Citações
Citações para inspirar e refletir
Quando tomo a pena na mão, nada me pode acontecer. O destino deveria tomar nota disso.
79
Quando ocorrem as primeiras desilusões, saboreamos o desgosto pela vida em grandes goles, somos doidivanas da morte e estamos facilmente dispostos a sacrificar toda expectativa ao momento. Somente mais tarde amadurecemos para uma gastronomia do suicídio e reconhecemos que ainda é melhor ter a morte diante de si do que a vida atrás de si.
79
O pensamento regula o mundo como o bíter faz com o estômago arruinado: ele não tem nada contra o órgão.
65
O esclarecimento sexual é aquele procedimento impiedoso por meio do qual se impede os jovens por motivos de higiene de satisfazer a sua curiosidade por conta própria.
71
Sentado de noite à escrivaninha, num estágio avançado de deleite intelectual, eu sentiria a presença de uma mulher como sendo algo mais incómodo do que a intervenção de um germanista no quarto de dormir.
85
A sua criação artística oferecia um aspecto centauro: em baixo havia o desejo próprio de um garanhão, que se prolongava em cima no espírito de um homem.
82
Esse escritor só era despudorado por puro pudor. Ele envergonhava-se tanto da sua moralidade que se cobriu com temas que escandalizavam o público.
83
O palerma que não só não possui uma visão de mundo, mas também não a vê quando ela lhe é oferecida pela arte, precisa subtrair tanto de uma síntese satírica para a compreender até que sobre um nada, pois esse ele compreende, e pelo caminho do desmembramento, para ele transitável, chega aos motivos que o satírico deixou para trás e se identifica carinhosamente com o detalhe contra o qual, segundo a sua opinião, o satírico se dirigiu. O palerma também precisa sentir-se atingido por uma sátira que não lhe diz respeito ou acerta muito longe da sua esfera de interesses.
81
Bastaria, no devido tempo, ter proibido às crianças de se assoarem e os adultos já enrubesceriam ao fazê-lo.
80
Quem precisa de experiências em tamanho grande certamente será encoberto por elas. Eu travo titanomaquias com vírgulas.
81
Tenho as experiências de que preciso diante da parede corta-fogo que vejo da minha secretária. Ali há espaço suficiente para a vida, e posso pintar Deus ou o Diabo nela.
73
Não gosto de me intrometer nos meus assuntos privados.
81
O Sol tem visão de mundo. A Terra move-se. Contradições no artista são contradições no observador, que não experimenta o dia e a noite ao mesmo tempo.
76
Anseio ardentemente por aquela condição psíquica em que, livre de toda responsabilidade, sentirei a estupidez do mundo como um destino.
70
Quem deserdaria um erro que trouxe ao mundo e o trocaria por uma verdade adotada?
71
Dói-me o coração quando vejo que a vantagem de me trair é menor do que o prejuízo de estar em relações comigo.
65
O prazer do homem seria apenas um ímpio passatempo e jamais teria sido criado se não fosse o acessório do prazer feminino. A inversão dessa relação, transformada numa ordem em que um mísero clímax se arvora de essencial e, depois de deflagrado, interrompe tiranicamente a rica epopeia da natureza, significa o fim do mundo: mesmo que o mundo, com a compensação técnica, intelectual e desportiva, não o perceba por algumas gerações e não tenha mais fantasia suficiente para o imaginar.
71
Quando chamaram a atenção desse presente que ronca para o facto de alguém ter ficado dez anos sem dormir, virou-se para o outro lado e continuou a dormir.
65
Alimento-me de escrúpulos que eu mesmo preparo.
63
Minhas glosas necessitam de comentário. Caso contrário, são muito fáceis de compreender.
71
Gostaria de separar a minha existência da coexistência deles.
73
Nada disso, não sou um resmungão; o meu ódio contra esta cidade não é um amor que perdeu o seu rumo, mas encontrei uma maneira inteiramente nova de a achar insuportável.
80
Pode-se traduzir um editorial, mas não um poema. É verdade que se pode atravessar a fronteira nu, mas não sem pele, pois ao contrário da roupa, ela não volta a crescer.
