Andante

Andante

Andante reúne poemas escritos a partir de experiências de uma vida. De escrita simples, sobre temas do cotidiano, com reflexão sobre questões que atormentam a existência humana.

A Borboleta e o João de Barro

A Borboleta e o João de Barro
Bateram no meu carro
Eu, a 70 por hora
Não pude evitar

De aparência tão frágil 
Ambas as vidas venceram 
E recuperadas do choque
Se puseram a voar

A vida é assim
Quando vence a morte
É coisa divina
Uma graça ou sorte

Mas quando a temos fácil 
Ou dela abundamos
Nos pesa como fardos
Sempre à se libertar

A Borboleta amarela
Seguiu brilhando mais que os faróis 
O outro, mostrou-se tão forte quanto o que constrói 

A vida é assim
Na briga com a morte
Quando a vence
Uma missão a cumprir-se

Para nós, seres pensantes
A vida é assim
De sonhos distantes
Difícil de seguir

Bem dizia Belchior
Mais que sonhar,
Viver é melhor

A Lua veio me contar

A Lua veio me contar
Eu meio surdo, ainda ouvi
Que o seu corpo brilha forte
Cegando os olhos dela

Me pediu pra te encontrar
Para tentar te cobrir 
Disse desejando sorte
E que estaria na janela

Se eu precisasse contar
Tudo o que senti
Ou quisesse lembrar
Os pedidos que esqueci

De quando eu era um garoto
E para ela mirava
Deitado na grama
Enquanto em ti pensava

Acordei

Acordei...
De acordo
Com o acorde
Que toquei

E saí...
À procura
De um emprego
Consegui...

Um tempo de trabalho
Em que deixo de ser eu
Um tempo de trabalho
Eu, um proletário seu

Em troca de pão
Em troca de grãos
Em troca de tudo
Que preciso
E não tenho

Pra poder
Dormir cansado
E acordar
Acordei

Acordei...
De acordo
Com o acorde
Que toquei

E saí...
Com a viola
Na sacola
Eu prossegui

Vagando na cidade
Na labuta por sustento
Cantando pelas praças 
Lançando poema ao vento

Em troca de pão 
Em troca de grãos 
Em troca de tudo
Que preciso 
E não tenho

Pra poder
Dormir cansado
E acordar 
Acordei

Andante

Sigo andando pelas ruas
Contando os dias pelas luas
Sem conseguir esquecer

Só, com lenço e documento
Empurrado pelo vento
Para qualquer direção

Vou mirando as estrelas
Atravessando por vielas
Parando só pra beber

Ando sempre a passo lento
Sou o senhor do meu tempo
Mas a liberdade é ilusão

Se o caminho se faz mesmo ao caminhar
Quero ver ao fim em que isso vai dar
Se ao chegar grades mais fortes prenderão-me
Ou se como um rio,
Por leito torto, chego ao mar

Se o caminho se faz mesmo ao caminhar
Quero ver ao fim em que isso dará
Se as espirais do inferno descerei
Ou se, finalmente, Beatriz ali estará

Clube da Esquina 3

Sonhos não envelhecem?
Adormecem!
E por que?
Tanto tempo passa
E quando se nota
Já foi
Já não tem mais volta
Já não tem mais sono
Já não tem mais sonho
Mais lágrimas 
Mais amor
Só dor
Dor e dor
Seca

Confissão

Estou doente, doutor
Não sinto nada.
Já não há mais esperança, senhor
É o fim da estrada.
Qual é o diagnóstico, doutor?
Suspeito que seja contagiante,
Talvez uma peste, senhor 
Vinda do estrangeiro.
Me arrebata a indiferença
A falta de crença
Não, não me recomende repouso, ficar deitado
Eu continuarei a pensar, buscar significado
Para algo insuperável.
Ah, doutor, como eu queria ver as estrelas de perto
Qual seria a sensação?
Estaria lá o sopro que precisa meu corpo?
O remédio para meu coração?
Não, doutor, esse eu já tomei, só me faz dormir
Eu não preciso de mais anestesia
Eu só quero sentir!
De verdade, cansei de hipocrisia
Eu quero voltar a cantar e chorar
Doutor, não acredito em você e na sua ciência 
As luzes! Era para ser tudo melhor
Talvez hoje eu sentiria algo
Eu deveria despertar para a humanidade, não?
Ah, a alma! O que faria de nós irmãos, o espírito.
Tudo escorre entre as nossas mãos, como um comprado líquido 
E eu não espero mais nada
Não sinto mais nada
Já não caminho e já não se faz mais a estrada
Que me conduziria ao meu sonho
Que se perdeu em alguma curva
E se despedaçou como vaso seco atirado ao chão
Agora estou aqui, diante de ti, 
Reclamando minha sorte
De ser condenado a viver o absurdo
E na minha liberdade escolher
O que ouvir e ver, já que nada mais posso sentir,
Até o dia de minha morte.

