❧
Andante
Andante reúne poemas escritos a partir de experiências de uma vida. De escrita simples, sobre temas do cotidiano, com reflexão sobre questões que atormentam a existência humana.
A Borboleta e o João de Barro
Bateram no meu carro
Eu, a 70 por hora
Não pude evitar
De aparência tão frágil
Ambas as vidas venceram
E recuperadas do choque
Se puseram a voar
A vida é assim
Quando vence a morte
É coisa divina
Uma graça ou sorte
Mas quando a temos fácil
Ou dela abundamos
Nos pesa como fardos
Sempre à se libertar
A Borboleta amarela
Seguiu brilhando mais que os faróis
O outro, mostrou-se tão forte quanto o que constrói
A vida é assim
Na briga com a morte
Quando a vence
Uma missão a cumprir-se
Para nós, seres pensantes
A vida é assim
De sonhos distantes
Difícil de seguir
Bem dizia Belchior
Mais que sonhar,
Viver é melhor
A Lua veio me contar
Eu meio surdo, ainda ouvi
Que o seu corpo brilha forte
Cegando os olhos dela
Me pediu pra te encontrar
Para tentar te cobrir
Disse desejando sorte
E que estaria na janela
Se eu precisasse contar
Tudo o que senti
Ou quisesse lembrar
Os pedidos que esqueci
De quando eu era um garoto
E para ela mirava
Deitado na grama
Enquanto em ti pensava
Acordei...
De acordo
Com o acorde
Que toquei
E saí...
À procura
De um emprego
Consegui...
Um tempo de trabalho
Em que deixo de ser eu
Um tempo de trabalho
Eu, um proletário seu
Em troca de pão
Em troca de grãos
Em troca de tudo
Que preciso
E não tenho
Pra poder
Dormir cansado
E acordar
Acordei
Acordei...
De acordo
Com o acorde
Que toquei
E saí...
Com a viola
Na sacola
Eu prossegui
Vagando na cidade
Na labuta por sustento
Cantando pelas praças
Lançando poema ao vento
Em troca de pão
Em troca de grãos
Em troca de tudo
Que preciso
E não tenho
Pra poder
Dormir cansado
E acordar
Acordei
Sigo andando pelas ruas
Contando os dias pelas luas
Sem conseguir esquecer
Só, com lenço e documento
Empurrado pelo vento
Para qualquer direção
Vou mirando as estrelas
Atravessando por vielas
Parando só pra beber
Ando sempre a passo lento
Sou o senhor do meu tempo
Mas a liberdade é ilusão
Se o caminho se faz mesmo ao caminhar
Quero ver ao fim em que isso vai dar
Se ao chegar grades mais fortes prenderão-me
Ou se como um rio,
Por leito torto, chego ao mar
Se o caminho se faz mesmo ao caminhar
Quero ver ao fim em que isso dará
Se as espirais do inferno descerei
Ou se, finalmente, Beatriz ali estará
Sonhos não envelhecem?
Adormecem!
E por que?
Tanto tempo passa
E quando se nota
Já foi
Já não tem mais volta
Já não tem mais sono
Já não tem mais sonho
Mais lágrimas
Mais amor
Só dor
Dor e dor
Seca
Estou doente, doutor
Não sinto nada.
Já não há mais esperança, senhor
É o fim da estrada.
Qual é o diagnóstico, doutor?
Suspeito que seja contagiante,
Talvez uma peste, senhor
Vinda do estrangeiro.
Me arrebata a indiferença
A falta de crença
Não, não me recomende repouso, ficar deitado
Eu continuarei a pensar, buscar significado
Para algo insuperável.
Ah, doutor, como eu queria ver as estrelas de perto
Qual seria a sensação?
Estaria lá o sopro que precisa meu corpo?
O remédio para meu coração?
Não, doutor, esse eu já tomei, só me faz dormir
Eu não preciso de mais anestesia
Eu só quero sentir!
De verdade, cansei de hipocrisia
Eu quero voltar a cantar e chorar
Doutor, não acredito em você e na sua ciência
As luzes! Era para ser tudo melhor
Talvez hoje eu sentiria algo
Eu deveria despertar para a humanidade, não?
