Tiago Magalhães

Tiago Magalhães

n. , Lisboa

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Hemisférios

Fascinado: com a minha figura.
Narcisismo? Não me reconheço.
Quem olha? Quem retribui? A face oculta ou
o espelho. Apanha-me a perna: a estranheza. Ter um rosto,
um capricho, uma náusea fulminante entre os dedos.
Uma doença:
aguda, grave
ou esdrúxula. Acelera. Atenção, atenção aos presentes:
atirei-me a um poço
voltei ao de cima
- estava cheio de ar,
despido e seco: com a faca entre os olhos
e o mal como necessidade. Sem emergência.
- Não provoca reacção.
Uma e outra vez atento a nostalgia:
sítios de onde se foge e aonde se volta: sem saber. Com raiva à morte do imperador.
Com força.
Imaginaram-me a nudez
e a doença saltou de mãos. Ou de cabeças.
É um vírus com dentes. É tudo o mesmo.
Não importa, não me importa. Foi o melhor que tive. Sou um fugitivo.
Estou curado
[cuspindo trovões numa auto-estrada:
certos estão que falharei. Dizem com ternura:
- é uma espécie de esquizofrenia. Ou neurose. Todos eles tão brilhantes. São dos que sabem o que é a normalidade.
Um cocktail sem álcool. Antes tivesse. Um buffet mental de entranhas e buracos
em círculo.
É só uma cadeira.
Mas...mas...
Mas então visto um fato e entro em casa.
Recebo-me a mim próprio:
com um cortejo e uma dança: donde nos dão a provar
os dados e as unhas ou o perigo dos animais. Nada disto faz sentido.
Falamos até tarde sobre as vozes na nossa cabeça.
[sobre as vozes na nossa conversa
e lutamos com escudos em montras de lojas
- derrubados pela leveza dos mitos
Percebe que somos dois? São hemisférios
ou meridianos. Coisas que separam coisas.
Antíteses. Ou sóis. Sim, o sol é bom
e pousa na gaiola. Volto a ti.
Durmo dentro de um uma mulher
num corpo abandonado. Não sinto nada.
Saio de casa a meio da noite:
corro. Ninguém ouve. Volto a primeira
à segunda pele
[em espécie de auto-socorro:
chego à Holanda. É um país como os outros:
com árvores e pessoas
e secretas perversões. Há fogo. E conversas
sem ter que falar. Sacralidade debaixo de pontes.
- pergunto-me se existirão jardins que tombam no escuro
Envio as malas para África:
- a minha história divide-se.
Ja ninguém sabe quem sou;
também ninguém me procura.
[vivo finalmente livre
Passam-se dias. As sombras são mais escuras,
os olhos pesam o dobro dos homens,
a ironia dança.
Empanturrado de liberdade morro à fome.

Não será expressão de loucura
a pretensa da sanidade?
Ler poema completo
Biografia
"Pensa que disponho assim de desafogos morais, luxos do espírito, remansos culturais burgueses, para entregar-me a libertinagens da emoção? Tive infância, só isso. Ou seja: falta de jeito, indecisão, uma grande ignorância. Olhava para as coisas: eram fundas, enigmáticas, desorientadoras. Tudo estava cheio, porque o meu coração ávido tudo recebia: era um espaço palpitantemente vazio. Agora não, agora estou cheio de pessoas, lugares, acontecimentos, ideias e decisões. E tudo me parece deserto. Não, voltar à infância, isso nunca. Sofre-se. O mundo é grande. E há tanta curiosidade e paixão, tanta ignorância. Doloroso. Espera-se, está-se nas coisas, cegamente imiscuído nelas. Que angustiosa esta voracidade, esta fusão analfabeta com a instável matéria do mundo! Agora sou inteligente. Existo, existe o universo. Duas realidades distintas, inimigas, inúteis. Sim, deite mais brandy. Sou um bêbedo, claro. Que esperava? Que fosse um apóstolo, um assassino, um político, um anjo? Não, sou apenas um bêbedo." - Os Passos em Volta, Herberto Hélder