Dia dos Pais

É um dia de memórias
Poucas
Que vazio
Inexplicável
Como sob sol sentir frio

Saudade tolerável
Importante é viver
Pelas luzes da cidade
Pelos vagalumes dos campos
Tenho ainda pouca idade

Eu queria mesmo é chorar
Cair em pranto
Lavar a alma
Mas a fonte secou
E a dor é seca, no peito

São memórias poucas
E ruins
Ferragens, curva, chuva
Você roxo, com faixa e caixão
São flores e flores, coroas
Foste rei
E fazes falta
Demais

Enigma do belo

O enigma do belo não está na forma, mas na essência!

Para percebê-lo falta método à ciência. 

Por isso, meu amigo, paciência!

Estrela do Lar (Dia das Mães)

Está chegando o Domingo
E é sempre muito bom
Poder almoçar contigo
Ouvir sua voz, tocar sua mão 

Que tanto amor já me deu
E que jamais retribuirei
Na altura que mereces
Mesmo assim eu te direi

Como é bom ter você por perto
Estrela do lar, coração sempre aberto
É como encontrar um oásis no deserto
E poder trilhar o caminho do amor

E quanta dor
Ensinou-me a suportar
Com sua fibra, seu exemplo de viver
Você é sempre luz na minha vida a brilhar
Mãe, Pai e Avó, a Estrela do Lar

Eu Canto

Eu canto
Mesmo sem saber
E quem pode entender?
O porquê devo cantar

Eu sigo
De alguma maneira
Do meu jeito e como quero
Nessa estrada caminhar

Tenho mesmo essa sina
Desde menina 
Que a vida me ensina
Por onde devo cantar

E mesmo quando
A voz desafina
Não me desanima
De aprender a cantar

Eu vim do mar

Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Eu vim do mar 
E pra lá eu vou voltar
 
Fiz pra você 
Um barco de papel
Pra viajarmos 
Sob os tons azuis do céu
 
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Eu vim do mar 
E pra lá eu vou voltar
 
O azul e o branco do mar
O azul e branco do céu
O branco do papel
O azul da água com o branco do teu véu
 
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Eu vim do mar 
E pra lá eu vou voltar
 
Estou certo de que não me enganei
Não vim do pó
E ao pó eu não voltarei
 
Eu vim do mar
E pra lá eu vou voltar
Eu vim do mar 
E pra lá eu vou voltar
 

Me sinto feliz

Me sinto feliz
Quando tenho tempo
De andar a passo lento
Entre parques e jardins

Nesse tempo
Vejo em mosaicos vivos
Muitas plantas coloridas
Que mesmo esquecidas
Preservam sua beleza

Ah, mais tem momentos de tristeza
Porque a vida também corre
E não posso controlar
Todo o tempo que eu teria
Se eu tivesse a alegria
De não ter que me empregar

Menino de Cidade Pequena

Menino de cidade pequena
Cresce jogando bola
E com os amigos na escola
Faz da vida, sucessivas cenas

Carrega consigo a missão 
De, errando, tentar acertar 
O destino que vislumbraram-lhe alcançar 
Ao falar-lhe em vocação 

Menino simples, de cidade pequena 
Que caminha descalço 
No barro deixa seu rastro
Que cabe à chuva apagar

Marca seu caminho no atraso
Com tinta de sangue e suor
Na tela deixa seu traço
À espera de um dia melhor

Meu Amigo Violão

Meu amigo violão
Que sempre me estende o braço,
Dá-me a mão e no compasso
Ouve-me dizer

Meu amigo violão
Que ao abrir a boca,
Responde à minha voz rouca e
Ajuda-me a esquecer

Meu amigo violão
Que me oferece o seu corpo
Que tocado desafina um pouco
E faz-me perceber

Que nas noites de lua cheia
Como eu, existem milhões de amantes
Que te ajeitam de lado no colo
Para fugir da razão

