Dicionário de Termos Poéticos
Definições, exemplos e etimologias de termos literários
Epifania
TécnicaMomento de revelação súbita e intensa que transforma a percepção do sujeito poético face à realidade ou a si mesmo.
A poesia de Eugénio de Andrade é uma sucessão de epifanias sensoriais — a luz, o corpo, a água como revelações.
Epífora
Figura RetóricaRepetição de uma ou várias palavras no final de versos ou cláusulas sucessivas; figura simétrica à anáfora.
«Saudade, sempre saudade, / eterna saudade» — a palavra final repete-se com carga emocional crescente.
Epíteto
Figura RetóricaAdjectivo ou sintagma adjectival que exprime uma qualidade característica do substantivo, frequentemente ornamental.
Camões: «as armas e os barões assinalados» — «assinalados» é epíteto épico; «o verde e frescor» de Cesário Verde.
Escansão
Estrutura PoéticaDivisão do verso em sílabas poéticas.
No-mei-o-do-ca-mi-nho-ti-nha-u-ma-pe-dra (10 sílabas)
Estrofe
EstruturaConjunto de versos que formam uma unidade estrutural dentro do poema, com medida, rima e disposição regulares.
O soneto compõe-se de dois quartetos e dois tercetos; a oitava rima, de oito decassílabos.
Eufemismo
Figura de LinguagemAbrandamento de uma expressão desagradável.
Ele partiu para um lugar melhor.
Eufonia
Recurso SonoroEfeito sonoro agradável produzido pela combinação de fonemas que resulta harmoniosa e musical ao ouvido.
Eugénio de Andrade: «Há um brilho de frutos maduros na tarde» — suavidade vocálica e ritmo ondulante.
Exclamação
Figura RetóricaExpressão interjectiva que intensifica o conteúdo emotivo do verso, marcada frequentemente por sinais tipográficos.
Camões: «Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal!» — a exclamação dramatiza a interpelação.
Existencialismo Poético
Movimento LiterárioTendência lírica que interroga a existência humana, a angústia, a morte e o vazio como temas centrais do poema.
Antero de Quental nos Sonetos; Sophia de Mello Breyner na sua meditação sobre o ser; Herberto Helder na poesia órfica.
Fernandismo
TécnicaTendência poética fortemente marcada pela influência de Fernando Pessoa, com heteronímia, ironia e reflexão metapoética.
Muitos poetas portugueses do século XX dialogam com Pessoa criando «heterónimos» ou adoptando a sua ironia filosófica.
Figura Retórica
TécnicaTermo genérico para os procedimentos da linguagem que se afastam do uso ordinário para conseguir efeitos expressivos.
Metáfora, anáfora, hipérbato, hipérbole — todas são figuras retóricas catalogadas desde a Antiguidade.
Forma Fixa
Forma PoéticaComposição poética que obedece a um esquema métrico, rítmico e estrutural codificado pela tradição.
O soneto, a oitava rima, o villancete, a redondilha e a sextilha são formas fixas da poesia portuguesa.
Geração de 70
Movimento LiterárioGrupo de escritores portugueses da década de 1870 que introduziram o Realismo e o Positivismo na literatura, rompendo com o Romantismo.
Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins — as Conferências do Casino (1871) são o seu manifesto.
Geração de Orpheu
Movimento LiterárioGrupo modernista português que em 1915 publicou a revista Orpheu, inaugurando o Modernismo em Portugal.
Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Álvaro de Campos — a constelação de Orpheu.
Gradação
Figura RetóricaFigura que ordena uma série de palavras, ideias ou imagens de menor para maior intensidade (clímax) ou inversamente (anticlímax).
«Um suspiro, um desejo, uma esperança, uma certeza» — gradação ascendente para a afirmação.
Haiku
Forma PoéticaPoema brevíssimo de origem japonesa de três versos (5-7-5 sílabas em japonês), que capta um instante sensorial da natureza.