Poemas

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Hemisférios

Fascinado: com a minha figura.
Narcisismo? Não me reconheço.
Quem olha? Quem retribui? A face oculta ou
o espelho. Apanha-me a perna: a estranheza. Ter um rosto,
um capricho, uma náusea fulminante entre os dedos.
Uma doença:
aguda, grave
ou esdrúxula. Acelera. Atenção, atenção aos presentes:
atirei-me a um poço
voltei ao de cima
- estava cheio de ar,
despido e seco: com a faca entre os olhos
e o mal como necessidade. Sem emergência.
- Não provoca reacção.
Uma e outra vez atento a nostalgia:
sítios de onde se foge e aonde se volta: sem saber. Com raiva à morte do imperador.
Com força.
Imaginaram-me a nudez
e a doença saltou de mãos. Ou de cabeças.
É um vírus com dentes. É tudo o mesmo.
Não importa, não me importa. Foi o melhor que tive. Sou um fugitivo.
Estou curado
[cuspindo trovões numa auto-estrada:
certos estão que falharei. Dizem com ternura:
- é uma espécie de esquizofrenia. Ou neurose. Todos eles tão brilhantes. São dos que sabem o que é a normalidade.
Um cocktail sem álcool. Antes tivesse. Um buffet mental de entranhas e buracos
em círculo.
É só uma cadeira.
Mas...mas...
Mas então visto um fato e entro em casa.
Recebo-me a mim próprio:
com um cortejo e uma dança: donde nos dão a provar
os dados e as unhas ou o perigo dos animais. Nada disto faz sentido.
Falamos até tarde sobre as vozes na nossa cabeça.
[sobre as vozes na nossa conversa
e lutamos com escudos em montras de lojas
- derrubados pela leveza dos mitos
Percebe que somos dois? São hemisférios
ou meridianos. Coisas que separam coisas.
Antíteses. Ou sóis. Sim, o sol é bom
e pousa na gaiola. Volto a ti.
Durmo dentro de um uma mulher
num corpo abandonado. Não sinto nada.
Saio de casa a meio da noite:
corro. Ninguém ouve. Volto a primeira
à segunda pele
[em espécie de auto-socorro:
chego à Holanda. É um país como os outros:
com árvores e pessoas
e secretas perversões. Há fogo. E conversas
sem ter que falar. Sacralidade debaixo de pontes.
- pergunto-me se existirão jardins que tombam no escuro
Envio as malas para África:
- a minha história divide-se.
Ja ninguém sabe quem sou;
também ninguém me procura.
[vivo finalmente livre
Passam-se dias. As sombras são mais escuras,
os olhos pesam o dobro dos homens,
a ironia dança.
Empanturrado de liberdade morro à fome.

Não será expressão de loucura
a pretensa da sanidade?
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Psicanálise, Talvez ironia

Uma escada de pedra em espiral
que nasce no seio do mar
e viola as ondas
- por baixo
e abre um espaço
- um centro torto
pelo qual ascende ao abismo em chamas
e se faz ver:
A imagem de longínquo homem
de pé em cima de uma cadeira
com o peito em forma de porta
- aberta
por onde entram as ondas
[em golpes certeiros
e se faz cinzento o mar.
Há um compasso delirante
que se faz sentir
por entre as veias de mel
no topo da escadaria:
- onde um outro homem
diz ter visto uma árvore roxa
e a seguir
atirou-se às aguas do mar
[sobressaindo pelo suicídio
Esse compasso
que anda pelo próprio pé
e questiona: "quanto tempo,
mas quanto tempo me resta?":
arranca um braço
com a boca fechada
e cospe galáxias leitosas
onde escorrega
e conhece os mitos da apropriação
do mundo
de dentro
[subjectividade ou espinha atada?
Havia um mar.
Era tudo o que havia.
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