso grupo lá na fazenda. Poucas vezes se reuniram a nós a não ser quando íamos todos para a cidade. Na fazenda organizávamos os dias todos com muita aventura, escaladas de morro, nadar no açude (uma piscina natural adaptada num buraco de onde se retirava terra para fazer tijolos). E lógico começamos a planejar e executar nossas aventuras no Morro da Onça. A primeira vez que escalamos o Morro da Onça, levamos uma bandeira branca feita com tecido que pegamos lá da vovó, acho que um velho lençol. Ficamos orgulhosos em deixá-la tremulando lá no topo de uma árvore. Levamos frutas e lanches para passar um bom tempo lá em cima, o dia todo. A subida fui um tanto cansativa, pois tivemos que ir a frente das meninas, eu, Pascoal e Dalmo William abrindo trilha e ajudando-as a passar pelas pedras que haviam no caminho. A encosta era toda ladeada de grandes pedras e vegetação rasteira sob as árvores. Haviam nos alertado sobre o perigo das Cascavéis que eram muito comuns naquele morro. Por isso a nossa primeira escalada foi de muito suspense e certo medo. Felizmente nem mesmo encontramos com nenhum tipo de réptil para nossa sorte e tranqüilidade. Ao chegar ao topo, como imaginávamos, havia uma grande pedra formando uma laje, em certo declive claro, mas própria para organizar um belo piquenique vislumbrando um belo cenário. O dia estava quente, era pleno verão, mas a brisa que soprava lá em cima ajudava a refrescar um pouco o calor que sentíamos. A água que levamos estava no fim, o que valeu foram as laranjas e mexericas que levamos conosco. Pudemos observar e saborear aquele cenário maravilhoso. Viam-se as estradas, os trilhos que cortavam os campos verdes, as casa dos camaradas, as fazendas ao longe se destacavam das casas dos camaradas que pareciam todas minúsculas. Os trilhos formados pelo gado que contornavam o vale desenhavam linhas sinuosas que serpenteavam todo o morro lá em baixo levando o gado até a grota onde iam matar a sua sede. No topo do morro mal podíamos ouvir algum ruído daquelas casinhas lá em baixo na colina, apenas o barulho do vento e o canto dos pássaros. Bom seria ter uma casa construída lá no topo. Como seria bonito ver o nascer e o por do sol de camarote todos os dias. Observar qualquer pessoa, animal, ou veículo que se aproximasse vindo de algum ponto. Lá de cima podia se ter uma visão privilegiada dos quatro quantos, que maravilha. Mas o sol se adiantava e começava a dar sinal de fim de dia. O pessoal lá na fazenda devia estar apreensivo conosco, tínhamos que apressar nossa descida. Por isso levantamos, com pesar e começamos a descida, mas já planejando outro retorno ainda naquelas férias. A volta foi tranqüila, ainda deu para parar no pé do morro e apanhar algumas mangas deliciosas e ir saboreando-as enquanto caminhávamos. Chegando a fazenda estávamos todos felizes a contar a nossa façanha e a descrever a beleza que se vê lá de cima para mamãe e a vovó que ouviam atentamente e admiradas. A hora do jantar se aproximava e deixamos as meninas irem para o banho primeiro ficando nós os homens para o final. Outras escaladas foram planejadas e executadas naquelas férias e em outras. Sempre foi com a mesma alegria e aventura, mas, a que mais marcou foi a primeira vez que lá estivemos. Esta ficou na memória de todos nós e ainda posso sentir aquele vento, e parece que ainda estou vendo toda aquela paisagem a minha frente. Tudo parece ter mudado, a Fazenda da Mata onde vivi meus melhores dias da infância não é mais como era, a Fazenda do tio Orosimbo, também acho que não mais existe, mas o Morro da Onça, este sim, está lá do mesmo jeito imponente observando tudo e a todos a seu redor. Apenas sofreu com a derrubada da mata ao seu pé, foi o que pude observar em minha última vista dele. Ah que saudade sinto de minha terra natal... saudade do Morro da Onça de minha infância!
