Citações
Citações para inspirar e refletir
A situação dos sexos é tão humilhante quanto o resultado do negócio amoroso individual: a mulher ganhou menos em prazer do que o homem perdeu em força. Aqui há diferença em vez de soma. Um menos desprezível, contente por se colocar em segurança, faz de um mais um menos. Eis aqui o verdadeiro logro. Pois nada se ajusta pior a um prazer que acaba de começar do que uma força que já acabou; nenhuma situação em que seres humanos possam encontrar-se é mais impiedosa e mais digna de piedade. Nessa lacuna mora toda a doença do mundo. Uma ordem social que não reconheça isso e não se decida a trocar a medida de liberdade renunciou à humanidade.
74
Ainda não tentei, mas acho que para ler um romance eu precisaria primeiro encorajar-me e então fechar bem os olhos.
73
Ela disse que ia levando a vida. Bem que eu gostaria de ir levando a vida com ela!
76
Os meus anseios são conhecidos pessoalmente. Por isso se acredita que a minha arte não valha grande coisa.
77
O quarto conjugal é a convivência da brutalidade e do martírio.
69
A lógica é a inimiga da arte. Mas a arte não precisa ser a inimiga da lógica. A lógica precisa ter experimentado o gosto da arte e ter sido completamente digerida por ela. Para afirmar que dois vezes dois é cinco, é preciso saber que dois vezes dois é quatro. Todavia, quem sabe apenas isso, dirá que aquilo é falso.
75
Ele foi muito imprudente ao tirar as pedras do caminho dela a cada passo. Levou um pontapé.
74
Um dos caracteres sexuais voltou a ser inteiramente suficiente. Podemos distinguir uma sufragista de um bailarino.
63
Eles ficaram-me devendo a mais autêntica e mais profunda prova da sua veneração: reconhecer a própria superfluidade e aposentar-se, pelo menos literariamente, durante a minha vida. Enquanto não tiver obtido esse efeito, não acredito na durabilidade da minha influência. Oderint, dum metuant. Que amem, desde que não escrevam!
54
Cada frase deveria ser lida tantas vezes quantas fossem as correções que acompanharam o seu crescimento do manuscrito até à leitura. Porém, para poupar o leitor do que vai além das suas forças e da sua crença, gostaria de publicar cada frase nas suas dez metamorfoses, para que o todo, por fim, ainda fosse menos lido do que compreendido. Seria um caso raro na literatura. Mas poderia ser de alguma utilidade para compensar os danos de um século de tagarelice e de opiniões facilmente compreendidas.
71
Rubor, palpitações do coração, uma consciência pesada — isso acontece quando não se pecou.
87
A tristeza e a vergonha deveriam cobrir todas as pausas da verdadeira virilidade. Fora da criação, o artista tem a experimentar apenas a sua insignificância.
66
Se a linguagem é apenas uma roupagem, ela tornar-se-á andrajosa ou fora de moda. Até que chegue esse momento, pode-se andar entre as pessoas. Um smoking não torna imortal, mas popular. Mas o que vestem os jovens senhores ultimamente? Uma linguagem que consiste inteiramente de epítetos! Um traje sem tecido, mas todo feito de botões!
71
O contador de histórias distingue-se do político apenas pelo facto de ter tempo. Comum a ambos é que o tempo os tem.
75
Não me deixo mais enganar por nenhuma barba cerrada. Já sei qual é o sexo que usa calças nessa casa.
73
Para saber se o homem tem talento para o palco é preciso submetê-lo a um teste. A mulher está sempre em teste e é apta para o palco por natureza. Ela vive diante de espectadores. Ela sente que é o centro das atenções quando atravessa a rua, ainda que os figurantes saúdem a entrada de Napoleão. E ela relaciona todos os olhares com o centro.
69
Um artista que tem sucesso não deve baixar a cabeça. Ele só deve desesperar de si quando um embusteiro fracassa.
89
Os autores são agora aconselhados a ter experiências. Isso não os poderia ajudar. Pois se precisam ter experiências para poder criar, eles não criarão. E se não precisam criar para poder ter experiências, eles não as têm. Mas os outros, os artistas, fazem as duas coisas ao mesmo tempo. E a eles não há o que aconselhar nem como ajudar.
65
Quando o impressor me mandou as provas deste livro, vi a minha vida dividida no sumário. Observei que a mulher ocupava dez páginas, mas o artista trinta. Ele deve isto a ela.
74
Quem levou a sua pele ao mercado tem mais direito a mostrar-se sensível do que aquele que lá comprou uma roupa pechinchando.
63
O fraco duvida antes da decisão. O forte, depois.
