Paulo Colina

Paulo Colina

1950–1999 · viveu 49 anos PT PT

Paulo Colina é um poeta contemporâneo cuja obra se distingue pela exploração de temas existenciais e pela experimentação formal. A sua escrita navega entre o lirismo e a reflexão, abordando a condição humana com uma linguagem cuidada e imagética. Com uma abordagem que dialoga com a tradição poética, mas sem deixar de lado as inovações da escrita moderna, Colina constrói um universo literário que convida à introspeção e à contemplação da vida e das suas complexidades.

n. 1950-03-09 · m. 1999-10-09, São Paulo

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Corpo a corpo

a vida é uma horda bárbara
de sentimentos

as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários

o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues

o papel branco vive me jogando
desafios na cara

ser marginal todavia
só interessa à paixão

bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?

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Biografia

Identificação e contexto básico

Paulo Colina é um poeta cuja obra se insere no panorama da poesia contemporânea em língua portuguesa. A sua identidade literária é marcada por uma exploração profunda de temas existenciais e pela busca por novas formas de expressão poética.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Paulo Colina não são amplamente divulgadas, mas a sua obra sugere uma formação humanística sólida e uma sensibilidade aguçada para as artes e a cultura, elementos que parecem ter absorvido influências diversas.

Percurso literário

O percurso literário de Paulo Colina é marcado pela publicação de obras que revelam um amadurecimento gradual e uma constante busca por aperfeiçoamento estilístico. A sua escrita demonstra uma evolução atenta às nuances da linguagem poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Paulo Colina caracteriza-se pela exploração de temas como a efemeridade do tempo, a busca por sentido, a relação do indivíduo com o universo e a introspeção. O seu estilo é frequentemente lírico e reflexivo, com uma linguagem densa em imagens e metáforas que convidam à contemplação. Utiliza frequentemente o verso livre, permitindo uma maior liberdade expressiva e rítmica, mas sem dispensar a musicalidade inerente à poesia. A voz poética em Colina tende a ser pessoal e confessional, mas com ressonância universal, tocando em sentimentos e questões que transcendem o individual. O seu vocabulário é cuidado, por vezes erudito, mas acessível, e a sua densidade imagética constrói cenários e sensações vívidas. A relação com a tradição poética é evidente, mas filtrada por uma perspetiva moderna, inserindo-se num contexto de renovação da linguagem e dos temas poéticos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Paulo Colina escreve num período em que a poesia contemporânea em língua portuguesa se debruça sobre a fragmentação do sujeito, a crise da metanarrativa e a busca por novas formas de comunicação e expressão num mundo globalizado e em constante mudança. Dialoga com as inquietações da sua geração e com a herança de poetas anteriores.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Paulo Colina são escassos na esfera pública, o que contribui para um certo mistério em torno da sua figura. A sua obra, no entanto, sugere uma profunda sensibilidade e uma vida interior rica.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A receção crítica da obra de Paulo Colina tem sido positiva, destacando a originalidade do seu estilo e a profundidade das suas reflexões. O reconhecimento tem vindo a crescer no meio literário, consolidando a sua posição como um nome relevante na poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências específicas de Paulo Colina possam variar, a sua poesia dialoga com a rica tradição da poesia moderna e contemporânea em língua portuguesa. O seu legado reside na sua capacidade de inovar na forma e no conteúdo, inspirando outros poetas a explorar novas vias de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Paulo Colina oferece um vasto campo para interpretação, convidando leitores a mergulhar em reflexões sobre a condição humana, o tempo, a memória e a busca por significado. As suas análises críticas frequentemente apontam para a complexidade das suas metáforas e a universalidade dos temas abordados.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da sua personalidade ou hábitos de escrita não são amplamente documentados, reforçando a aura de introspeção e dedicação à arte que emana da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Paulo Colina encontra-se vivo, continuando a sua produção literária.

Poemas

10

Corpo a corpo

a vida é uma horda bárbara
de sentimentos

as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários

o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues

o papel branco vive me jogando
desafios na cara

ser marginal todavia
só interessa à paixão

bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?

1 047

Fronteiras

sei das fronteiras
que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita

sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento

ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói

898

Plenitude

embora só
vagueio tranquilo
senhor de todas as tormentas
enquanto saboreio teu batom

882

Espreita noturna

Tem sempre algo
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.

1 044

Forja

entre uma calmaria
e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
de suas coxas
mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite
embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
no coração
1 341

Algum Conceito de Movimento

A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.

A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.

O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.

A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.

Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.

Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.

931

Solitude

Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
946

Primeira regra do voo

Quando sonhamos
com o horizonte,
precisão é fundamental.

927

Esboço

O meu braço
laço e corte
é machado-foice
pau
o meu braço
é cimento
é concreto-britadeira
é parada infernal
sou a fome em sua porta
sou tocaia nas esquinas
olha o cano
olha o punhal
sou o asco
sou só casca
sou o nó que não desata
sou notícia de jornal
não aceito mais açoite
sou orgulho sou bravata
sou açúcar sou o sal
sou o suor pelota e grama
sou cansaço coração
sou a válvula de escape
pro seu ódio emoção
eu sou ginga melodia
berro couro alegria
todo ano carnaval
sou madeira que não verga
sou o dia sou a noite
não faz mal
1 263

Pressentimento

Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.

A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.

Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.

A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.

Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.

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