E que por tanto dedilhar tuas veias
Como eu, em toques dissonantes
Fazem da ponta dos dedos calos
Para sentir o coração

Milagre

Milagre pra quem acredita
É coisa de Deus
É sopro de vida
Que vence a morte
Como coisa de sorte
Algo que aconteceu

Milagre na fé popular
É coisa de algum santo
Presente no altar
Uma imagem de gesso
Que recebe adereço,
Sacrifício e pranto

Milagre é o gol da virada
No fim do jogo
É escapar da queimada
Quem brinca com fogo
É não se afogar
Na corrente do rio

Milagre é não ser baleado
Ganhar na Loteria
Não ser assaltado
Ter sua família
Porque a vida é dura
E estar só é ruim

Milagre é deixar vela acesa
E Pra quem está na mesa
Diante do prato,
Faminto e cansado
Espera um minuto 
E se põe a rezar 

Também é pra quem foi escolhido
Na fila de emprego
Para começar
Na segunda-feira
Acordar mais cedo
E sair pra trabalhar

Nada além

Estou prestes à despedir-me, parece
Quem comparecerá?
Minha mãe e as irmãs por obrigação 
Talvez algum amigo que me deve

Não deixei nada
Amores incompletos 
Negócios falidos
Capoeiras crescidas no jardim

Está chegando o fim 
Alguém chorará por mim?
Que pergunta em vão 
Será o nada e só

Lamento pelos amores que não vivi
Por ouvir a razão 
E só
Serei o pó da estrada
A gota do rio
O vento no frio 
Na nuca de alguém 
Nada além 

Não quero esquecer que vivi...

Não quero esquecer que vivi...
Ao tocar sua mão
Ao notar a arte dos seus lábios, soprando o café
Ao ver nossos rastros na areia que o mar não ousou tocar
E o olhar lacrimoso pela janela do ônibus, que não mais voltará
São palavras cruzadas, 
Canções mau cantadas, 
Que não farão você voltar
Mas que retardam o amor, 
Pois meu maior temor 
É deixar de sentir...
Mesmo que não me perdoas, 
Mesmo que nunca me entendas
Não quero esquecer que vivi...
Ao tocar sua mão
Ao notar a arte dos seus lábios, soprando o café
Ao ver nossos rastros na areia que o mar não ousou tocar
E o olhar lacrimoso pela janela do ônibus, que não mais voltará
Pois tocou-me a brisa do amor 
E eu não quero esquecer quem me amou 
E eu fiz sofrer...
 

No papel é tudo fácil

Tire o custo e as despesas
Que o lucro é o que resta
No papel é tudo fácil, como sabes
 
Os manuais já estão gastos
Mas erramos todos os dias
No papel é tudo fácil, como sabes
 
Como sabes, te conheço
Tenho até seu endereço
Mas no papel é tudo fácil, como sabes
 
O amor, o lucro, a guerra
Se nisso tudo, tudo vale
No papel é bem mais fácil, como sabes
 
Recebe do ponta e finaliza
Vá com cuidado sob a brisa
No papel é tudo fácil, como sabes
 
Na receita, põe dois ovos
Mexa bem e o resultado
No papel é bem mais fácil, como sabes
 
 
 
 

O que vês?

Uma mistura colorida
É a vida
É a vida

São as curvas do corpo dela
E as flores do vestido no qual está vestida

Uma mistura colorida
É a vida
É a vida

O Vale volta à Lama

O Vale vira lama
É tanta chuva
Tantos dramas
Que as águas desse rio
Carregam para a foz

Levam o trabalho
O choro e o suor
Lavam o orgulho
O ufanismo, nossa voz

Mas tudo sempre volta
Sem deixar lições 
Do que adiantou?
São reparações?

O que vale para o Vale
Também vale para a vida
É importante agradecer
Mas também pedir perdão 

Mais humildade nas cidades
Coração na urbanização 
O Vale volta à lama
Segue a nossa procissão