Bashô: «Um velho tanque. / A rã salta. / Ruído da água.» (trad. portuguesa)
Hemistíquio
EstruturaCada uma das duas metades em que a cesura divide um verso longo, com entidade rítmica própria.
Alexandrino de Drummond: «No meio do caminho || tinha uma pedra» — dois hemistíquios de 6 sílabas.
Heterónimo
TécnicaPersona poética com biografia, estilo e cosmovisão autónomas, criada por Fernando Pessoa, distinta do simples pseudónimo.
Alberto Caeiro (paganismo naturalista), Ricardo Reis (classicismo horaciano), Álvaro de Campos (sensacionismo futurista).
Hipálage
Figura de LinguagemTransferência de uma característica de um termo para outro.
A biblioteca ansiosa esperava os leitores.
Hipérbato
Figura RetóricaAlteração da ordem sintáctica habitual das palavras para obter um efeito estético ou rítmico.
Camões: «Das armas e dos barões o canto» — inversão latinizante que eleva o registo épico.
Hipérbole
Figura RetóricaExageração intencional para intensificar uma ideia, um sentimento ou uma imagem, sem intenção literal.
Camões: «Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente» — os paradoxos ampliam o sentimento.
Humanismo
Movimento LiterárioMovimento intelectual e literário do Renascimento que coloca o Homem no centro, recuperando a cultura greco-latina.
André de Resende, Damião de Góis e Sá de Miranda são figuras do Humanismo português.
Imagem
TécnicaRepresentação sensorial ou mental construída pela linguagem; pode ser visual, auditiva, táctil, olfactiva ou gustativa.
Eugénio de Andrade: «Há um brilho de frutos maduros na tarde» — imagem sinestésica de luz, cor e sabor.
Imaginário
TécnicaConjunto de imagens recorrentes que caracterizam um poeta ou uma obra, formando um universo simbólico coerente.
O imaginário pessoano: o rio Tejo, a névoa, os cais, o mapa — um sistema de símbolos da saudade e do exílio interior.
Interseccionismo
TécnicaTécnica modernista pessoana que sobrepõe planos temporais, sensoriais e perspectivos diferentes num mesmo poema.
Álvaro de Campos, «Opiário»: sobreposição de sensações, memórias e estados de alma num único fluxo vertiginoso.
Intertextualidade
TécnicaRelação que um texto mantém com outros textos, mediante citação, alusão, paródia, reescrita ou eco consciente.
Pessoa reescreve Horácio em Ricardo Reis; Saramago e Lobo Antunes dialogam com a épica camoniana.
Invocação
TécnicaChamada ao início de um poema épico ou lírico a uma Musa, divindade ou instância superior para solicitar inspiração.
Camões, Os Lusíadas: «E vós, Tágides minhas, pois criado / tendes em mim um novo engenho ardente.»
Ironia
Figura RetóricaExpressão de uma ideia mediante o seu contrário, criando uma distância entre o que se diz e o que se quer significar.
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos): «Não sou nada. / Nunca serei nada» — ironia existencial que encobre uma afirmação.
Juglaresía
Género PoéticoArte e ofício do jogral, transmissor oral da poesia épica e lírica popular na Idade Média galego-portuguesa.
Os jograis difundiam as cantigas trovadorescas nas cortes e feiras; o Cancioneiro da Ajuda regista este repertório.
Leixa-pren
EstruturaTécnica de encadeamento das cantigas de amigo em que o último verso de uma estrofe é retomado no início da seguinte.
Nas cantigas de amigo com estrutura paralelística, o leixa-pren cria um efeito de onda e de obsessão temática.
Lírica
Género PoéticoGénero poético que exprime os sentimentos, pensamentos e meditações do sujeito, em oposição à épica e à dramática.
A lírica portuguesa vai das cantigas medievais às heteronímias pessoanas, passando pelo lirismo de Camões e de Antero.