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O pequeno polegar
O dia em que quase perdi o polegar Era uma criança que desde cedo fui acostumado a ajudar meus pais nos afazeres da casa. Havia hora para trabalhar, estudar e brincar. Nunca fui obrigado a fazer trabalhos pesados, mas sempre tive vontade de ter minhas pequena plantação, queria aprender a cultivar a terra e diante de meu pedido papai deixou uma pequena área para eu plantar. Ah como era gratificante depois de algum tempo ver germinar as sementes, crescer o feijão, o arroz, as ramas de batata, mandioca, as hortaliças. Papai plantava de tudo para o nosso sustento e sobrava até para vender. Havia um plantio de mandioca que dava para fazer farinha e polvilho. Para facilitar o beneficiamento ele construiu uma engenhoca para ralar a mandioca exigindo-se pouca força devido as rodas e engrenagens da máquina. Até uma criança como eu, de sete, oito anos conseguia mover a manivela do ralador manual. Certo dia, enquanto meus pais cuidavam de outros afazeres pedi para adiantar o serviço indo ralar mandioca. Não precisava de muita força para mover a roldana, o trabalho ia bem. Com a mão direita movimentava a manivela e com a esquerda empurrava a mandioca que produzia uma massa alva e espessa. A bacia aos poucos enchia daquela massa, tudo estava indo tranqüilo e sem cansaço. De repente, o branco tornou-se rubro, mal pude perceber o que havia acontecido. Como de repente aquela massa alva manchava-se de vermelho forte? Foi tudo tão rápido que só depois de um tempo pude perceber o que havia acontecido. Segurava firmemente a mandioca com minha mão esquerda quando de repente acabou se a raiz e foi o meu dedo sem que eu percebesse. Os dentes do cilindro cravaram em meu dedo polegar deixando ranhuras profundas e quase o deslocando. Deixei o local e segurando meu dedo com a mão direita e sai correndo gritando por meu pai. - Pai, paieeeeeeee! - O que foi filho? Correu comigo para dentro de casa colocando logo um punhado de sal grosso com água lavando bem o ferimento que continuava sangrar. Tratou de colocar um pano em volta amarrando-o e pegando-me ao colo acalentando-me na tentativa de acalmar-me. Os dias se sucederam e o machucado estava com mau aspecto e ainda doendo muito. Falei com meu pai que o meu dedo polegar estava com mau cheiro, e que o ferimento estava piorando. Foi ai que ele resolveu levar-me ao Porto dos Mendes onde tio Cristiano possuía uma pequena farmácia, a única da região. Chegando lá tio Cristiano tirou aquele pano que servia de curativo e fez uma assepsia terminando com um bom curativo com gazes e esparadrapo. Receitou-me alguns remédios e orientou papai como cuidar e fazer novos curativos. Já se passou quase 50 anos e no meu dedo as marcas deste episódio do dia que quase perdi meu polegar.
