Citações
Citações para inspirar e refletir
O pensador ou artista que guardou o melhor de si nas suas obras sente uma alegria quase maldosa ao olhar o seu corpo e o seu espírito a serem alquebrados e destruídos pelo tempo, como se de um canto observasse um ladrão a arrombar o seu cofre, sabendo que ele está vazio e que os tesouros estão salvos.
66
Estou espantado por constatar quão pouco os outros filósofos me compreendem.
66
A glória pessoal não é mais que o resultado da acomodação de um espírito à imbecilidade de um povo.
88
De minha parte, declaro resolutamente e de todo o coração que, se me fosse pedido que escrevesse um livro para ser investido da mais alta autoridade, eu preferiria escrevê-lo de modo a que um leitor pudesse encontrar, ressoando em minhas palavras, quaisquer verdades que ele fosse capaz de apreender. Preferiria escrever dessa maneira a impor um único significado verdadeiro tão explicitamente que excluísse todos os demais, ainda que eles não contivessem falsidade alguma que me pudesse desagradar.
61
Para um homem verdadeiramente sábio, a aprovação judiciosa e ponderada de um único sábio proporciona mais satisfação sincera do que todos os ruidosos aplausos de dez mil admiradores ignorantes, ainda que entusiásticos.
52
Para aqueles que se habituaram à posse de admiração pública, ou mesmo à esperança de conquistá-la, todos os demais prazeres empalidecem e definham.
63
Como se a multidão ou os mais sábios em nome da multidão não estivessem prontos a dar passagem muito mais àquilo que é popular e superficial do que ao que é substancial e profundo; pois a verdade é que o tempo parece ter a natureza de um rio ou correnteza, que carrega até nós tudo o que é leve e inflado, mas afunda e afoga tudo aquilo que tem peso e solidez.
66
Para mim um único homem é dez mil, se ele for o melhor.
48
Interpretar as interpretações emprega mais trabalho do que interpretar os textos, e existem mais livros sobre livros do que sobre qualquer outro assunto: tudo o que fazemos é glosar uns aos outros. Há abundância de comentários, mas escassez de autores. Aprender a entender os entendidos tornou-se o principal e mais celebrado aprendizado da nossa época; não reside nisso o fim último dos nossos estudos?
63
A crença derradeira é acreditar numa ficção, que tu sabes ser ficção, nada mais havendo além disso; a espantosa verdade é saber que se trata de uma ficção, e que tu acreditas nela por vontade própria.
39
Alguns, em nome da fama, com farrapos de erudição se besuntam, e imortais se crêem tornar à medida que citam.
58
Uma teologia que insiste no uso de determinadas palavras e frases, ao passo que proíbe outras, em nada torna as coisas mais claras. [...] Ela gesticula com palavras, como se poderia dizer, porque deseja dizer algo e não sabe como expressá-lo. A prática dá às palavras o seu significado.
60
É terrível observar como uma única ideia obscura, uma única fórmula desprovida de significado que permaneça latente na cabeça de um jovem atuará por vezes como uma obstrução de matéria inerte numa artéria, prejudicando a nutrição do cérebro e condenando a sua vítima a definhar na plenitude do seu vigor mental e em meio à prosperidade intelectual.
43
Algumas vezes uma expressão tem de ser retirada da linguagem e submetida a um processo de limpeza — só então ela pode ser recolocada em circulação.
60
Quanto mais bem formuladas estiverem as ideias, quanto mais explícitas elas forem, menor será a sua eficácia: uma ideia clara é uma ideia sem futuro.
72
Se as elucubrações dos filósofos fossem traduzidas para uma linguagem normal, o que restaria delas? A operação [sugere Valéry] seria devastadora para a maioria deles. Mas devemos acrescentar que o seria também, em quase igual medida, para qualquer escritor, e particularmente para Valéry: se despojássemos o brilho da sua prosa, se reduzíssemos qualquer um dos seus pensamentos ao seu contorno esquelético, o que sobraria deles?
70
Acredito que algumas das maiores mentes que até hoje existiram não tenham lido nem a metade e soubessem consideravelmente menos do que alguns dos nossos medíocres scholars. Creio que alguns dos nossos scholars realmente medíocres poderiam ter chegado a ser homens mais grandiosos caso não tivessem lido em demasia.
73
A linguagem fala. […] Em oposição a uma caracterização do sentido das palavras exclusivamente como conceitos, trata-se de trazer para o primeiro plano o caráter simbólico e figurativo da linguagem. A biologia e a antropologia filosófica, a sociologia e a psicopatologia, a teologia e a poética — todas elas devem ser mobilizadas a fim de descrever e explicar os fenómenos linguísticos de modo mais abrangente.
61
Toda uma mitologia está depositada em nossa linguagem.
48
Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que tenho lido.
75
Quanto mais de perto se encara uma palavra, com mais distância ela nos encara de volta.
63
Deveríamos livrar-nos, de uma vez por todas, da sedução das palavras!
67
Um romance é como o arco, e a alma do leitor é como o corpo do violino que emite o som.
78
O prazer de escrever como contrapeso do [prazer] de ler.