Ah, a alma! O que faria de nós irmãos, o espírito.
Tudo escorre entre as nossas mãos, como um comprado líquido
E eu não espero mais nada
Não sinto mais nada
Já não caminho e já não se faz mais a estrada
Que me conduziria ao meu sonho
Que se perdeu em alguma curva
E se despedaçou como vaso seco atirado ao chão
Agora estou aqui, diante de ti,
Reclamando minha sorte
De ser condenado a viver o absurdo
E na minha liberdade escolher
O que ouvir e ver, já que nada mais posso sentir,
Até o dia de minha morte.
É um dia de memórias
Poucas
Que vazio
Inexplicável
Como sob sol sentir frio
Saudade tolerável
Importante é viver
Pelas luzes da cidade
Pelos vagalumes dos campos
Tenho ainda pouca idade
Eu queria mesmo é chorar
Cair em pranto
Lavar a alma
Mas a fonte secou
E a dor é seca, no peito
São memórias poucas
E ruins
Ferragens, curva, chuva
Você roxo, com faixa e caixão
São flores e flores, coroas
Foste rei
E fazes falta
Demais
O enigma do belo não está na forma, mas na essência!
Para percebê-lo falta método à ciência.
Por isso, meu amigo, paciência!
Está chegando o Domingo
E é sempre muito bom
Poder almoçar contigo
Ouvir sua voz, tocar sua mão
Que tanto amor já me deu
E que jamais retribuirei
Na altura que mereces
Mesmo assim eu te direi
Como é bom ter você por perto
Estrela do lar, coração sempre aberto
É como encontrar um oásis no deserto
E poder trilhar o caminho do amor
E quanta dor
Ensinou-me a suportar
Com sua fibra, seu exemplo de viver
Você é sempre luz na minha vida a brilhar
Mãe, Pai e Avó, a Estrela do Lar
Eu canto
Mesmo sem saber
E quem pode entender?
O porquê devo cantar
Eu sigo
De alguma maneira
Do meu jeito e como quero
Nessa estrada caminhar
Tenho mesmo essa sina
Desde menina
Que a vida me ensina
Por onde devo cantar
E mesmo quando
A voz desafina
Não me desanima
De aprender a cantar
Eu vim do marE pra lá eu vou voltar
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Fiz pra você
Um barco de papel
Pra viajarmos
Sob os tons azuis do céu
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
O azul e o branco do mar
O azul e branco do céu
O branco do papel
O azul da água com o branco do teu véu
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Estou certo de que não me enganei
Não vim do pó
E ao pó eu não voltarei
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Me sinto feliz
Quando tenho tempo
De andar a passo lento
Entre parques e jardins
Nesse tempo
Vejo em mosaicos vivos
Muitas plantas coloridas
Que mesmo esquecidas
Preservam sua beleza
Ah, mais tem momentos de tristeza
Porque a vida também corre
E não posso controlar
Todo o tempo que eu teria
Se eu tivesse a alegria
De não ter que me empregar
Menino de cidade pequena
Cresce jogando bola
E com os amigos na escola
Faz da vida, sucessivas cenas
Carrega consigo a missão
De, errando, tentar acertar
O destino que vislumbraram-lhe alcançar
Ao falar-lhe em vocação
Menino simples, de cidade pequena
Que caminha descalço
No barro deixa seu rastro
Que cabe à chuva apagar
Marca seu caminho no atraso
Com tinta de sangue e suor
Na tela deixa seu traço
À espera de um dia melhor
Meu amigo violão
Que sempre me estende o braço,
Dá-me a mão e no compasso
Ouve-me dizer
Meu amigo violão
Que ao abrir a boca,
Responde à minha voz rouca e
Ajuda-me a esquecer
Meu amigo violão
Que me oferece o seu corpo
Que tocado desafina um pouco
E faz-me perceber
Que nas noites de lua cheia
Como eu, existem milhões de amantes
Que te ajeitam de lado no colo
Para fugir da razão
E que por tanto dedilhar tuas veias
Como eu, em toques dissonantes
Fazem da ponta dos dedos calos
Para sentir o coração
Milagre pra quem acredita
É coisa de Deus
É sopro de vida
Que vence a morte
Como coisa de sorte
Algo que aconteceu
Milagre na fé popular
É coisa de algum santo
Presente no altar
Uma imagem de gesso
Que recebe adereço,
Sacrifício e pranto
Milagre é o gol da virada
No fim do jogo
É escapar da queimada
Quem brinca com fogo
É não se afogar
Na corrente do rio
Milagre é não ser baleado
Ganhar na Loteria
Não ser assaltado
Ter sua família
Porque a vida é dura
E estar só é ruim
Milagre é deixar vela acesa
E Pra quem está na mesa
Diante do prato,
Faminto e cansado
Espera um minuto
E se põe a rezar
Também é pra quem foi escolhido
Na fila de emprego
Para começar
Na segunda-feira
Acordar mais cedo
E sair pra trabalhar
Estou prestes à despedir-me, parece
Quem comparecerá?