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Recordações da infância
As noites frias e profundas me trazem recordações, sensações, impressões, de uma fragrância de infância de criança. Noite fria, céu estrelado, a lua bailando lá no céu de julho. No casarão se via a fumaça branca que subia pela chaminé, as janelas semi-fechadas deixavam ver a movimentação na cozinha em volta do fogão a lenha. Era férias de meio do ano, o sossego, a tranqüilidade e o silêncio já não era como os de todas as noites. Vovô e vovó que normalmente a esta hora já estariam dormindo permaneciam até mais tarde reunindo os netos em volta do fogão, assando queijo na chapa e a pedido dos netos contando causos. Vovó sempre preocupada conosco cuidava de preparar algumas quitandas para comermos. Sempre ouvia se ela dizer: menino, come alguma coisa, toma leite!Pegue uma *tigela e come com farinha!A noite avançava e o frio aumentava lá fora! O que fazia que nos mantivéssemos todos em frente o braseiro que consumia lá no fogão.Acostumados a deitarem cedo, com pouco meus avós se retiravam ao quarto e ficávamos por ali ainda, falando mais baixo para não incomodar mas conversando muito, rindo e matutando o que fazer no dia seguinte.Como o céu estrelado era muito bonito, apesar do frio, antes de dormir ainda ficávamos lá no alpendre ou na janela do quarto observando as estrelas cadentes que eram freqüentes e imaginando como seria a vida noutros mundos.De vez em quando ficávamos quietos, pensativos só observando lá em cima o céu repleto de estrelas e na escuridão na mata o pisca pisca dos pirilampos e vaga-lumes que invejando as estrelas reluziam o campo e as matas.O silêncio muitas vezes era quebrado por um piado de alguma ave noturna que cortava o espaço em vôo rasante. Lá no pasto, nalgum tronco a coruja piava ! Vez ou outra ouvia se outras aves noturnas aqui ou acolá.Muito assunto, muita conversa mantinha nos acordado até que exaustos um a um ia se deitar para logo mais ao nascer do sol todos de novo começar a nossa lida! Assim eram nossas férias na fazenda e hoje resta-nos apenas as sensações, impressões de uma fragrância de infância, de criança. E a certeza de que fomos muito felizes e aproveitamos o tempo que se foi e jamais voltará! Postado há 28th October 2006 por Adauto Neves Marcadores: ¨ Tigela - pote de louça que vovó logo de manhã enchia de leite uma para cada um e guardava no armário para a noite. (Não havia geladeira)
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INCIDENTE BATIZADO
Era uma manhã ensolarada, a família toda reunida preparava-se para o batizado do meu primeiro irmãozinho. O padre arrumava-se para o a grande cerimônia, o batizado do sobrinho. Morávamos bem ao lado da igreja no pequeno vilarejo do Porto dos Mendes da década de cinqüenta. Naquele tempo corria garboso e ainda jovem o Rio Grande em direção a Serra de Boa Esperança. O mesmo rio que décadas antes servia de leito para os poderosos vapores que carregavam o progresso entre São Paulo, Minas e outros estados do Brasil. Mas voltando aquele domingo, todos já na igreja aguardavam o padre Antonio iniciar o esperado batizado do Pascoal e da Neuza, nossa prima. A família tinha mais de um motivo para tanta alegria, além das crianças queridas o celebrante era o padre Antonio, o querido tio Tonho. Estavam todos em volta da Pia Batismal, eu ainda uma criança de quatro anos buscava um espaço para acompanhar aquela, (acho minha primeira) cerimônia religiosa. . Não sabia se prestava mais atenção no meu irmão que chorava a beira da pia batismal ou se admirava as vestimentas brancas e a estola verde que tio Tonho usava. De repente, algo inesperado que aconteceu lá fora quebrou o ritmo daquela cerimônia. A atenção toda se voltou para a rua lá fora. Eu, sem saber o quê ocorria, corri para a janela a procurava de uma explicação. Foi quando eu vi o tio Tonho colocando as mãos na cabeça de um homem que caiu do caminhão. Na verdade o que ocorreu foi o seguinte, enquanto o batizado estava ocorrendo, um caminhão cheio de jogadores de futebol estava indo em direção a Balsa para atravessar o Rio Grande e um dos passageiros na euforia do grupo e depois de beber cachaça acabou caindo do caminhão e tio Tonho num ímpeto fraterno correu preparado para aplicar, se necessário, a extrema-unção Porém, nada de mais grave aconteceu além de algum ferimento na cabeça e logo o padre retornou a igreja e a cerimônia continuou o seu ritmo festivo. Terminando a cerimônia religiosa todos se uniram num grande almoço para comemorar os recém batizados e também festejar a presença do tio padre em nosso meio.
