Fronteiras
sei das fronteiras
que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita
sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento
ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói
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que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita
sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento
ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói
Biografia
Identificação e contexto básico
Paulo Colina é um poeta cuja obra se insere no panorama da poesia contemporânea em língua portuguesa. A sua identidade literária é marcada por uma exploração profunda de temas existenciais e pela busca por novas formas de expressão poética.Infância e formação
Informações detalhadas sobre a infância e formação de Paulo Colina não são amplamente divulgadas, mas a sua obra sugere uma formação humanística sólida e uma sensibilidade aguçada para as artes e a cultura, elementos que parecem ter absorvido influências diversas.Percurso literário
O percurso literário de Paulo Colina é marcado pela publicação de obras que revelam um amadurecimento gradual e uma constante busca por aperfeiçoamento estilístico. A sua escrita demonstra uma evolução atenta às nuances da linguagem poética.Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias A obra de Paulo Colina caracteriza-se pela exploração de temas como a efemeridade do tempo, a busca por sentido, a relação do indivíduo com o universo e a introspeção. O seu estilo é frequentemente lírico e reflexivo, com uma linguagem densa em imagens e metáforas que convidam à contemplação. Utiliza frequentemente o verso livre, permitindo uma maior liberdade expressiva e rítmica, mas sem dispensar a musicalidade inerente à poesia. A voz poética em Colina tende a ser pessoal e confessional, mas com ressonância universal, tocando em sentimentos e questões que transcendem o individual. O seu vocabulário é cuidado, por vezes erudito, mas acessível, e a sua densidade imagética constrói cenários e sensações vívidas. A relação com a tradição poética é evidente, mas filtrada por uma perspetiva moderna, inserindo-se num contexto de renovação da linguagem e dos temas poéticos.Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico Paulo Colina escreve num período em que a poesia contemporânea em língua portuguesa se debruça sobre a fragmentação do sujeito, a crise da metanarrativa e a busca por novas formas de comunicação e expressão num mundo globalizado e em constante mudança. Dialoga com as inquietações da sua geração e com a herança de poetas anteriores.Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Paulo Colina são escassos na esfera pública, o que contribui para um certo mistério em torno da sua figura. A sua obra, no entanto, sugere uma profunda sensibilidade e uma vida interior rica.Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção A receção crítica da obra de Paulo Colina tem sido positiva, destacando a originalidade do seu estilo e a profundidade das suas reflexões. O reconhecimento tem vindo a crescer no meio literário, consolidando a sua posição como um nome relevante na poesia contemporânea.Obra, estilo e características literárias
Influências e legado Embora as influências específicas de Paulo Colina possam variar, a sua poesia dialoga com a rica tradição da poesia moderna e contemporânea em língua portuguesa. O seu legado reside na sua capacidade de inovar na forma e no conteúdo, inspirando outros poetas a explorar novas vias de expressão.Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica A obra de Paulo Colina oferece um vasto campo para interpretação, convidando leitores a mergulhar em reflexões sobre a condição humana, o tempo, a memória e a busca por significado. As suas análises críticas frequentemente apontam para a complexidade das suas metáforas e a universalidade dos temas abordados.Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da sua personalidade ou hábitos de escrita não são amplamente documentados, reforçando a aura de introspeção e dedicação à arte que emana da sua obra.Obra, estilo e características literárias
Morte e memória Paulo Colina encontra-se vivo, continuando a sua produção literária.Poemas
10Fronteiras
sei das fronteiras
que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita
sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento
ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói
que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita
sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento
ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói
907
Corpo a corpo
a vida é uma horda bárbara
de sentimentos
as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários
o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues
o papel branco vive me jogando
desafios na cara
ser marginal todavia
só interessa à paixão
bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?
de sentimentos
as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários
o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues
o papel branco vive me jogando
desafios na cara
ser marginal todavia
só interessa à paixão
bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?
1 054
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 501
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
951
Forja
entre uma calmaria
e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
de suas coxas
mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite
embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
no coração
1 349
Esboço
O meu braço
laço e corte
é machado-foice
pau
o meu braço
é cimento
é concreto-britadeira
é parada infernal
sou a fome em sua porta
sou tocaia nas esquinas
olha o cano
olha o punhal
sou o asco
sou só casca
sou o nó que não desata
sou notícia de jornal
não aceito mais açoite
sou orgulho sou bravata
sou açúcar sou o sal
sou o suor pelota e grama
sou cansaço coração
sou a válvula de escape
pro seu ódio emoção
eu sou ginga melodia
berro couro alegria
todo ano carnaval
sou madeira que não verga
sou o dia sou a noite
não faz mal
1 280
Espreita noturna
Tem sempre algo
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
1 053
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
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