Citações
Citações para inspirar e refletir
O austríaco por certo tem a sensação de que nada lhe pode acontecer porque a consciência de ter nascido num lugar condenado o protege de surpresas.
74
Uma aparência de profundidade surge com frequência pelo facto de uma cabeça rasa ser ao mesmo tempo uma cabeça confusa.
74
O escritor está aí para as pessoas? Para quando as noites se tornam longas? Vamos encurtá-las de outro modo! Contar-lhes mais alguma coisa? Algo empolgante antes que anoiteça completamente? Algo em fascículos? Estricnina e tortura! A noite é longa demais.
75
A cultura chega ao fim com a evasão dos bárbaros.
76
A carreira é um cavalo que chega sem cavaleiro diante dos portões da eternidade.
75
O que distingue Berlim de Viena ao primeiro olhar é a observação de que lá se consegue um efeito ilusório com o material mais desprovido de valor, enquanto aqui, na produção do kitsch, se emprega apenas material autêntico.
77
Na poesia épica há algo de superfluidade congelada.
68
Conheci um Don Juan da castidade cujo Leporello nem sequer era capaz de compor uma lista das mulheres inacessíveis.
80
Um lobo em pele de lobo. Um patife sob o pretexto de sê-lo.
80
A política engana-nos com valores germano-austríacos de simpatia. Mas, exceto por brindes e libretos, nada há que prove uma comunidade de espírito entre esses dois povos. Diplomatas e agentes teatrais empenham-se na aproximação. Os de fora ficam a saber então que há um reino misterioso em que Itzig e Janosch dão o tom, e estimam-nos pela subvenção de sangue hussardo e amor cigano que o dia de trabalho berlinense recebe. Um teatro chamado judaísmo, que flutua entre a Ringstrasse e a Unter den Linden, atesta e representa a nossa vida intelectual perante a Alemanha. Que diz a política sobre o facto de não haver livro que provenha da Áustria que não seja posto em música? A proveniência vienense é tão odiosa que só lhe são perdoados os produtos da imbecilidade e da patifaria. Por estes, pelo menos, reconhece-se a origem e admite-se a autenticidade. Mas que esforço sobre-humano custa impingir a literatura austríaca como presente a um vendedor ambulante! Que diz a política sobre o facto de Die Fackel, que há tempos luta por não ser mais notória na Áustria, depois de apenas dez anos começar a tornar-se o que é: um facto alemão?
66
Num retrato de verdade, precisamos reconhecer qual pintor representa.
87
As épocas morrem da gordura ou da magreza. A atual quer zombar da morte por meio de uma pobreza superalimentada.
72
O Diabo é um otimista se acredita que pode tornar os seres humanos piores.
75
O ódio deve tornar produtivo. Caso contrário, é mais sensato amar logo de uma vez.
76
Um original cujos imitadores são melhores não é um original.
102
Uma das doenças mais disseminadas é o diagnóstico.
58
Muitos têm a megalomania de ser loucos e são apenas cabeças-tontas.
80
Muitos negociantes de cavalos agora alimentam esperanças em relação a Pégaso.
69
Em Viena, os zeros se colocam à frente do um.
59
O imortal experimenta a calamidade de todas as épocas.
78
Uma pessoa que começou a contar-me as suas lembranças tinha uma voz que rangia como o portão do passado.
78
O sujeito gostava muito de citar um dito de Jean Paul: “Todo especialista é um asno na sua especialidade”. É que ele se sentia em casa em todas as especialidades.
75
Kokoschka fez um retrato meu. É possível que aqueles que me conhecem não me reconheçam. Mas aqueles que não me conhecem certamente me reconhecerão.
75
Eis uma coisa que eu gostaria muito de saber: o que tantas pessoas fazem com o seu horizonte ampliado?
81
Quando Deus viu que era bom, a crença humana sem dúvida lhe atribuiu a vaidade, mas não a insegurança do criador.
65
Comprometo-me a levar um homem ao patíbulo se exclamar na rua com uma entonação bastante resoluta: “Vejam só! E ainda por cima ele usa uma camisa colorida!”. Um grito indignado percorreria a multidão. A mesma multidão que agora procuram impressionar com sinfonias.
67
O monista deveria sacrificar-se pela sua verdade. Só então veríamos que a realidade nada perde e a imortalidade nada ganha, e a identidade estaria completamente demonstrada.
74
Não devemos aprender mais do que o absolutamente necessário contra a vida.
62
Se o conhecimento fosse um assunto do espírito, como poderia ele atravessar tantos espaços ocos para, sem deixar um traço da sua permanência, passar a tantos outros espaços ocos?
86
As sátiras que o censor compreende são proibidas com razão.