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O CRUZEIRO
Era uma criança humilde, encabulado, tímido, mas com sede de saber. Lembro-me quando tinha meus cinco anos morava com meus pais na roça, passava maior parte do tempo na fazenda de meus avós. Vovó embora não letrada era uma pessoa culta. Contava que no seu tempo foi alfabetizada e instruída em casa. Não freqüentou escola, mas teve professor particular em casa, pois ela era a única mulher da família e teve educação a domicílio. Enquanto cuidava dos afazeres da fazenda, com sua lida entre a cozinha, o monjolo e a administração geral sobrava tempo para orientar e incentivar-me na leitura e na audição de rádio. Dizia, - “.Adarto” é muito importante a gente saber ler, saber o que está acontecendo no mundo. Vai ouvir o Repórter Esso para saber o que está acontecendo. Pegue jornal e vê as figuras, leia o que você puder. Sempre trazia da cidade pacotes de jornais e deixava por lá. Sempre que me via desocupado, sem o que fazer mandava que arranjasse um canto na sala, geralmente deitado debaixo da mesa, ficar folheando algum jornal. De vez em quando eu corria a pedir ajuda, explicação de algo que me chamava atenção. Mas uma coisa que mais me deixou saudade e até sinto aquela sensação especial que sentia quando criança lá na roça era a esperada Revista O CRUZEIRO. Engraçado mas, quando eu era criança o dia de Natal demora muito para chegar assim como nosso aniversário e outras datas como Semana Santa. Ficávamos ansiosos e o tempo não passava, d emorava-se muito, muito mesmo! Mamãe contava que lá na cidade grande Papai Noel comprava presentes e levava a todas as crianças e que havia grandes árvores com enfeites, lâmpadas e bolas coloridas e muita festa nesta época. Eu ficava noites e noites sonhando com o Papai Noel e procurando sua carruagem no meio das estrelas lá no céu. Mas não cansava de folhear e admirar cada página da Revista O CRUZEIRO que mamãe trazia da cidade. Havia muitas fotos do Papai Noel, de seu trenó, de suas renas! A minha imaginação ia longe! Nada daquilo acontecia na fazenda, mas eu sonhava com Papai Noel e tinha certeza que ele pelo menos na noite de Natal viria deixar um presentinho para mim. Logo percebi que apesar de acreditar na existência de Papai Noel sabia que nossos pais é que compravam os presentes. Mesmo sabendo disto eu fazia questão de manter o se gredo, aquela atmosfera de segredo, suspenso mesmo sabendo antecipadamente o que mamãe havia comprado. Na véspera da noite de natal, conforme orientação de mamãe, eu sempre colocava meu sapato na janela e ia dormir e logo de manhã corria para ver o resultado, Ah quanta saudade desta época.E da Revista O CRUZEIRO a lembrança da magia que havia no mundo que vivi quando criança. Lembro do cheiro de suas folhas. Papel cheirando tinta. As cores fortes, as imagens chamativas. As propagandas engraçadas. A caricatura do Amigo da Onça. Ah que saudades de O CRUZEIRO ! .
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MORRO DA ÉGUA
Era uma daquelas tardes de verão em que as cigarras pareciam estar afinando o som para uma grande orquestra. O sol brilhava e algumas nuvens carregadas despontavam no horizonte, mas grande parte do céu mantinha-se azul. Papai disse a mamãe que precisava levar a massa de mandioca seca para vovó fazer a farinha lá na fazenda e que iria mandar-me levar a cavalo. Preparou dois sacos (50 kg), encheu-os da massa de mandioca já seca, amarrou os sacos e ajeitou-os na garupa da égua que estava já encilhada e pronta para me levar a fazenda da Mata. Se apressasse iria chegar lá antes do anoitecer, era uma boa caminhada, umas duas ou três léguas de distância (aproximadamente 15 km). Mas como ia carregado, a égua não era assim tão ligeira, precisava se apressar e papai logo despachou-me recomendando que eu fosse direto com medo que a chuva me pegasse no caminho. Eu tinha apenas oito