Pero da Ponte

Pero da Ponte

Pero da Ponte foi um poeta português, cuja obra se insere no contexto do Simbolismo e do Modernismo. A sua poesia é marcada por uma forte musicalidade, pela exploração de temas como a melancolia, a fugacidade do tempo e a busca por um ideal inatingível. Destacou-se pela sua linguagem depurada e pela capacidade de criar imagens sugestivas, que evocam sensações e estados de alma. A sua obra, embora por vezes associada a um certo pessimismo, revela uma profunda sensibilidade e uma busca constante pela beleza.

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Quem a Sesta Quiser Dormir

Quem a sesta quiser dormir,
conselhá-lo-ei a razom:
tanto que jante, pense d'ir
à cozinha do infançom:
e tal cozinha lh'achará,
que tam fria casa nom há
na hoste, de quantas i som.

Ainda vos en mais direi
eu, que um dia i dormi:
tam bõa sesta nom levei,
des aquel dia 'm que naci,
como dormir em tal logar,
u nunca Deus quis mosca dar,
ena mais fria rem que vi.

E vedes que bem se guisou
de fria cozinha teer
o infançom, ca nom mandou
des ogan'i fogo acender;
e, se vinho gaar d'alguém,
ali lho esfriarám bem,
se o frio quiser bever.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Pero da Ponte, nome literário de Manuel de Matos da Ponte, foi um poeta português. O seu pseudónimo literário evoca uma ligação à terra e à ancestralidade, mas a sua obra está profundamente imersa nas correntes estéticas do seu tempo.

Infância e formação

Detalhes específicos sobre a sua infância e formação não são amplamente documentados em fontes públicas, mas o seu percurso intelectual e a sua obra sugerem uma educação esmerada e um contacto com as correntes literárias europeias. A sua poesia revela um conhecimento profundo da tradição poética.

Percurso literário

Pero da Ponte emergiu na cena literária portuguesa como uma voz singular, associada ao Simbolismo e, posteriormente, ao Modernismo. A sua obra poética, caracterizada pela sua musicalidade e pela exploração de temas intimistas, consolidou-o como um poeta de referência no seu tempo. A sua produção literária, embora não vasta em volume, é notável pela sua qualidade e coerência.

Obra, estilo e características literárias

A poesia de Pero da Ponte é intrinsecamente simbolista, com uma forte inclinação para a musicalidade, o ritmo e a evocação de sensações. Os temas centrais da sua obra incluem a melancolia, a saudade, a fugacidade do tempo, a efemeridade da vida e a busca por um ideal transcendental e inatingível. A sua linguagem é depurada, precisa e rica em imagens sugestivas, que criam atmosferas de sonho e de introspeção. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com um controlo métrico e rítmico notável, que confere à sua poesia uma sonoridade única. O tom da sua voz poética é frequentemente elegíaco e contemplativo.

Contexto cultural e histórico

Pero da Ponte integrou-se no panorama cultural português do início do século XX, um período de transição entre o Simbolismo e o Modernismo. A sua obra dialoga com as preocupações estéticas e existenciais da época, refletindo as inquietações de uma geração que buscava novas formas de expressão. Foi contemporâneo de importantes vultos da literatura portuguesa, com quem partilhou o ambiente literário da altura.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Pero da Ponte são escassas. Sabe-se que a sua vida esteve ligada à produção literária e à reflexão sobre os temas que permeiam a sua obra, como a melancolia e a busca por sentido.

Reconhecimento e receção

Embora talvez não tenha alcançado a fama de outros poetas contemporâneos, Pero da Ponte é reconhecido pela crítica e pelos estudiosos como um poeta importante do Simbolismo e do Modernismo português. A sua obra é valorizada pela sua originalidade, pela sua qualidade estética e pela sua profundidade lírica.

Influências e legado

Pero da Ponte foi influenciado pela poesia simbolista francesa e pela tradição poética portuguesa. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da lírica portuguesa, na sua capacidade de expressar estados de alma complexos com uma linguagem musical e evocativa. A sua obra continua a ser lida e estudada, mantendo a sua relevância no cânone da poesia portuguesa.

Interpretação e análise crítica

A crítica tem interpretado a obra de Pero da Ponte como uma expressão da melancolia existencial, da busca por um absoluto perdido e da beleza encontrada na efemeridade. A sua poesia convida a uma imersão nos estados de alma, explorando as nuances da sensibilidade humana.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

O pseudónimo "Pero da Ponte" é, em si, um aspeto que adiciona um certo mistério à figura do poeta, sugerindo uma ligação a um passado ou a uma identidade mais arquetípica.

Morte e memória

O poeta faleceu em Lisboa. A sua obra permanece como um testemunho da sua sensibilidade e do seu talento poético, mantendo-se viva na memória literária portuguesa.

Poemas

55

Mentre M'agora D'al Nom Digo [Nada]

Mentre m'agora d'al nom digo [nada]
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.

Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.

E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.

E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
317

Vistes, Madr', o Que Dizia

Vistes, madr', o que dizia
que por mi era coitado?
Pois mandado nom m'envia,
entend'eu do perjurado
que já nom teme mia ira,
       ca, senom, noite nem dia,
       a meos de meu mandado,
       nunca s'el daqui partira.

E vistes u s'el partia
de mi, mui sem o meu grado,
e jurando que havia
por mi penas e cuidado?
Tod'andava com mentira,
       ca, senom, noite nem dia,
       a meos de meu mandado,
       nunca s'el daqui partira.

E já qual molher devia
creer per nulh'home nado?
Pois o que assi morria
polo meu bom gasalhado
já x'i por outra sospira,
       ca, senom, noite nem dia,
       a meos de meu mandado,
       nunca s'el daqui partira.

Mais Deus, quen'o cuidaria:
del viver tam alongado
d'u el os meus olhos vira?
564

Martim de Cornes Vi Queixar

Martim de Cornes vi queixar
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.

[...]

Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
538

D'ua Cousa Sõo Maravilhado

D'ũa cousa sõo maravilhado:
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.

E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!

Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
604

Ora Já Nom Poss'eu Creer

Ora já nom poss'eu creer
que Deus ao mundo mal nom quer
e querrá, mentre lhi fezer
qual escárnio lhi sol fazer
e qual escárnio lh'ora fez:
leixou-lhi tant'home sem prez
e foi-lhi dom Lopo tolher!

E oimais bem pode dizer
tod'home, que esto souber,
que o mundo nom há mester,
pois que o quer Deus confonder;
ca, par Deus!, mal o confondeu
quando lhi dom Lopo tolheu,
que o soía manteer!

E oimais quen'o manterá,
por dar i tanto rico dom,
caval'e armas a baldom?
Ou des oimais quen'o dará,
pois dom Lopo Diaz mort'é
- o melhor dom Lopo, a la fé,
que foi nem jamais nom será?

E pero pois assi é já,
façamos atal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o salve, que en poder há.
E Deus, que o pode salvar,
esse o lev'a bom lugar,
pelo gram poder que end'há!

Amen! Amen! Aquest'amen
jamais nom si m'obridará!
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