Minha mãe e as irmãs por obrigação
Talvez algum amigo que me deve
Não deixei nada
Amores incompletos
Negócios falidos
Capoeiras crescidas no jardim
Está chegando o fim
Alguém chorará por mim?
Que pergunta em vão
Será o nada e só
Lamento pelos amores que não vivi
Por ouvir a razão
E só
Serei o pó da estrada
A gota do rio
O vento no frio
Na nuca de alguém
Nada além
Não quero esquecer que vivi...
Ao tocar sua mão
Ao notar a arte dos seus lábios, soprando o café
Ao ver nossos rastros na areia que o mar não ousou tocar
E o olhar lacrimoso pela janela do ônibus, que não mais voltará
São palavras cruzadas,
Canções mau cantadas,
Que não farão você voltar
Mas que retardam o amor,
Pois meu maior temor
É deixar de sentir...
Mesmo que não me perdoas,
Mesmo que nunca me entendas
Não quero esquecer que vivi...
Ao tocar sua mão
Ao notar a arte dos seus lábios, soprando o café
Ao ver nossos rastros na areia que o mar não ousou tocar
E o olhar lacrimoso pela janela do ônibus, que não mais voltará
Pois tocou-me a brisa do amor
E eu não quero esquecer quem me amou
E eu fiz sofrer...
Tire o custo e as despesasQue o lucro é o que resta
No papel é tudo fácil, como sabes
Os manuais já estão gastos
Mas erramos todos os dias
No papel é tudo fácil, como sabes
Como sabes, te conheço
Tenho até seu endereço
Mas no papel é tudo fácil, como sabes
O amor, o lucro, a guerra
Se nisso tudo, tudo vale
No papel é bem mais fácil, como sabes
Recebe do ponta e finaliza
Vá com cuidado sob a brisa
No papel é tudo fácil, como sabes
Na receita, põe dois ovos
Mexa bem e o resultado
No papel é bem mais fácil, como sabes
Uma mistura colorida
É a vida
É a vida
São as curvas do corpo dela
E as flores do vestido no qual está vestida
Uma mistura colorida
É a vida
É a vida
O Vale vira lama
É tanta chuva
Tantos dramas
Que as águas desse rio
Carregam para a foz
Levam o trabalho
O choro e o suor
Lavam o orgulho
O ufanismo, nossa voz
Mas tudo sempre volta
Sem deixar lições
Do que adiantou?
São reparações?
O que vale para o Vale
Também vale para a vida
É importante agradecer
Mas também pedir perdão
Mais humildade nas cidades
Coração na urbanização
O Vale volta à lama
Segue a nossa procissão
Cobro-me um poema para ti
Diferente de todos que escrevi ou li
Eu, que já não acreditava
Eu, que vivia angustiado, um desgraçado
Agora estou aqui a tecer palavras
Um crochê de um novelo enosado
Uma pintura de uma tinta seca
Um desenho a partir de um rabiscado
Não tenho nem papel
Mereces mais que teclas
Teu poema é primitivo
Deveria ser pintado nas pedras
Uma pintura inapagável
Que mostraria ao último ser inteligente da Terra que...