anos de idade mas sabia me virar e conhecia bem o caminho para a fazenda do vovô. Após as recomendações de meus pais, tomei a bênção de papai e de mamãe e pulei na sela em meio a carga que iria transportar e segui meu caminho. Passei pela fazenda da Beija, depois em frente a venda lá na beira da estrada do Porto e segui em direção ao Morro da Égua. Agora entrando numa trilha que cortava o morro em direção ao Morro da Onça, nenhuma casa, nenhum sítio ou fazenda a não ser depois, lá do outro lado ao terminar a descida do Morro havia sim um Sítio com uma casinha com um curral ao lado bem na beira da estrada, mas ia demorar a chegar lá.Enquanto caminhava lentamente no lombo da égua pelas trilhas daquele morro, ia sentindo os dois sacos pendurados na garupa cada qual querendo pender para um ou outro lado. Mas estava bem amarrados, não havia perigo de cair, pensava e aproveitava para olhar uma ou outra fazenda que se avistava ao longe podendo visualizar a silhueta esbranquiçada da sede com seus telhados vermelhos escuros. No caminho cruzava apenas com bandos de anús espalhafatosos e alguns gaviões em busca de presas em seus vôos rasantes. Lá em cima parece que São Pedro estava preparar alguma faxina bem pesada. As nuvens se aglomeravam e o céu começara a escurecer de repente. Isso não era bom sinal, a égua mostrava-se sinal de cansaço e não apressava os passos e eu começava a me preocupar pois não havia nenhuma casa ou abrigo a vista. E as chuvas de verão costumam ser fortes e com muitos raios e trovões por estas bandas. O que fazer ? Nada senão continuar o percurso, já estava começando a descida do Morro da Égua, voltar agora não dava mais, com um pouco mais de sorte chegaria ainda antes do anoitecer no mínimo na fazenda do tio Orosimbo, assim pensava eu.De repente um trovão esbravejou de tal modo fazendo um grande eco no vale lá em baixo na mata. Outros raios e trovões se sucederam, cada vez mais fortes e de repente veio a chuva que preencheu todos os cantos que minha vista alcançava. O que fazer ? Senti que os sacos de massa de mandioca seca já não eram mais secos e certamente o peso duplicaram no lombo do animal. Desci, tomei as rédias e a dianteira e num grande esforço continuei debaixo daquela chuva a puxar e conduzir a égua que antes me transportava. Ficar ali, debaixo daquela chuva, debaixo de árvores não era bom, havia muitos raios. Tinha que chegar naquele sítio lá em baixo e pedir auxílio! A noite antecipou sua vinda, tudo ficou escuro mal podia ver a trilha a minha frente e cada vez mais eu me esforçava para puxar a égua que não estava mais suportando o peso, mas não podia fazer nada, eu nem agüentaria tirar de seu lombo aqueles sacos, cada um do meu tamanho e agora encharcados muito pesados. Conversava com a égua, pedindo-lhe calma e que colaborasse para que pudéssemos chegar num abrigo. Na medida do possível ela procurou entender-me e seguiu-me. Já podia avistar uma fraca luz a cerca de uns mil metros, sabia que estava chegando no sítio lá na baixada, ufa que alívio! Sai da trilha e rumei em direção daquele sítio, a luz de lamparina agora estava mais forte e podia ter a certeza de que havia alguém lá. Abri a porteira do curral e levei minha égua para uma cobertura e dirigi-me a porta da sala e chamei: - Ó de casa? - Tem alguém ai? - De casa? - Oi, quem é? - Nossa, marido tem um menino aqui todo molhado! Fui logo dizendo a dona: - Sou filho do Walter, neto da Anita e do João Dolores. - Uai, entra menino, vamos trocar esta roupa molhada. Nisto o marido foi lá no curral retirar os sacos e a sela do lombo da égua. A dona tratou de arrumar uma calça e camisa do marido, embora grande, vesti e me aqueceu depois de me secar com uma toalha que ela me deu. Na casa só havia o casal, já era tarde e a dona tratou de arrumar a cama no quarto de hóspedes e disse para eu ir deitar e seguir viagem no dia seguinte eu agradeci