69
Por que o público é tão insolente em relação à literatura? Porque ele domina a língua. As pessoas se atreveriam exatamente da mesma maneira em relação às outras artes caso se dirigir cantando aos demais, lambuzar-se com tinta ou atirar gesso fossem meios de comunicação. A desgraça está justamente no facto de a arte da palavra trabalhar a partir de um material que passa todo dia pelas mãos da ralé. É por isso que a literatura não tem mais salvação. Quanto mais ela se afasta da compreensibilidade, tanto maior é a impertinência com que o público reclama o seu material. O melhor seria esconder a literatura do público até entrar em vigor uma lei que proíba as pessoas de usarem a linguagem coloquial e apenas lhes permita fazer uso de uma linguagem de sinais em casos de urgência. Mas até que essa lei entre em vigor, elas poderiam ter aprendido a responder à ária “Como vão os negócios?” com uma natureza morta.
78
O sentido tomou a forma, ela resistiu e entregou-se. Nasceu o pensamento, que leva os traços de ambos.
67
O pensamento é algo que se encontra, que se reencontra. E quem o procura é um encontrador honesto; ele é seu, mesmo que outro também já o tenha encontrado antes dele.
85
A ciência é análise espectral. A arte é síntese luminosa.
68
O original sempre volta a absorver o que lhe foi retirado. Mesmo que venha ao mundo mais tarde.
74
O jornalismo, que conduz os espíritos para dentro do seu curral, conquista a sua pastagem entretanto. Jornalistas querem ser autores. Publicam-se antologias de folhetim nas quais nada causa mais espanto do que o trabalho não se ter desintegrado nas mãos do encadernador. Assa-se pão a partir de migalhas. O que lhes dá a esperança da permanência? O interesse permanente no material que eles “escolhem”. Alguém que tagarela sobre a eternidade não deveria ser ouvido enquanto a eternidade durar? Desta falácia vive o jornalismo. Ele tem sempre os maiores temas, e nas suas mãos a eternidade pode tornar-se atual; mas ela acaba envelhecendo com a mesma facilidade. O artista dá forma ao dia, à hora, ao minuto. Por mais limitado e condicionado temporal e espacialmente que seja o seu motivo, a sua obra cresce mais ilimitada e livremente quanto mais dele se afasta. Que ela envelheça serenamente no instante: ela rejuvenesce com o passar das décadas.
70
Contra isso, a tendência deslocadora de valores do jornalismo nada pode fazer. Ele pode dar certificados de garantia válidos por um século para os relógios aos quais dá corda: eles já estão parados quando o comprador saiu da loja. O relojoeiro diz que a culpa é do tempo, e não do relógio, e gostaria de fazer aquele parar a fim de salvar a reputação do relógio. Ele fala mal da hora ou a condena a um silêncio de morte. Mas o génio da hora segue em frente e faz amanhecer e anoitecer, embora o mostrador queira outra coisa. Quando ele bate dez horas e mostra onze, podemos contar que é meio-dia, e o sol dá risada dos relojoeiros ofendidos.
71
Um pensamento só é legítimo quando temos a sensação de que nos surpreendemos plagiando a nós mesmos.
66
Se lhe roubarem alguma coisa, não vá à polícia, à qual isso não interessa, e também não vá ao psicólogo, a quem só interessa, no fundo, o facto de ter sido você que roubou alguma coisa.
92
Os psicólogos modernos que ampliam os limites da irresponsabilidade ocupam um vasto lugar nela.
93
O que os professores digerem, os alunos comem.
67
A língua é a mãe, e não a criada do pensamento.
106
Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvida o facto de que em Die Fackel falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada no meu nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou, a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre os dez anos de Die Fackel “no meu próprio jornal”. Tendo sido chamada a minha atenção, preciso confessar que é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tornou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso, ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo estar-por-dentro que descobre um calcanhar de Aquiles é, portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele desnudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o décimo ano da minha incorrigibilidade, então réplicas não adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e para a coincidência desse aparente interesse próprio com os fins universais da minha atuação. Eles não são capazes de compreender que se alguém se confunde com uma causa sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não são capazes de compreender que aquilo que chamam de vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se mede segundo a sua própria medida e a possui em si, aquela vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamento mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mulher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é imprescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação artística com o cuidado presunçoso que trabalha num penteado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social? Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a modéstia dos espíritos reprodutores.
76
O clichê e a coisa são uma coisa só.
88
O pensamento está no mundo, mas não o temos. Ele está decomposto em elementos linguísticos pelo prisma da experiência material: o artista os compõe num pensamento.
74
O aforismo requer o fôlego mais longo.
76
O homem que não pensa, pensa que só temos um pensamento quando o temos e o vestimos com palavras. Ele não compreende que na verdade só o tem aquele que tem a palavra dentro da qual o pensamento cresce.
89
Megalomania não é considerarmos-nos mais do que somos, mas considerarmos-nos aquilo que somos.
68