Viriato Oliveira

Viriato Oliveira

n. 1955 PT PT

n. 1955-12-02, Lisboa

Perfil
6 679 Visualizações

Lendo Pessoa

Ah, Fernando, ainda um dia gostaria de conversar contigo, sem pressas, ao entardecer sereno de Lisboa.
A nossa conversa seria entre os espaços das palavras e a sua sombra em nós, entre o teu tempo e o meu, espíritos
partilhando algo universal, algo que transcende carpinteiros e poetas.

          Se eu não sei o que é ser poeta, porque não mo explicas tu ? Mas tu não podes, viveste em Lisboa e partiste
para o indefinido muito antes de eu nascer. E, mesmo que tivéssemos sido contemporâneos, igual seria. Suspeito
que também tu não sabias o que é ser poeta.
           Serias tu poeta ? Que fazias naquele tempo em Portugal, na Rua dos Douradores, discorrendo sobre assuntos
tão removidos do tempo e do espaço, sobretudo do espaço ? Ninguém te entendeu, ninguém jamais te entenderá.
Eu, serei apenas um leitor confuso, ou um escritor confuso, que julga ver nas entrelinhas de ti algo de real, ou o que
de real têm os sonhos.
           O que tu não conseguiste dizer, nem eu nem ninguém o conseguirá nunca, mas tu tentáste-o sem medo e
sem escrúpulos, com toda a força da tua alma e da tua inteligência. Está aí o teu génio. Talvez, no entanto, o
tivesses dito, e muitas vezes, mas é que, afinal, tudo se esbateu por entre o sol poente.
Ler poema completo

Poemas

20

Covid-19

Covid-19.
               Não a primeira pandemia nem a última.
               Aqui estamos, enfrentando um inimigo comum, mas com diversas estratégias que
por vezes se atacam entre si com mais violência do que atacam o inimigo; mas é aqui que
estamos, onde a força de viver se mistura com considerações económicas. Parece que aqueles
que amamos estão a prejudicar o futuro dos nossos investimentos; afinal, os mortos não
parecem produtivos e os vivos já não sabem se querem realmente viver.
               Isto não é de admirar, para quem de algum modo tem observado o percurso da
"humanidade" com uma mente fria e analítica.
               Também em evidência (para quem estiver acordado) estão as contradições
inerentes ao sistema capitalista. Este último, já tão encurralado até aos seus limites, sofre
agora un desafio gigantesco.
               Como é comum neste sistema, os mais fracos morrem primeiro. Paradoxalmente, a
lei da Natureza coincide com ele. Mas a Natureza, funcional como é e não mecânica, elude-nos
a todos. Os mais fracos são-no por variados motivos, talvez sofram de defeitos genéticos,
doenças crónicas, idade avançada, sistemas imunitários deficientes, ou talvez tenham
simplesmente um estatuto social inferior.
               Os sobreviventes, quaisquer que eles sejam, podem sobreviver apenas um curto 
espaço de tempo: em termos geológicos, um milénio é um abrir e fechar de olhos.
As economias, tal como estão construídas, estão a desmoronar-se. A própria vida parece
estar a perder valor, em face da necessidade de produzir.
               Mas produzir o quê? Mais riqueza para os que já são ricos ? Um mundo melhor
com menos poluição, menos guerras e menos fome ? Mais umas semanas de vida, para 
sucumbir mais adiante a este ou a outro vírus, ou a qualquer catástrofe que a ciência
ainda não antecipou ?
               Porque, meus amigos, a biologia é absolutamente apolítica, com um total
desprezo por estatutos sociais, pelas economias e pelas inconveniências que pode causar
às pessoas.
               Hesitamos entre preservar a vida e preservar a economia; é realmente uma
escolha pré-apocalíptica. Porque, segundo eu sei, os mortos não são produtivos nem 
podem sustentar indústrias de turismo, nem de armamento, nem de tráfico de droga,
nem de telefones inteligentes; esse é o domínio dos vivos.
               Quais são então os perigos que nos esperam ? Será o terrorismo, será o
Covid-19 ou o Covid-20, será algum asteróide inter-galáctico que se esmague contra o
planeta Terra, será o egoísmo e a ignorância que nos consomem, será a estúpidez que
acompanha a inteligência da nossa espécie, será algum outro perigo totalmente
desconhecido ?
               A espécie humana seguirá o seu percurso até ao fim; quando este terá lugar,
se o tiver, não sabemos.
               A Natureza, funcional e não mecânica, ultrapassar-nos-á. Quando finalmente
pensarmos que a conquistámos, isso marcará o fim dos nossos dias, e não seremos mais
do que dinossauros num Universo em constante mudança.
251