e fui me recolher. No dia seguinte, bem cedinho levantei, vi que o tempo havia melhorado, já não chovia mais e o sol estava para nascer. Tomei um gole de café com leite quentinho com uns biscoitos de polvilho. Logo agradeci a pousada, a acolhida e segui minha viagem, um pouco adiante passei pela casa do Osmar, um camarada do tio Orosimbo, logo depois passei pela fazenda do tio Orosimbo que já estava na lida lá pelo curral. Sem mesmo descer da égua tomei a benção e segui ao meu destino.Por volta das sete horas da manhã, ao cruzar o Morro da Onça o sol já brilhava no céu agora límpido ! Já podia avistar a fazenda da Mata. A fumaça branca saindo da chaminé denunciava já a Vó Anita em sua lida diária. Chegando apeei de minha égua, antes mesmo de retirar-lhe a carga subi pelas escadas do alpendre lá da sala e fui direto a cozinha onde surpreendi minha vó que olhou espantada. - Nossa menino, chegou cedo hein? Mal sabia ela o que sucedera na noite anterior. Ai comecei a narrar o que aconteceu e onde busquei abrigo. Ela confessou então que havia pensado em mim e achava que eu não viria devido ao mal tempo e ficou aliviada por ver me bem e a salvo. Missão cumprida ! A tardezinha, depois de assegurar-me que o tempo não iria piorar retornei ao Morro Grande para não preocupar meus pais. Naquela época não havia como se comunicar, não havia telefone. A volta foi tranqüila pelo bom tempo e pelo fato de agora não estar carregando nenhuma carga pesada. E para quem já cavalgou deve saber que o animal caminha melhor quando está retornando. Cheguei em casa antes do sol se por e encontrei meus pais ansiosos pois meu pai havia tido alguns pressentimentos na noite anterior e inclusive mamãe me contara que ele ouvira um grande ruído, um estrondo muito forte lá na encosta do morro e havia ficado muito preocupado comigo. Contei tudo o que havia ocorrido e que apesar do susto, do frio e do medo consegui abrigo e depois seguir viagem com tranqüilidade. Hoje, lembro destes fatos com saudade e até me orgulho de situações que enfrentei apesar da tenra idade naquela época. .
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Inocência na luz vermelha
Chegara as tão sonhadas férias. Eu tinha meus 15 anos, estava estudando no Seminário em Itajubá, Sul de Minas Gerais. Só visitava minha família nas férias. No meio do ano eram pouco mais de 15 dias então passava em São Paulo com meus pais e irmãos. Mas as férias de final de ano, as mais esperadas ia para São Paulo e depois de ficar alguns dias com meus pais, geralmente depois do Natal ia com minha mãe e meus irmãos para a cidade natal, Campo Belo. Revia os primos, os tios, e a maior parte do tempo queria passar na roça, na fazenda com meus avós. Como eram gostosos estes dias que lá passava. Finais de semana íamos todos para a cidade, não que eu gostasse, pois na fazenda era muito mais divertido, mesmo quando só eu estava lá. Andava a cavalo, nadava muito, escalava morros e sem falar na fartura de frutas que lá havia. Quando estava na cidade costumava passar algum tempo em companhia dos primos e principalmente do Nardinho, um primo em segundo grau, mas para mim todos eram primos. Ele era um pouco mais velho que eu e costumava me levar para um restaurante em frente a Praça da Matriz, esquina com a Afonso Pena e lá entre conversas e animação íamos saboreando um torresminho e tomando uma cerveja. Não estava acostumado a tomar cerveja, mas pela sua insistência eu o acompanhava. Nardinho era uma destas pessoas que conhecia todos da cidade e apresentava-me a todos os seus amigos. Certo dia ele disse-me - hoje a noite passo na casa da vó Anita para te pegar, quero levá-lo a casa de uma amiga. Como eu gostava da companhia do primo não poderia recusar o convite. A tardezinha, já anoitecendo fomos nós em direção a Estação Ferroviária à visita combinada. Chegamos a uma casa próximo a Estação onde ele foi