Lista de Poemas

Joana Madalena

1

Cega, chuleava roupa.
Não via, mas chuleava.
E tinha noventa
anos. E era
cega.

Hoje talvez enxergue;
mas as cinzas não trabalham.

2

És a lua de ontem,
minha avó.
Ausente à vista, certa na memória;
tranquila na lembrança
como o pão e a roupa,
os livros que me deste.

E és um presente ao homem,
àquele que hoje sou,
feito de velhos dias:

com teus lençóis sem mancha
nas tardes de Lorena —
onde há lençóis, nuvens lavadas
em céus também lavados.

3

Tarde adentro a voz se ouvia
na varanda,
tarde adentro
(a tarde era profunda):
"O fim é que é triste.
Um belo romance, A Filha do Diretor do Circo.
Como a Dejanira lia bonito!
Leia um pouco, meu neto."
E o menino lia.

Colibris revoavam no alpendre,
das canangas e dos manacás e dos bambus do Japão
subia um meigo aroma,
e havia em tudo um sabor de fonte e de jambo,
e tudo era idílico e doce,
mesmo a voz das corruíras pelas calhas,
mesmo o coaxar das rãs na terra úmida.
Crescia o musgo nas paredes
e havia papoulas e jasmins-do-cabo e rosas-chá
e flores de araruta como borboletas brancas:
tudo tão distante...

Ó minha avó, ó lua de ontem,
ensinarei teu nome aos pássaros em fuga.


Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.

In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
1 112

Fonte

Passado, sombra de uma nuvem
na água trêmula


Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.

In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
1 095

Cabelos, os Meus Cabelos

Cabelos, los meus cabelos,
El-rei m'enviou por elos.
JOÃO ZORRO


Cabelos, os meus cabelos,
que fontes de negro espanto!
descendo por minhas costas
com segredos de floresta:

meus peitos, meus peitos altos,
são tochas em meio às trevas,
ardendo com seus perfumes,
queimando com fogos claros;

trago uma lua nos ombros,
cascatas pelo meu corpo,
e as sombras da madrugada
no topo de minhas coxas.

Meus peitos, meus peitos nus,
para o amado os tenho virgens:
se ele os pudesse colher,
duros ramos de alecrins!

Teria em corpo desnudo
a ternura do bom Deus,
as mãos derramando trigo
sobre papoulas dormidas.

Cabelos, os meus cabelos,
el-rei os mandou buscar
para os prender em seu leito:
meu corpo, o triste, vai junto.

Não mais verei os meus bosques,
não mais os trevos em flor:
minh'alma geme na estrada,
anoitecendo os caminhos.

Quer el-rei os meus cabelos,
e quer também o meu corpo:
arderei nas madrugadas,
rosa austera em grave leito.

Meu alvo corpo desnudo,
deserto avaro de estrelas,
um sonho de areias brancas
em brancas dunas a pique...

Arderei nas madrugadas,
sofrendo amargos carinhos:
meu coração, o infeliz,
suspira, pombo ferido.

Cabelos, os meus cabelos,
el-rei deseja o meu corpo:
sangrarei sobre seus linhos
como uma rola flechada.

Cabelos, os meus cabelos,
meus peitos, meus peitos altos,
meu virgem corpo desnudo
já não será para o amado.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 394

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1

Passa o vento,
as folhas tremem:
a sombra se inquieta.

2

Do topo dos ipês
cai a sombra:
rendada, sonhadora, espiritual.

O sol, os ipês, a sombra;
o tempo, o homem, sua sombra:
breve passagem pela terra,
e a grande sombra,
constelar, definitiva, irmã das pedras.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 081

Céus Nossos

Céus nossos, terra nossa,
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.

Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 128

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Identificação e contexto básico

Péricles Eugênio da Silva Ramos foi um poeta, ensaísta, crítico literário e tradutor brasileiro. Nasceu em São Paulo e é considerado uma das figuras centrais da Geração de 45. Sua obra é marcada por um forte engajamento com a cultura brasileira, pela reflexão sobre a história e a identidade nacional, e por uma poesia de grande rigor formal e intelectual.

Infância e formação

Silva Ramos teve uma formação sólida, estudou Direito e Filosofia. Desde jovem, demonstrou grande interesse pela literatura, pela história e pelas artes, absorvendo influências da tradição literária brasileira e universal, bem como do pensamento filosófico e social. Sua formação intelectual moldou profundamente sua visão de mundo e sua produção.

Percurso literário

O percurso de Péricles Eugênio da Silva Ramos foi multifacetado. Iniciou sua carreira literária como poeta, publicando livros que rapidamente lhe conferiram destaque. Paralelamente, desenvolveu intensa atividade como ensaísta, crítico literário e tradutor, abordando desde a poesia clássica até autores modernos. Sua atuação em jornais e revistas literárias foi fundamental para a articulação de ideias e a formação de opinião.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As principais obras poéticas de Silva Ramos incluem "Viagem em volta de mim", "O Gosto do Sabor", "Canto de uma Vênus sem espelhos" e "Coração de um português em São Paulo". Sua poesia é caracterizada pela erudição, pelo lirismo contido, pela reflexão sobre temas existenciais, sociais e históricos. O amor, a pátria, a memória, a arte e a condição humana são temas recorrentes. Seu estilo é marcado pela linguagem precisa, pela musicalidade e por um rigor formal notável, frequentemente utilizando o verso livre, mas com uma musicalidade inerente. A dimensão social e a reflexão sobre o Brasil são aspectos centrais de sua obra, buscando uma conciliação entre o universal e o particular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Silva Ramos é um dos expoentes da Geração de 45, movimento que buscava renovar a poesia brasileira após as vanguardas modernistas, propondo um retorno a um maior rigor formal e a temas mais universais, sem, contudo, abandonar a reflexão sobre a realidade brasileira. Sua obra dialoga com o contexto histórico e cultural do Brasil em meados do século XX, um período de efervescência intelectual e política.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida foi dedicada ao estudo e à produção literária. Além de poeta, foi um intelectual atuante, participando de debates e contribuindo para a vida cultural de São Paulo e do Brasil. Sua erudição e sua paixão pelas letras moldaram sua trajetória pessoal e profissional.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Péricles Eugênio da Silva Ramos foi amplamente reconhecido como um dos grandes poetas brasileiros de sua geração. Recebeu diversos prêmios literários e sua obra é estudada em meios acadêmicos. Sua importância reside na capacidade de unir erudição, lirismo e reflexão social, contribuindo para a consolidação de uma poesia de alta qualidade estética e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Silva Ramos foi influenciado por poetas clássicos e modernos, tanto da tradição lusófona quanto da literatura universal. Seu legado reside na consolidação de uma poesia que articula a reflexão sobre o Brasil com a busca pela universalidade, e em sua contribuição para a crítica literária e a tradução, enriquecendo o panorama cultural brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Silva Ramos é frequentemente analisada sob a ótica de sua profunda reflexão sobre a identidade brasileira, a memória e a condição humana. Sua poesia é vista como um ponto de equilíbrio entre a forma e o conteúdo, o universal e o particular, o lírico e o crítico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua vasta cultura e seu profundo conhecimento de diversas áreas do saber transparecem em sua poesia e em seus ensaios, conferindo uma densidade intelectual à sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Péricles Eugênio da Silva Ramos faleceu em 1997, deixando um legado literário rico e diversificado, que continua a ser fonte de estudo e admiração para novas gerações de leitores e escritores.