Litote
Figura RetóricaAtenuação de uma afirmação mediante a negação do contrário; em português também chamada atenuação ou eufemismo negativo.
«Não é mau poeta» (= é bom poeta); «não foi pouco o que sofreu» (= sofreu muito).
Madrigal
Forma PoéticaComposição lírica breve de tema amoroso, em versos heptassílabos e decassílabos de rima livre.
Camões cultivou o madrigal italiano; Bocage no século XVIII renovou a forma com sensualidade neoclássica.
Metáfora
Figura RetóricaIdentificação de duas realidades distintas baseada numa semelhança, sem usar termos comparativos explícitos.
Pessoa: «O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.»
Metáfora Extendida
Figura RetóricaMetáfora que se desenvolve e amplifica ao longo de vários versos ou de um poema completo.
O «Cântico Negro» de José Régio é uma metáfora extendida da vontade criadora e da recusa da conformidade.
Metonímia
Figura RetóricaSubstituição de um termo por outro com o qual mantém uma relação de contiguidade, causalidade ou inclusão.
«Ler Camões» (por «ler as obras de Camões»); «a pátria» por «os portugueses».
Métrica
Estrutura PoéticaMedida do número de sílabas poéticas em um verso.
Verso decassílabo tem 10 sílabas.
Modernismo
Movimento LiterárioMovimento poético que busca a ruptura com o passado.
Semana de Arte Moderna de 1922.
Modernismo Português
Movimento LiterárioMovimento literário inaugurado em 1915 pela revista Orpheu, que introduziu em Portugal as vanguardas europeias.
Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Florbela Espanca são as suas vozes maiores.
Mote
EstruturaVerso ou conjunto de versos breves que servem de tema a uma composição poética mais longa, geralmente uma glosa.
«Trovas ao Mote» de Gil Vicente: o mote é dado e o poeta deve glosá-lo em redondilhas ou décimas.
Neoclassicismo
Movimento LiterárioMovimento do século XVIII que recupera os ideais clássicos de ordem, razão e preceptiva frente ao excesso barroco.
Bocage, Filinto Elísio e a Arcádia Lusitana representam o Neoclassicismo português.
Neologismo
TécnicaPalavra ou expressão recém-criada, ou palavra já existente com novo significado, usada em poesia para efeito criativo.
Herberto Helder cria neologismos constantes; Álvaro de Campos usa anglicismos e tecnicismos como neologismos poéticos.
Neoplatonismo
Movimento LiterárioCorrente filosófica que idealiza o amor como ascensão da alma à Beleza e ao Bem divino, com grande influência na lírica renascentista.
Camões e Sá de Miranda exprimem o ideal neoplatónico do amor como caminho para o transcendente.
Oitava Rima
Forma PoéticaEstrofe de oito decassílabos com rima consoante ABABABCC, forma nobre da épica renascentista.
Camões, Os Lusíadas: toda a epopeia é composta em oitavas rimas de decassílabos heroicos.
Onomatopeia
Recurso SonoroPalavra ou expressão cujo som imita ou evoca o som do objecto ou acção que designa.
«O pio do mocho», «o farfalhar das folhas», «o tilintar dos sinos» — palavras que realizam o som que descrevem.
Oxímoro
Figura RetóricaFigura que une numa única expressão dois termos de sentido oposto ou contraditório.
Camões: «Amor é fogo que arde sem se ver» — o fogo que arde sem se ver é oxímoro e paradoxo.
Paradoxo
Figura RetóricaAfirmação aparentemente absurda ou contraditória que encerra uma verdade profunda ou inesperada.
Antero de Quental: «Só a morte sabe o que é a vida» — o paradoxo condensa a meditação existencial.
Paralelismo
Figura RetóricaRepetição de estruturas gramaticais similares em versos ou cláusulas sucessivos, criando simetria e ritmo.
Cantiga de amigo de D. Dinis: «Ai flores, ai flores do verde pino, / se sabedes novas do meu amigo?» — paralelismo bimembre.