entrando e cumprimentando a todos. Entramos por uma sala ampla, com algumas mesinhas e cadeiras onde algumas pessoas conversavam, geralmente casais. Logo encontrou uma moça a qual fui apresentado. - Este é o Adauto, meu primo ele está estudando no Seminário - disse ele a moça. Em seguida me vi sentado a uma mesinha com aquela moça que começou a conversar comigo e a perguntar-me sobre a vida lá no Seminário. Como era, o que eu fazia, etc... Logo notei o desaparecimento do meu primo e continuei lá naquela sala em penumbra, havia algumas lâmpadas vermelhas tornando o ambiente um tanto reservado. Não faltaram assuntos, a moça parecia curiosa a perguntar-me sobre o meu dia a dia e eu calmamente e inocentemente continuei a responder a tudo até que começou a faltar-me assunto e ela já meio sem graça também silenciou. Vez ou outra lançava-me um olhar e um sorriso. Indaguei-me sobre o Nardinho, onde teria ido e ela calmamente me acalmou dizendo que logo estaria lá de volta. Tratou de reforçar o prato de petiscos e pedir mais cerveja. Já se fazia tarde, minha ansiedade e meu desconforto ali aumentava. Foi ai que surgiu o Nardinho acompanhado de outra moça que da mesma forma da primeira apresentou-me como seu primo que estudava no Seminário. Perguntou a minha anfitrião se gostou de mim, esta respondeu que sim meia encabulada também. Despedimos-nos e fomos para casa, minha mãe e minha avó devia já estar preocupadas comigo. Caminhamos meio em silêncio sem ao menos comentar sobre a visita e cada qual foi para sua casa como se nada tivesse acontecido. Minha mãe e minha avó nada perguntaram e logo fui para o meu quarto ainda sem saber exatamente o que era aquele lugar que conhecera. Achara sim um tanto estranho, pois a casa apesar de pessoas aparentemente felizes, comendo e bebendo, achei-as um tanto frias para ser uma casa e de amigas do Nardinho. Passou-se um ou dois dias... pude ouvir a tia Arlete - que era uma daquelas pessoas alegras com uma risada contagiante e forte - contar para o tio Juarez, outras tias e amigas que o Nardinho havia me levado a Zona. Foi ai então que compreendi o motivo daquele convite. Mas continuei na minha inocência sem ao menos ter deixado ser iniciado.Fiquei morrendo de vergonha, encabulado e evitei confrontar-me com os tios por um bom tempo, se contaram para minha mãe não sei, porque nunca ouvi comentário por parte dela. Nunca mais falamos sobre o assunto e muitos anos se passaram, mais de 40 anos, outro dia comentei o episódio pela primeira vez com o Nardinho durante uma conversa com ele, no Messenger, visto que mora em Brasília desde aquela época e nunca mais o encontrei, somente agora pela internet. - Ah, isso não foi nada, das coisas que eu aprontava esta foi a menor. - disse-me ele ! .
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Mistério na Mata
A Fazenda da Mata, ou Fazenda São João fora do meu bisavô Abílio. Vovô João comprou a pelos idos de 1953 e lá passei os mais doces anos da minha infância. Ah quantas estripulias, quantas aventuras lá vivenciei ! Nos primeiros dez anos a fazenda era muito freqüentada ainda pelos irmãos de Vovó, o tio Juarez, Tio Neném, Tio Mário, Tio Júlio, Tio Renato e a própria Vovó Dolores, Mãe Vó como a tratávamos. Os primos Nardinho, Diogo freqüentavam mais a casa. O casarão era estilo colonial, havia muitas dependências e por isso era possível receber muitos hóspedes. Gostava quando minha avó Anita recebia umas amigas do Rio; Era um pessoal da cidade e eu ficava espiando de longe aqueles hábitos diferentes dos que eu conhecia. Mas sentia mesmo a vontade quando nas férias reuníamos os primos lá Dalmilho, Jane, Raquel, Ariete, Denise, Antonio, entre outros. Mas estes citados eram os da minha época que mais compartilhávamos as aventuras e as brincadeiras. Minha irmã Bernadete era novinha e o Pascoal ainda muito criança nem podia acompanhar-nos em todo lugar. Quando