58
Estamos sempre dispostos a atribuir aos escritos dos outros sentidos que favoreçam as nossas opiniões sedimentadas: um ateu se orgulha de fazer com que todos os autores reforcem a causa do ateísmo. Ele envenena com a sua própria peçonha o mais inocente pensamento.
45
Leia não para contradizer nem para acreditar, mas para ponderar e considerar. Alguns livros são para serem degustados, outros para serem engolidos, e alguns poucos para serem mastigados e digeridos. A leitura torna o homem completo, as preleções dão-lhe prontidão, e a escrita torna-o exato.
99
Pois, tendo resolvido examinar o entendimento humano e os caminhos do conhecimento, não pelas opiniões dos outros, mas pelo que pudesse reunir eu mesmo com base nas minhas próprias observações, evitei deliberadamente a leitura de todos os livros que tratassem de alguma maneira do meu tema, de modo que nada me pudesse enviesar de alguma forma.
54
Por meio das palavras e dos conceitos somos continuamente tentados a pensar nas coisas como sendo mais simples do que são, como separadas umas das outras, como indivisíveis, cada uma existindo por e para si mesma. Existe uma mitologia filosófica escondida na linguagem, que a todo momento irrompe novamente, por mais cautelosos que sejamos.
70
Foi pela obscuridade de sua linguagem que Heráclito conquistou a veneração dos ignorantes. Os tolos, com efeito, só estimam e admiram o que se lhes apresenta em termos enigmáticos.
48
Não me inspiro nas citações; valho-me delas para corroborar o que digo e que não sei tão bem expressar, ou por insuficiência da língua ou por fraqueza do intelecto. Não me preocupo com a quantidade e sim com a qualidade das citações. Se tivesse desejado que fossem avaliadas pela quantidade, teria podido reunir o dobro.
58
A autoridade dos mortos não aflige, e é definitiva.
54
A filosofia é uma batalha contra o enfeitiçamento da nossa inteligência por meio da linguagem.
53
A maioria não tem apreço pelo que entende, e o que não compreendem, veneram. Para serem estimadas, as coisas têm de custar: será celebrado tudo o que não for entendido.
61
A curiosa semelhança de família de todo filosofar indiano, grego e alemão tem uma explicação simples. Onde há parentesco linguístico é inevitável que, graças a uma filosofia da gramática que lhes é comum — quero dizer, graças ao domínio e direção inconsciente por meio das mesmas funções gramaticais —, tudo esteja predisposto para uma evolução e uma sequência similares dos sistemas filosóficos, assim como o caminho parece fechado a certas possibilidades outras de interpretação do mundo.
71
O que devem pensar os ingleses e os franceses da linguagem dos nossos filósofos, quando nem mesmo nós, alemães, a compreendemos!
67
Muitos homens fracassam em se tornar pensadores somente porque a sua memória é demasiadamente boa.
46
Não devemos ler escritos sobre a matéria acerca da qual estamos a refletir, do contrário atamos o génio.
24
Embora tenha sido um leitor voraz e ardente, não me lembro contudo de nenhum livro que tenha lido, a tal ponto eram as minhas leituras estados da minha própria mente, sonhos meus, e mais ainda provocações de sonhos.
79
Um autor aparece com mais vantagem nas páginas de outro livro, distinto do seu. No seu próprio, ele é apenas um candidato à espera da aprovação do leitor; no livro de outro autor ele tem a autoridade de quem legisla.
87
Onde os antigos homens colocavam uma palavra, acreditavam ter feito uma descoberta. Como é diferente a verdade! — eles haviam tocado num problema e, supondo que o tinham solucionado, haviam criado um obstáculo para a solução. — Agora, a cada porção de conhecimento com que nos deparamos temos de tropeçar em palavras mortas e petrificadas, e é mais fácil quebrarmos uma perna do que uma palavra.
55
O infortúnio dos escritores lúcidos e claros é que os consideramos pouco profundos e, por isso, pouco esforço é empregado na sua leitura; e a boa fortuna dos escritores obscuros é que o leitor se ocupa bastante deles e lhes credita o prazer que obtém por meio da sua própria diligência.
71
O autor tem direito ao prefácio; mas ao leitor pertence o posfácio.
70
Ah, o quanto me repugna impingir a outro meus pensamentos! Como me alegro de todo estado de ânimo e secreta mudança dentro de mim, em que os pensamentos de outros prevalecem diante dos meus! De vez em quando, porém, há uma festa ainda maior, quando é permitido distribuir seus bens espirituais, à maneira do confessor que se acha sentado no canto, ávido de que um necessitado venha e fale da miséria de seus pensamentos, para que ele possa lhe encher a mão e o coração e aliviar a alma inquieta!
53
Quando chegamos aos átomos, a linguagem só pode ser usada como na poesia.
72
Para alguém que provou de modo profundo a ocupação da escrita, o prazer da leitura é apenas secundário.
58
O que quer que um outro disser bem, é meu.
50
Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça.
60
É necessário mais espírito para prescindir de uma palavra do que para empregá-la.
53