Para Ivone

Cobro-me um poema para ti
Diferente de todos que escrevi ou li
Eu, que já não acreditava
Eu, que vivia angustiado, um desgraçado 
Agora estou aqui a tecer palavras
Um crochê de um novelo enosado 
Uma pintura de uma tinta seca
Um desenho a partir de um rabiscado
Não tenho nem papel
Mereces mais que teclas
Teu poema é primitivo 
Deveria ser pintado nas pedras
Uma pintura inapagável
Que mostraria ao último ser inteligente da Terra que...
Aqui houve um dia Amor
Não é algo moderno
Não se confunde com jóias
maquiagens, plásticas, aparências 
Mas está na menor da centelha
Que carrego em mim e carregas em ti
É o que criou o universo
E o que não se pode ver e é cada vez mais difícil sentir, na sua pureza
A mais primitiva natureza
A alma, a pele
Não se polui como automóvel ou imóvel 
Está no brilho dos olhos, no abrir dos lábios, quando sorri sincero
Quero que me ames duas, três, quatro vezes na noite ou de dia
Seria tudo melhor
Não quero me esquecer de você revirando os olhos, prendendo o grito falso, arrepiando o peito num calafrio que faz correr o suor até o umbigo
Quero que fiques comigo
Desde a origem até o Apocalipse 
E eu prometerei tentar
Regar meu coração 
Para que consiga sempre escrever
Palavras de algodão 
Para você que me fez renascer

Perdão, Perdão, Perdão

Em prece e quieto
Eu descanso
As dores do corpo 
Procuro remédio pro meu coração

Sinto a dor seca no peito
Por não ter dado chances
Ao sopro da vida
Que alimenta o fogo da paixão

Eu quis controlar a balança 
Escolher sobre vidas, anulando a emoção 
Errei em interpretar sentimentos
Sempre foi o medo ao invés da razão

Perdão, perdão, perdão

Em silêncio 
No canto do quarto
Espera calado
O meu violão

Estendo-lhe a mão 
Mas sinto-me machucado
Eu já não posso tocar
O seu coração 

Praça Maior

Andando pela praça noite adentro
Fico pensando todo o tempo
Em tudo o que me aconteceu

Sinto junto com o sereno
Seu corpo molhado e pequeno
Pousando devagar sobre o meu

Vejo no olhar do estranho
Teus olhos castanhos
Piscando pra mim

Lembro sob a luz da lua
Da meia luz do seu quarto
Mostrando enfim

Você toda nua é assim
Algo tão sublime e singular
Nem todas as flores desse jardim
Podem teu perfume afastar...
Mas cheguei ao fim

Precisamos despedir-nos

Carrego algumas dores
Por fazer outrem sofrer
Por isso antes de fores
Dê-me um beijo, e até mais ver

Eu espero que fiques bem 
Espero que encontres alguém 
Com quem você possa conversar
Que te faça feliz e te faça amar

Não quero causar mais sofrimento 
Precisamos nos despedir, agora
Não sei bem como agir, nesse momento
Talvez só mais um beijo e ir embora

Eu espero que voltes a amar 
Que encontres um espaço capaz
De sua família futura abrigar
Para eu poder viver em paz

Primeiro amor

Tu vens, durante meu sono
Dentro do meu sonho
Pra me torturar 

Já faz muito tempo
Que eu não te vejo
Nem tenho desejo
Pra que me acordar?

E vens, com seu cabelo liso
Com seu belo sorriso
E seu corpo preciso 
Me tirar pra dançar

Eu acordo tapado
Um tanto angustiado 
Permaneço deitado
E me ponho a lembrar 

Lembro do tempo da escola
Meus amigos na bola
Eu a te namorar 

Lembro da tua mão sob a minha, suas unhas compridas
E as minhas roídas 
A te carinhar

Lembro do encontro no parque
Da roda gigante 
E daquele luar

Lembro de todos os instantes
Mesmo que distantes
Mas pra que lembrar?

Quando a matéria-prima é o amor

A poesia abunda
Quando minguado é o poeta

A profecia é fecunda
Quando estéril, o profeta

A criação é maior
Que o Homem criador 
Quando no processo criativo
A matéria prima é o amor 

Porque seu produto transborda 
Enquanto ele se afoga

Rock Rural Nupcial

Uma casa no campo
Cheia de flores
Cheia de mel e cores
Onde a gente possa se encontrar

Uma casa no campo
Onde haja muita sombra
Onde todo ar é puro
E tenha água limpa pra nadar

Meu amor, vem comigo
Vamos construir nosso lar
Longe desse movimento urbano
Pra onde a gente é livre para amar

Sem título

Lubrificar os olhos com o que vem do coração 
É o que me faz humano, mais do que a razão 

Semeador

Em busca de uma terra boa
Algo me aconteceu
Antes de eu semeá-la 
A fruta se ofereceu

Eu provei
O que pode fazer um semeador, se não crêr no futuro?
Ter esperança estando no escuro
E seguir tateando...