84
O tormento não me deixa escolha? Bem, eu escolho o tormento.
77
Que posso fazer se M. realmente existe? Não o inventei, apesar disso? Se ele fosse um objeto, eu escolheria melhor. Caso reivindique ter sido ofendido pela sátira, ele a ofende.
68
O satirista nunca pode sacrificar algo mais elevado a um chiste, pois o seu chiste é sempre superior àquilo que sacrifica. Reduzido à opinião, o seu chiste pode causar injustiça; o pensamento tem sempre razão. Ele já coloca as coisas e as pessoas de tal modo que a nenhuma ocorra uma injustiça.
74
Entrar por um ouvido e sair pelo outro: nesses casos, a cabeça seria sempre uma estação de passagem. O que ouço tem de sair pelo mesmo ouvido.
84
A mulher toma um por todos; o homem, todas por uma.
68
Quem agora exagera, pode facilmente tornar-se suspeito de dizer a verdade. Quem inventa, de estar informado.
78
As verdadeiras verdades são aquelas que se pode inventar.
76
Considero meu direito inalienável colocar na forma artística que quiser o menor dos corpúsculos de sujeira que me tocar. Esse direito é um pobre equivalente do direito do leitor de não ler o que não lhe interessa.
73
A sátira não escolhe nem conhece objetos. Ela surge do facto de fugir deles e eles imporem-se a ela.
80
Que posso fazer se as alucinações e as visões vivem, têm nome e endereço?
90
O mundo externo é um sintoma secundário inoportuno de um estado de indisposição.
76
Apenas no deleite da geração das palavras surge um mundo a partir do caos.
66
Se devesse acreditar em algo que não vejo, ainda preferiria os milagres aos bacilos.
71
Não obstante, jamais ataquei uma pessoa por ela mesma, ainda que a tenha chamado pelo nome. Se fosse um jornalista, orgulhar-me-ia de criticar um rei. Mas visto que ataco a turba dos cocheiros, seria megalomania que um indivíduo se sentisse atingido. Caso mencione um deles, isso apenas ocorre porque o nome intensifica o efeito plástico da sátira. Depois de dez anos de trabalho artístico, as minhas vítimas deveriam estar suficientemente instruídas para reconhecer isto e finalmente desistir de se lamentar.
77
O pensamento é aquilo que falta a uma banalidade para ser um pensamento.
86
Os cegos não querem admitir que eu tenha olhos, e os surdos dizem que sou mudo.
85
Muitas pessoas com quem mantive contacto ao longo de uma vida variada têm algo contra mim, sabem algo contra mim. E há algo que também poderão provar contra mim: que mantive contacto com elas.
70
Não deixo de dar forma àquilo que me impede de dar forma.
70
Minha língua é a puta de todo o mundo que transformo em virgem.
78
Para a eternidade, a evolução é um passatempo. Não é coisa que leve a sério.
88
Sonhei que não acreditavam que eu tinha razão. Eu dizia que eles eram dez. Não, doze, disseram. Tantos dedos quanto há nas duas mãos, eu disse. Então um deles levantou a mão, e veja só, ela tinha seis dedos. Onze, portanto, eu disse, e apelei à outra mão. E veja só, ela tinha seis dedos. Soluçando, corri para a floresta.
83
Não tenho mais colaboradores. Tinha inveja deles. Eles afastam os leitores que eu mesmo quero perder.
65
O que me apresentam como objeção é com frequência a minha premissa. Por exemplo, que a minha polémica ataca a existência.
68
Eu falo de mim e refiro-me à coisa. Eles falam da coisa e referem-se a si próprios.
78
Eu e a vida: o caso foi decidido cavalheirescamente. Os adversários se separaram irreconciliados.
70
E do último cantinho de uma folha de jornal que ainda tenho nas mãos, já me espreita, visto que apenas passo os olhos, a carantonha de Judas do século, sempre a mesma, quer se trate do jornalista ou do médico, do vendedor ambulante ou do adepto da política social, do vendedor de especiarias ou do esteta. Sempre o mesmo estupor, com os cabelos frisados da moda e empanturrado de cultura. Com a toalha de barbeiro da época sobre os ombros, todos os idiotas são iguais, mas quando se levantam e começam a falar sobre a sua especialidade, um deles é filósofo e o outro é corretor da bolsa. Tenho essa capacidade funesta de não poder distingui-los, e reconheço o rosto primordial sem me esforçar pelo desmascaramento.
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Não peço fogo a ninguém. Não quero devê-lo a pessoa alguma. Não na vida nem no amor, nem na literatura. E, no entanto, fumo.
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