Há muito tempo

Há muito tempo, creio que durante a minha adolescência, cheguei a pensar que um dia poderia ser padre. Não é muito estranho, se considerarmos que também escrevi um soneto enaltecendo Salazar, um dos demónios portugueses. E não pensei só no sacerdócio, mas também
noutras categorias, como por exemplo monge. Monge é uma figura mais ascética, mais removida da religião visível, mais atraente para os
desiludidos da sociedade.
        Existem figuras no meu passado que eu não sei se alguma vez foram reais, ou se foram apenas produtos da minha imaginação.
        E isso leva-me a considerar se eu mesmo sou real, ou uma ilusão que permanece durante muito tempo.
        Há muitos anos, mais do que a minha memória consegue esquecer, visitei com os meus pais o que restava de um mosteiro no alto de um
monte, no norte de portugal; ali, Deus tinha sido adorado, esquecido e ultrajado. Mas, não obstante isso, o ar era puro e altivo, desprendido
da planície, como que a meio caminho do céu. A igreja era linda, embora eu não me recorde dela, mas na sacristia, onde guardavam os
paramentos dos sacerdotes, havia um baú de madeira com muitos metros, e a tampa, também de madeira, era uma peça sólida e inteira.
        Impossível saber se assim eram os intelectos dos que por ali passaram; não duvidando da sua fé ardente, quantas seriam as brechas, e
que profundas, nas almas dos ascetas ?
        Mas o meu espírito elevou-se com essa experiência; o lugar era alto e extraordinário e falava do que mais puro pode existir entre nós.
A paisagem era fascinante, o vento soprava com uma liberdade benigna, o ar era rico e fragrante.
         Nem eu, no dia de hoje, posso afirmar se o que percebi era real.
         O dia avançava sobre si mesmo, e eu, miserável humano, senti fome. Uma refeição de pão e queijo foi encontrada, por boa vontade
dos locais, e até hoje outra igual não encontrei. Os cavalos regressavam do pasto, por si sós, pelas ruas da aldeia. Alucinações não eram. É
verdade que vi cavalos  a trote pelas ruas da aldeia sem ninguém a guiá-los, mas eles sabiam aonde iam.
         Gostaria de poder dizer isso, então, sobre mim próprio.
         Mas senti, sem o poder compreender, que nesse mosteiro no cimo do monte, sem a luxúria de um futuro ainda desconhecido, me
poderia  encontrar a mim mesmo, sem ver o meu rumo desviado por ilusões estranhas às minhas, nem sequer pelas minhas próprias
fraquezas.
         Não sei porquê, mas chegámos tarde para o jantar.
256

Lendo Pessoa

Ah, Fernando, ainda um dia gostaria de conversar contigo, sem pressas, ao entardecer sereno de Lisboa.
A nossa conversa seria entre os espaços das palavras e a sua sombra em nós, entre o teu tempo e o meu, espíritos
partilhando algo universal, algo que transcende carpinteiros e poetas.

          Se eu não sei o que é ser poeta, porque não mo explicas tu ? Mas tu não podes, viveste em Lisboa e partiste
para o indefinido muito antes de eu nascer. E, mesmo que tivéssemos sido contemporâneos, igual seria. Suspeito
que também tu não sabias o que é ser poeta.
           Serias tu poeta ? Que fazias naquele tempo em Portugal, na Rua dos Douradores, discorrendo sobre assuntos
tão removidos do tempo e do espaço, sobretudo do espaço ? Ninguém te entendeu, ninguém jamais te entenderá.
Eu, serei apenas um leitor confuso, ou um escritor confuso, que julga ver nas entrelinhas de ti algo de real, ou o que
de real têm os sonhos.
           O que tu não conseguiste dizer, nem eu nem ninguém o conseguirá nunca, mas tu tentáste-o sem medo e
sem escrúpulos, com toda a força da tua alma e da tua inteligência. Está aí o teu génio. Talvez, no entanto, o
tivesses dito, e muitas vezes, mas é que, afinal, tudo se esbateu por entre o sol poente.
281

Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?

Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Aperte aí a mão,
mas tire os óculos primeiro.
Então esses poemas de solidão ?

Aperte aí a mão como sabe fazer,
e mostre lá o poema que ainda não mostrou
a todos nós, que o queremos ler...
os outros, foi uma núvem que passou...

Não vale a pena ler o que escreveu,
porque foi só o que teria que ser.
Mas o tal poema em que viveu,
esse é que queremos ver.

É um fantasma, o Sr. Alberto Caeiro !
253

O ídolo, de costas

O ídolo, de costas.
Não é o tempo de acreditar em ídolos,
é senti-los esvoaçar no fantástico.
Voltando-se, devagar.
Nada mais resta.
Tudo está caído pelo chão,
como uma alma morta e ausente
a sentir nos ouvidos a música de ontem.
A pedra, o monumento.
A figura geométrica sobre um papel.
As palavras em leque,
imagens de feiras perpassadas de nevoeiro.
O amigo.
De costas, voltando-se devagar.
Do seu rosto pendem flocos de neve,
e nos seus olhos vibra a música sem sentido.
Estendo a mão, plano.
Nada.
Tudo está acabado,
a caminho de uma grande manhã.
É uma névoa que está na noite.
É um fantasma alado sem olhos e sem braços,
colhendo pétalas de flor de lótus.
É uma criança olhando o poente,
um prado com uma ponte.
A estátua e a estrada para o além,
ladeada de árvores e retiros familiares.
Tudo permanece em movimento.
O chão, as casas.
O plano e o tempo.
O ídolo,
cravando os seus olhos de barro
em teatros mágicos.
Tudo permanece encerrado em si mesmo.
Tudo concentrado em tudo.
Os sons, com braços de outros corpos,
o mar, com reflexos de outras coisas...
O ídolo, a pedra e a memória.
Os horizontes transmutados.
A permutação de tudo.
Fora um pequeno ramo, que baloiça devagar.
250