78
O burguês não tolera nada incompreensível dentro de casa.
82
Há uma originalidade que provém da carência, que não é capaz de se elevar até à banalidade.
74
Os jovens falam tanto da vida porque não a conhecem. Ela os deixaria sem fala.
89
O amor do próximo não é o melhor, mas em todo caso é o mais cômodo.
83
Não tenho objeções à literatura romanesca pela razão de que me parece conveniente que aquilo que não me interessa seja dito de maneira prolixa.
86
Ele pintava os vivos como se estivessem mortos há dois dias. Quando certa vez quis pintar um morto, o caixão já tinha sido fechado.
65
Teatro de variedades. O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subitamente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma compreensão mais refinada já pressupõe a representação de um mestre de cerimónias que se esborracha no parquê. Seria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o humor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entre voando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter cerveja fazendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debaixo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio das outras e perguntam atenciosas: “O senhor notou isso?”. É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se um botão e um criado morre. O que for incómodo é tirado do caminho. Vigas dobram-se à vontade, tudo anda com desembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. Isso é incómodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a tiros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca vista é empregada para aquietá-lo. A vida tornou-se terrivelmente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar no sistema... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um defraudador trouxe lá da Europa.
79
“Espaço de tempo”: isso é um quodlibet de eternidade. Tentemos uma vez imaginar, sem ter dores de cabeça, o tempo de espaço.
82
E se a Terra apenas suspeitasse do quanto o cometa teme o contacto com ela!
70
O seu riso é um regulador da insanidade do mundo.
70
Nessa espelunca em que ladrões de cavalo húngaros trocam as suas hipóteses, nessa fumaceira de tabaco e usura, ouço subitamente entre teschek e betschkerek a palavra: Glaucope. Dita por um boca-aberta, mas com um efeito que me arrasta através dos milénios. Volto rapidamente a mim quando me ocorre que a deusa devia ser um cavalo de corrida.
72
Quem pensa profissionalmente nas razões do ser, nem sequer precisa realizar tanto a ponto de conseguir aquecer os seus pés com isso. Mas ao remendar sapatos, mais de um já chegou perto das razões do ser.
77
O progresso celebra vitórias de Pirro sobre a natureza.
70
A verdadeira metafísica repousa na crença de que um dia haverá sossego. O pensamento de uma ressurreição da carne lhe repugna.
73
O progresso faz porta-moedas de pele humana.
83
Um plagiador deveria copiar o autor cem vezes.
78
Hoje, um original é aquele que roubou primeiro.
79
A arte coloca a vida em desordem. Os poetas da humanidade restabelecem o caos continuamente.
75
Uma obra da língua traduzida em outra língua: alguém que atravessa a fronteira sem sua pele e do outro lado veste o traje típico do país.
87
Quando uma cultura sente que está a chegar ao fim, manda chamar o padre.
83
Há também um exotismo temporal que socorre a falta de talento exatamente da mesma maneira que a abordagem de ambientes estrangeiros. A distância, em todo caso, não é um obstáculo, mas o mimetismo da falta de personalidade.
74
As minhas palavras nas mãos de um jornalista são piores do que aquilo que ele próprio pode escrever. Para que, portanto, o aborrecimento de citar? Eles acreditam que podem oferecer provas de um organismo. Para mostrar que uma mulher é bonita, arrancam-lhe os olhos. Para mostrar que a minha casa é habitável, colocam a minha varanda sobre as suas calçadas.
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O progresso não se deixa deter por proibições. Na Engadina não é permitida a circulação de automóveis. A consequência? Os cocheiros dão sinais de buzina.
74
Em relação à nata da sociedade, um gourmet disse-me que preferia a borra da humanidade.
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O leitor com espírito alimenta a mais forte desconfiança contra aqueles escritores que vagueiam por ambientes exóticos. No melhor dos casos, eles não estiveram lá. Mas a maioria é feita de tal maneira que precisa fazer uma viagem para ter algo a contar.
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