Aqui houve um dia Amor
Não é algo moderno
Não se confunde com jóias
maquiagens, plásticas, aparências
Mas está na menor da centelha
Que carrego em mim e carregas em ti
É o que criou o universo
E o que não se pode ver e é cada vez mais difícil sentir, na sua pureza
A mais primitiva natureza
A alma, a pele
Não se polui como automóvel ou imóvel
Está no brilho dos olhos, no abrir dos lábios, quando sorri sincero
Quero que me ames duas, três, quatro vezes na noite ou de dia
Seria tudo melhor
Não quero me esquecer de você revirando os olhos, prendendo o grito falso, arrepiando o peito num calafrio que faz correr o suor até o umbigo
Quero que fiques comigo
Desde a origem até o Apocalipse
E eu prometerei tentar
Regar meu coração
Para que consiga sempre escrever
Palavras de algodão
Para você que me fez renascer
Em prece e quieto
Eu descanso
As dores do corpo
Procuro remédio pro meu coração
Sinto a dor seca no peito
Por não ter dado chances
Ao sopro da vida
Que alimenta o fogo da paixão
Eu quis controlar a balança
Escolher sobre vidas, anulando a emoção
Errei em interpretar sentimentos
Sempre foi o medo ao invés da razão
Perdão, perdão, perdão
Em silêncio
No canto do quarto
Espera calado
O meu violão
Estendo-lhe a mão
Mas sinto-me machucado
Eu já não posso tocar
O seu coração
Andando pela praça noite adentro
Fico pensando todo o tempo
Em tudo o que me aconteceu
Sinto junto com o sereno
Seu corpo molhado e pequeno
Pousando devagar sobre o meu
Vejo no olhar do estranho
Teus olhos castanhos
Piscando pra mim
Lembro sob a luz da lua
Da meia luz do seu quarto
Mostrando enfim
Você toda nua é assim
Algo tão sublime e singular
Nem todas as flores desse jardim
Podem teu perfume afastar...
Mas cheguei ao fim
Carrego algumas dores
Por fazer outrem sofrer
Por isso antes de fores
Dê-me um beijo, e até mais ver
Eu espero que fiques bem
Espero que encontres alguém
Com quem você possa conversar
Que te faça feliz e te faça amar
Não quero causar mais sofrimento
Precisamos nos despedir, agora
Não sei bem como agir, nesse momento
Talvez só mais um beijo e ir embora
Eu espero que voltes a amar
Que encontres um espaço capaz
De sua família futura abrigar
Para eu poder viver em paz
Tu vens, durante meu sono
Dentro do meu sonho
Pra me torturar
Já faz muito tempo
Que eu não te vejo
Nem tenho desejo
Pra que me acordar?
E vens, com seu cabelo liso
Com seu belo sorriso
E seu corpo preciso
Me tirar pra dançar
Eu acordo tapado
Um tanto angustiado
Permaneço deitado
E me ponho a lembrar
Lembro do tempo da escola
Meus amigos na bola
Eu a te namorar
Lembro da tua mão sob a minha, suas unhas compridas
E as minhas roídas
A te carinhar
Lembro do encontro no parque
Da roda gigante
E daquele luar
Lembro de todos os instantes
Mesmo que distantes
Mas pra que lembrar?
A poesia abunda
Quando minguado é o poeta
A profecia é fecunda
Quando estéril, o profeta
A criação é maior
Que o Homem criador
Quando no processo criativo
A matéria prima é o amor
Porque seu produto transborda
Enquanto ele se afoga
Uma casa no campo
Cheia de flores
Cheia de mel e cores
Onde a gente possa se encontrar
Uma casa no campo
Onde haja muita sombra
Onde todo ar é puro
E tenha água limpa pra nadar
Meu amor, vem comigo
Vamos construir nosso lar
Longe desse movimento urbano
Pra onde a gente é livre para amar
Lubrificar os olhos com o que vem do coração
É o que me faz humano, mais do que a razão
Em busca de uma terra boa
Algo me aconteceu
Antes de eu semeá-la
A fruta se ofereceu
Eu provei
O que pode fazer um semeador, se não crêr no futuro?
Ter esperança estando no escuro
E seguir tateando...