Sorriso medieval

Sorriso medieval estático
a vibrar por dentro das cores
e um gesto hierático
desdobrando-se em diversos amores.

O rio e a floresta
bastante longe disto.
Os ecos de uma festa
em que se escolhe um Cristo.

E a montanha e a neve,
suores cristalizados de um teatro passageiro;
um sonho brusco e leve
mas que nos surge inteiro.

Um arrastar de asa dormente
de um réptil estelar,
a interjeição que persiste na mente
na hora de acordar.

E um riso. E um grito.
Desmaterializar a vida.
Fazer parte do mito
de uma espécie perdida.

Ave voando sobre o mar,
vento inclinando as árvores muito,
o sol outra vez a brilhar
e um silêncio furtuito.

Há um musgo a bater na filha,
sorvendo a vida com grandes colheradas de açucar
e preto-verde à beira-mar
como devem ser todas as algas
à beira-mar,
com um casaco de pescador sobre os ombros
e um cachimbo a flutuar nas marés,
com a voz dos afogados,
das estrelas marinhas,
e de todas as crianças famintas, com as mãos estendidas
a pontuar o luar...
239

O prado é diferente do abismo

O prado é muito diferente do abismo,
príncipalmente se tem flores,
e a realidade é uma bola de sabão
que vai para onde a leva o vento.
Reparar nisto
é como estar sentado na montanha,
com o sol lá em cima
e o rio lá em baixo,
vendo as casas ao longe
e gostando de as ver longe.
A realidade é deixar o sossego das árvores
e correr para onde a pressa nos chama.

No meio do prado há um abismo.
E é impossível recordar, para lá do horizonte...
255

Digam-me que este navio vai chegar amanhã

Digam-me que este navio vai chegar amanhã
a um porto de sol.
Que as gaivotas virão comer à nossa mão.
Digam-me que a bruxa Fiama está morta,
que sorri, mas que o seu sorriso é de morte.
Digam-me que brincaram,
que apenas pretendiam jogar à cabra-cega.
Hoje, os cães ladraram como se não fosse hoje.
Se eu fosse cão, tinha mordido.
Se eu fosse gato, tinha arranhado.
Se eu fosse sonho, tinha fugido para os pés do Senhor Krishna.
Se eu fosse eu, tinha sentido montanhas de amor.
261

A noite dos loucos

Caiu por fim a noite enluarada
no carnaval dos loucos invisíveis,
já sem fim nem princípio, insensíveis
tanto à fada do sonho como à sede do nada.

Mas de todas as cores está pintada
essa mente e esse corpo, imprevisíveis.
Amor... razão... loucuras impossíveis
já há muito deixaram a face desgrenhada.

Ecos... estrelas... a noite permanente...
os sorrisos na mão de toda a gente
como a máscara cruel de uma visão...

ao longe o mar... a festa inacabada...
e o frio macabro de lâmina de espada
a palpitar atrás do coração...
253

Viajo

Viajo sobre uma linha recta sem princípio nem fim, que separa a loucura do mundo da razão. Ao caminhar pela vida, os meus pés pisam
alternadamente um e outro lado, num esforço permanente para manter o equilíbrio.
        Mas, ao caminhar sobre esta linha como um funâmbulo, já não sei de que lado é o abismo mais profundo, nem sei se os abismos, reais ou
imaginários, estão para baixo ou para cima de mim.
        Para preservar a sanidade mental que me resta, tenho que admitir a existência do cinzento, do meio termo, não obstante a minha inclinação
para pensar a preto e branco: as coisas ou são ou não são; se não são verdadeiras então são falsas, se não são reais então são imaginárias. As
tonalidades das cores serão para os poetas, naquela desmedida ânsia que também é a minha, de imitar o fantástico.
        Porque a realidade é absurda, e o absurdo é real.
        Aonde está a escuridão pode entrar a luz, mas onde está a luz não pode entrar a escuridão.
        O meu destino humano é caminhar sobre aquela linha, sem saber de onde vim nem o que encontrarei amanhã; mas sei que é necessário
manter um passo firme e certo, sem fitar os abismos, sem temores irracionais nem vertigens de espanto.
        Arde em mim um profundo sentido de mortalidade, sabendo no entanto que a minha essência é imortal.
250

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.