Eidos
Minha viola cansada
Morre sossegada no chão
Aperriada, minha forte enxada
É dominada por minha mão
Sinto que sou o próprio chão rachado
Um metro quadrado de sertão.
Fico a profetizar se a chuva tarda
Ou se só chove na próxima estação
No barraco só tenho pouco d'água
Inda ontem tinha pão.
Só sei do futuro até de madrugada
Depois já não sei mais não
Se me embebedo de cachaça
Ou se fujo na boleia do caminhão
Se vou pra cidade fazer fumaça
Ou procurar água no Ribeirão
Se busco por meus onze filhos
Ou se embrenho na solidão
Tento seguir adiante no caminho
Mas vem boiada na contramão
Me sinto galho retorcido feito cobra
Sou todo pau pra pouca obra
Minha alma secou junto com o poço
Por dentro e por fora, sou só pele e osso
Rezo a Deus por salvação
Sou um sólido solitário, real e imaginário
Metro quadrado de sertão.
Vinícius Carvalho da Silva

Sacralidade
Sacra toda a vida sobre a Terra,
Sacro o século, sacra a Era
A luta, tantas lutas, tantas luas
Tantas noites enluaradas, tanto Nada
Fogo, espada, brasa, fumaça...Serra
Tanta espera, tanta a Saudade
Sacra a dor, Sacra saudade
Sacro todo sentimento que evade
Jorra, Mola, explode, consome,
Sacro cada homem para Deus
O Deus, sacro para cada homem
Sêmen, some, o raio, o trovão,
A pedra, o ferro e o brasão,
A nuvem carregada de passado
Pesado, o sol, cheio de futuro
O muro, cheio de limite
A boca, vazia de palpite
Pássaro, alpiste, alegre e triste
O Filme, cheio de imagem
O Mundo, cheio de Paisagem
Cheio de encruzilhada, a travessia
O carnaval, cheio de alegria...
Cheio de luz e ritmo e som, o Samba
O Samba cheio de Magia
O terreiro cheio de bamba
Cheio de brilho, o dia...
Sacro, sacro santo,
O Universo e tudo o que se imagina
O passado que repousa na História
E o novo, que no devir se anuncia.
Sacra a face de Deus
E a mão de Zeus vazia
O pouco de luz que há na noite
E o tanto de sombra que habita o dia
O que há de loucura no mundo
E de Razão, a que mora na Filosofia
Sacra a Ciência, a mergulhar no fundo
Sacra cada relva, sacra a selva do mundo
Cada novo nascimento, rebento
Sacro cada luto, surdo soluço, espectro intruso
Cada letra, cada tinta, todos os versos
E os mistérios indeléveis, de todos os universos
Vinicius Carvalho da Silva
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