OLHOS DO AMADO
Ó meu amado...
Estes olhos teus
São noites raras
Sem verem os meus
São oásis d’alma
Estrelas soltas...
Nesse firmamento
Como esse adeus...
Ó meu amado...
Esses olhos teus
Secretos e belos
Ao lerem os meus
São tesouros presos
Que guardo e velo
São cantos breves
Não há nos céus...
Ó meu amado...
Esses olhos teus
São dois faróis
Feitos por Deus
Quisera fossem
Mistério das rosas
Perfumando tudo
No jardim dos céus...
Ah! Meu amado...
De olhos ateus
Traz-me uma ilusão
Para os olhos meus
D’algum dia verem
Alguma esperança
Um sentimento puro
Nesses olhos teus...
CURIOSIDADE
Em duas horas escrevo apenas uma palavra:
Saudade... saudade... saudade...
As visões que me perseguem nas noites
compridas – são sombras que se misturam
a realidade e me produzem calafrios...
As confissões de amor que morrem
na garganta – são como os espinhos
(as rosas que colhemos para serem pisadas).
À noite, fecho as portas – e sento-me
à mesa da sala de jantar: me iludo e sonho.
O pensamento longe – vaga na ociosidade.
Procuro-te em vão por todos os cantos
da casa e não te encontro. Há tantos cantos...
Nosso sonho nunca é o mesmo que vemos
quando abrimos a janela e nos defrontamos
Com um céu cinzento
Com um mar agitado
Com embarcações perdidas...
Em nosso subconsciente nublado de medo.
Ponho a saudade para repousar e vê-la
distante é o que mais quero – persuadi-la.
Que este não é o seu lugar – não comigo.
Tento arrastá-la pra bem além daqui...
Desviar seu curso, seu percurso, seu caminho
errado – como errado é meu viver – aceito.
Atiro-me, retiro-me, fico e parto...
Reparto-me em mil pedaços – reinvento
outra história menos ridícula que me revele
o quanto de cruel existe em se morrer de saudade.
Sem ao menos, poder conhecer a verdadeira razão
que nos levou a enlouquecer de tanta curiosidade...
AMENIDADES...
Meu olhar repousa vertiginoso
Sobre essa vidraça transparente
Observo lá fora... as flores sorriem
Conversam umas com as outras
Suas amenidades do dia-a-dia...
Trocam pétalas com suas cores
Vibrantes e suaves perfumes...
Acariciam a brisa ofegante
Traduzindo seu idioma mudo
Como se fossem espelhos do sol...
Imagino os rios cantando suas águas
Transbordando seu ritmo em cadência
Desaguando em imensas cachoeiras
Como se fossem orquestras do mar
Entoando uma serenata de amor perdido...
Flores e rios: sorrindo e cantando...
Eu e tu – chorando e amando...
Perdemos nosso rumo, nosso destino
Como se fôssemos loucos prisioneiros
Num mar revolto de ondas pavorosas
Jogamos nossas queixas e flutuamos...
Quem de nós despertou mais cedo?
Quem ouviu o cântico dos passarinhos?
Quem colheu a única rosa do jardim?
Onde deixamos nosso ar respirar livre?
Onde plantamos a semente do amor?
Onde a paciência teve seu lugar?
Fico a cogitar mil hipóteses incoerentes
Sinto-me levitar num tapete gigante...
Como a relva que cobre o pântano
Essa saudade disfarçada de indiferença
Envolve teu silêncio rastejando sóbrio
Num delírio febril de múltiplos ais...
É ASSIM, QUE EU FAÇO VERSOS...
Eu faço versos soltos, versos livres...
Como quem voa rumo ao firmamento
Faço versos luminosos e suspensos
Como quem depura o próprio sofrimento...
Eu faço versos presos, versos atados...
Como quem chora de arrependimento
Faço versos de remorsos e saudades
Como quem desfalece o sentimento...
Eu faço versos ardentes e de volúpia...
Como quem ama sem acolhimento
Faço versos de profundo desencanto
Como quem sonha sem nenhum lamento...
Eu faço versos de sangue e de tristeza...
Como quem morre sem padecimento
Faço versos de mágoas e de perdão
Como quem sente algum constrangimento...
Eu faço versos de amargor, versos silentes...
Como quem desvenda um encantamento
Faço versos esparsos da nossa despedida
Como quem busca um novo salvamento...
Faço versos de luto, versos náufragos...
Como quem se afunda em tormentos
Faço versos tortos e mal traçados
Como quem descreve um rompimento...
Faço versos ateus, versos cristãos...
Como quem abençoa o sacramento
Faço versos declarados e omissos
Como quem vive apenas um momento...
MUITO ALÉM...
Estou muito além das tempestades
Dos vendavais
Dos terremotos
Do céu e do mar...
Mas, diante daquele pássaro silencioso
Sem asas, para voar bem alto...
Não consigo encontrar dentro
De mim – meu ponto de equilíbrio...
Estou muito além da miséria humana
Da vileza da mente
Da vaidade
Do egoísmo...
Mas, diante daquela flor do campo
Perfumando a inocência d’alma
Não posso alcançar a pureza
Do olhar de um cego – olhar de piedade...
Estou muito além da natureza
Das montanhas
Dos bosques
Da selva...
Mas, diante daquela música suave
Penetrando nos meus ouvidos com doçura
Não é possível deter tamanha harmonia
Ao som melodioso de uma orquestra...