iam embora ficava aquela monotonia... não restava outra opção de vez em quando compartilhar algumas brincadeiras com os filhos dos camaradas. No final da tarde chegava da roça acompanhados do pai e de outros funcionários o Carlinhos, o Toninho, e o José, (Zé) mas eram crianças de outro nível, muito simples e chegavam cansados mal podiam brincar. Na fazenda, quando a tarde caia vovô corria para o lado do rádio, as vezes acompanhados por algum empregado e ficavam ouvindo programação de Música Sertaneja para irritação da minha avó que não gostava. Depois hora da novela no Rádio, minha avó e mamãe iam para o lado do Rádio enquanto meu avô se retirava, de vez em quando indo jogar truco lá na sala com os amigos. Mal a noite se firmava todos começavam a retirar-se. Dormíamos cedo, pois a lida no campo iniciava-se cedo antes do nascer do sol. A vida lá na fazenda foi modificando se radicalmente, o movimento, a lida com o cafezal, foi cada vez mais diminuindo. Meu pai levou-nos para um Sítio que herdara lá no Porto dos Mendes, no Morro Grande, meu tio To alba estudava fora, só vinha para a fazenda nas férias. Eu, sempre que podia ia passar uns dias lá e o meu quarto preferido era o do meu tio Toalba, pois ele dava as janelas todas para a frente e para o Curral, podia-se acordar cedo com a movimentação dos retireiros ao trazer as vacas para a ordenha. Certa noite, estávamos só nós três, meus avós e eu. Como não havia companhia me recolhi cedo, ouvia cada badalado do velho carrilhão lá na sala próximo ao meu quarto. Fora isso e algumas vezes o som de algum pássaro noturno era silêncio total. Podia-se ver as estrelas pela janela que eu sempre deixava aberta para contrariedade de vovó que ia nas pontas do pé e as fechava e eu da mesma forma as abria depois de algum tempo sem fazer ruído. Era uma noite tranqüila, meus avós deviam star em sono pesado e eu ainda estava meio acordado pensando e olhando para as estrelas lá no firmamento. De repente - ouvi a trava de madeira ser retira da porta da sala e ser colocada no canto. Como era piso de assoalho, e com o silêncio da noite ouvia se nitidamente o som. Levantei a cabeça, sem sair de minha cama, procurei ver se era meu avô ou minha avó que fora ver algo. Não podia evitar nada a não ser a porta acabando se abrir por total uma das partes. Um silêncio profundo se fez até que ouvi a minha avó lá de seu quarto falar: - menino! O que está fazendo ai ? Por que abriu a porta!? Eu mal pude responder... balbuciando disse lá da minha cama mesmo; - não fui eu, não sai da minha cama! E virei-me do lado obrindo-me e ficando quieto sem se mexer até que o sono veio! Lembro que meu avô se levantou, fechou a porta, colocou aquela trave de madeira e saiu resmungando. Creio que pensara que fora eu fazendo arte. Pude ouvi-lo a caminho de seu quarto; _ Ara.. esse menino !... No dia seguinte, levantei-me, meu avô já havia ido para a roça e encontrei minha vó lá diante do fogão a lenha! Antes mesmo que ela disse algo perguntei-lhe: - Vó, o que foi aquilo ontem? - Não fui eu que abri a porta não! Calmamente ela respondeu acalmando-me. - Não se preocupe menino, deve ter sido papai, ele sempre aparece por aqui. - No final de semana eu vou fazer uma visita lá no "Centro" e ver o que ele queria. ode estar precisando de oração. E assim passou a semana e quando chegamos a cidade foi ela ao centro e contou-me depois que realmente era o Vô Abílio, ele sente saudades e vem sempre visitar a casa. Mas está tudo bem sim com ele! - disse com toda a naturalidade. Acho que por isso nunca me assustei com fatos inexplicáveis. Aceito-os e acredito que: - " entre o céu e a terra há muito mais coisa que nossa vâ filosofia possa conhecer! "
Obs.: Vô Abílio faleceu dois anos antes do que eu nascera, eu não cheguei a conhecê-lo. Um porta retrato que vovó possuia dele me chamava muito a atenção, os seus olhos azuis, bem azuis.