Não neguei
O que pode fazer um semeador, quando a safra se acaba?
Esperar para recomeçar
E seguir tentando...
O que faz de mim um semeador
O que faz de mim um sonhador
É seguir semeando
É seguir sonhando
Um bom lugar para respirar
Para a Paz encontrar
Ali lançarei as sementes
Ali irei sonhar
Sim, eu espero
Deixo a chuva cair
Tomara que caia
Deixo o tempo passar
Suave como sua pele
Preciso como seu corpo
Eu espero,
Deixo tudo ir-se, tudo passar
Os carros, as vistas, as lamas
Esqueço tudo, deixo esvair-se
E tudo vai ficando distante
Como você naquela manhã de outono
Abandonando e abandonado espero
Enclausurado numa trama sem sentido
Enquanto tudo gira, nasce e morre
E o que sinto não é só aparente saudade
Mas dor e amor,
Por deixar passar
Enquanto sigo esperando...
Tenho buscado
Mas parece tão distante
Dizem estar tão próximo
Penso no horizonte
Como achar o invisível?
O que chamam de Paz
Devo usar qual sentido?
Nada mais me satisfaz
Tenho buscado
Dizem ser a essência
Tenho estado cansado
Todos falam em paciência
Quanto tempo?
A dificuldade do encontro
Tem me deixado cansado
Até quando?
Fiz-me forte desde cedo
Emocionalmente forte
Me peguei sem sentimento
Vivenciando a morte
Mas tenho fatos para esquecer
Fatos que me tiram a paz
Traumas da vida, pra mim?
São vidas deixadas pra trás
Você me queria perto
Temias ficar só, assim
Mas eu vivia um momento de luto
E você era outro para mim
E você, meu grande amigo?
Não lembro se me despedi
Há muito que já não te vejo
És, hoje, outra vida que perdi
Tudo que vai, vem
Não se trata de alguém
Que não, eu
Vem em dobro, triplo
Pesa o que balança não registra
Transborda
Tudo que vai, vem
E de novo, não cessa
A vida em processo
Não tem pause, nem rec
Mas você para e não esquece
O auto-perdão é paliativo, falso
Aprendo
Não baixo a guarda
E vem mais um no queixo
Vem, vem, vem...
Tudo que vai, vem
Controlo-me, em todos os sentidos
Encontro meu próprio meio
De sobre-viver
A paixão perdeu-se
Cedo, fiquei com passos em falso
E no medo de cair
Equilibrei-me, meio tonto, num pé só
Me afastei do invisível
Deixei de sonhar
E quando você veio
Agarrei-me na razão
Sem você e sem paixão segui
Como um manco de coração
Prender o amor, a dor
Segurar o choro, o arrepio da pele
Ser forte, racional, natural
Desumano
A beleza de ser humano
De sentir, sentir, sentir!
Eu quero viver, viver!
Antes da morte e depois o que viér
Não sei
Quem sabe?
É a solidão a paz,
Até quando não suportar mais
O contato, da sorte um retrato
O contrato, abaixo assinado
O suspiro de quem caiu apaixonado
E não mais cantou, nem subiu ao palco
Porque cedeu a mediocridade
Vim pescar palavras
Vejo peixes fisgados por gaivotas
Felizes são as gaivotas
Porque vivem sem palavras
Foi na Baia Encantada,
Entre o mar e a estrada
Que eu pensei em mudar
Vendo um barco a vela tão bonito
Com seu nome feminino
Na sua poita balançar
Quem sabe, conhecer o Brasil inteiro
Partir num belo veleiro
Ter histórias pra contar
Ir, com ventos de esperança
Num oceano de bonança
Pra algum amor encontrar
Mas logo vi que sou da terra
Bicho grilo, do pé da serra
Que não aprendeu sonhar
Que vive num mundo de guerras
Onde a paz que se espera
Só alguns podem alcançar
Acorde, você não é mais menino
Já badalou o sino
Vê se volte a trabalhar
Assim, quem sabe um belo dia
Com alguma economia
Você possa velejar
Sim, ter o seu próprio veleiro
Como fiel companheiro
Pra sua popa batizar