Não neguei
O que pode fazer um semeador, quando a safra se acaba?
Esperar para recomeçar
E seguir tentando...

O que faz de mim um semeador
O que faz de mim um sonhador
É seguir semeando
É seguir sonhando

Um bom lugar para respirar
Para a Paz encontrar
Ali lançarei as sementes
Ali irei sonhar

Sim, eu espero

Sim, eu espero
Deixo a chuva cair
Tomara que caia
Deixo o tempo passar
Suave como sua pele
Preciso como seu corpo
Eu espero,
Deixo tudo ir-se, tudo passar
Os carros, as vistas, as lamas
Esqueço tudo, deixo esvair-se
E tudo vai ficando distante
Como você naquela manhã de outono
Abandonando e abandonado espero
Enclausurado numa trama sem sentido
Enquanto tudo gira, nasce e morre
E o que sinto não é só aparente saudade
Mas dor e amor,
Por deixar passar
Enquanto sigo esperando...

Tenho buscado

Tenho buscado
Mas parece tão distante 
Dizem estar tão próximo 
Penso no horizonte

Como achar o invisível?
O que chamam de Paz
Devo usar qual sentido?
Nada mais me satisfaz

Tenho buscado
Dizem ser a essência 
Tenho estado cansado
Todos falam em paciência 

Quanto tempo?
A dificuldade do encontro
Tem me deixado cansado
Até quando?

Traumas da Vida

Fiz-me forte desde cedo
Emocionalmente forte
Me peguei sem sentimento
Vivenciando a morte

Mas tenho fatos para esquecer
Fatos que me tiram a paz
Traumas da vida, pra mim?
São vidas deixadas pra trás 

Você me queria perto
Temias ficar só, assim
Mas eu vivia um momento de luto
E você era outro para mim

E você, meu grande amigo?
Não lembro se me despedi
Há muito que já não te vejo
És, hoje, outra vida que perdi

Tudo que vai, vem

Tudo que vai, vem
Não se trata de alguém 
Que não, eu

Vem em dobro, triplo
Pesa o que balança não registra
Transborda

Tudo que vai, vem
E de novo, não cessa
A vida em processo

Não tem pause, nem rec
Mas você para e não esquece
O auto-perdão é paliativo, falso

Aprendo
Não baixo a guarda
E vem mais um no queixo
Vem, vem, vem...

Tudo que vai, vem
Controlo-me, em todos os sentidos
Encontro meu próprio meio
De sobre-viver

Um manco de coração

A paixão perdeu-se 
Cedo, fiquei com passos em falso
E no medo de cair 
Equilibrei-me, meio tonto, num pé só 
Me afastei do invisível 
Deixei de sonhar
E quando você veio
Agarrei-me na razão 
Sem você e sem paixão segui
Como um manco de coração

Um medíocre

Prender o amor, a dor
Segurar o choro, o arrepio da pele
Ser forte, racional, natural 
Desumano
A beleza de ser humano
De sentir, sentir, sentir!
Eu quero viver, viver!
Antes da morte e depois o que viér
Não sei
Quem sabe?
É a solidão a paz, 
Até quando não suportar mais 
O contato, da sorte um retrato
O contrato, abaixo assinado
O suspiro de quem caiu apaixonado
E não mais cantou, nem subiu ao palco
Porque cedeu a mediocridade

Um pescador

Vim pescar palavras
Vejo peixes fisgados por gaivotas 
Felizes são as gaivotas
Porque vivem sem palavras

Vela Vida

Foi na Baia Encantada,
Entre o mar e a estrada
Que eu pensei em mudar

Vendo um barco a vela tão bonito
Com seu nome feminino
Na sua poita balançar 

Quem sabe, conhecer o Brasil inteiro
Partir num belo veleiro
Ter histórias pra contar

Ir, com ventos de esperança 
Num oceano de bonança
Pra algum amor encontrar

Mas logo vi que sou da terra
Bicho grilo, do pé da serra
Que não aprendeu sonhar

Que vive num mundo de guerras
Onde a paz que se espera
Só alguns podem alcançar 

Acorde, você não é mais menino
Já badalou o sino
Vê se volte a trabalhar 

Assim, quem sabe um belo dia
Com alguma economia
Você possa velejar

Sim, ter o seu próprio veleiro 
Como fiel companheiro 
Pra sua popa batizar
Andante · Mairon
Livros