Estou muito além do infinito
Das estrelas
Da lua
Dos astros...
Mas, diante desse teu silêncio
Essa mudez plácida que me fascina
E me sufoca muito além da dor...
Não posso conter a ânsia que me causa
Essa espera – muito além dos meus limites...
FALANDO COM AS ROSAS...
A minha solidão é quase perfeita...
Observo um jarro de flores
sobre a mesa da sala de estar.
Estão ávidas – umas sobre as outras.
Quase perfeitas na sua mudez
tranquilas e imobilizadas
como eu estou – diante delas
diante da vida que me reserva...
As rosas olham-me com grande piedade
e aceitam – meu último pedido de perdão
que já vinha misturado a altivez
de uma solidão já quase perfeita...
Não pude impedir o alivio que senti.
As rosas – com sua modéstia de flor
Eu – sem uma palavra sequer a dizer...
Fazia o possível para não me tornar
luminosa, inalcançável, superior...
Voltei a minha insignificância...
Com reconhecimento. Cheia de curiosidade,
esquecida da própria submissão.
Com um vago desprezo pela rudeza natural
da humanidade. De tudo que despertara
em mim. Senti um carinho perplexo
pelas rosas que dominavam meu espaço
e me vesti de branco obedecendo ao tempo...
Com timidez e respeito – sentei-me
no sofá sem apoiar as costas.
Alerta e tranquila – como um trem que já partiu...
Há quanto tempo eu não fazia isso?
AMOR EM METAMORFOSE
Quem diria?
Houve um tempo de nós dois...
Que eu te implorei consciente
Por tua ausência
Por teu afastamento
Por tua distância...
Para que eu me sentisse mais segura...
Quem diria?
Houve um tempo de nós dois...
Que eu te procurei carente
Por tua amizade
Por tua compreensão
Por teu carinho...
Para que eu me sentisse mais alegre...
Quem diria?
Houve um tempo de nós dois...
Que eu te ignorei indiferente
Por teu egoísmo
Por tua desconfiança
Por teus excessos...
Para que eu me sentisse mais leve...
Quem diria?
Houve um tempo de nós dois...
Que eu te imaginei perfeito
Por teus sonhos
Por teus pensamentos
Por teus poemas...
Para que eu me sentisse mais viva...
Quem diria?
Houve um tempo de nós dois...
Que nos descobrimos um ao outro
Sem imaginar o abismo entre os dias
Que nos separavam
Que nos aproximavam
Que nos conduziam...
Para que nos sentíssemos menos sós...
INFERNO DE TE AMAR
Quem me veio despertar?
Este querer – este inferno de te amar!
Essa chama que me embaça a alma
Que me consome e destrói a vida
Como veio me crestar?
E derramar-se em sonho, talvez!
Quando ela haverá de se apagar?
Noite e dia esperou-me – embalde
Em qual paz serena haverá de dormir?
Ninguém chorou meu pranto, ninguém!
A outra vida que vivi – do meu passado
Já não me lembro o que foi sonho, ilusão
ou pesadelo. O que foi princípio, meio e fim.
O que me restou desse mundo inteiro?
Ao sol paciente estive arquitetando
Um ninho – de sentimentos e arrulhos
Feito os passarinhos – alma sem asas
Presos em gaiolas sem poder voar...
Nós paramos de súbito nessa longa estrada
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
O pensamento ferve – arde e sangra
Num deslumbramento de quem sofre
A palavra pesa – o perfume inebria
O que de nós consola – a vida se declina!
EU NÃO TE AMO!
Eu não te amo, desejo-te, o amor vem d’alma
Trago em mim – toda a calma
Que bem me espera – na sepultura
Por isso, digo-te: não te amo, não!
Eu não te amo, desejo-te, o amor é tudo.
E tudo que sinto – é mudo
Como essa noite escura...
Por isso, digo-te: não te amo, não!
Eu não te amo, desejo-te apenas.
É uma pena que assim te queira
No meu peito a ânsia me devora
Sem chegar ao coração...
Eu não te amo, desejo-te como a vela
Mil velas que acende as estrelas
Sem deixar que tu vás embora...
Essa é minha condição?
Desejo-te, não te amo, eu não minto.
Não finjo – o sentir não é instinto
Debalde, tenho chorado...
Este sentimento insano!
Indigna sou, porque te desejo, e tanto.
Meus dias queimam, e, no entanto,
Tenho medo, tenho te invocado...
Mas, amar! Não te amo, não!
O HOMEM QUE ME AMAVA...
O homem que me amava...
Veio do meu mundo inconsciente
E trouxe consigo as dores
Do tempo que nos conhecemos
Presos, num labirinto perdido,
Onde tudo era maldito
Onde tudo era pecado
De nossas almas em conflito...
O homem que me amava...
Veio do meu mundo diferente
E trouxe consigo os amores
Do tempo que nós vivemos
Unidos, num templo esquecido,
Onde tudo era bendito
Onde tudo era passado
De nossas vidas em atrito...
O homem que me amava...
Veio do meu mundo inconstante
E trouxe consigo fantasias
Do tempo que nos amamos
Juntos, num paraíso perfeito,
Onde tudo era saudade
Onde tudo era lembrança
Em nosso mundo de intimidade...
O homem que eu amava...
Veio do meu mundo distante
E trouxe consigo poesias
Do tempo que nós sonhamos
Longe, num abraço estreito,
Onde tudo era serenidade
Onde tudo era esperança
Em nosso mundo de felicidade...